A base do modelo de estratificação do mecanismo psíquico é a combinação entre instâncias do psiquismo e dimensões da linguagem que implicam em pelo menos três modos de tempo, dessa maneira, podemos dizer que este sistema funciona de forma paradoxal. A contradição lógica que aí opera é a de que a memória é uma língua e está a serviço de espaços temporais e lingüísticos que seguem regras distintas.
Na Carta 52 que Freud elabora a Fliess em 6 de dezembro de 1886 (Freud, 1996[1886])5 consta a afirmação que o aparelho psíquico é um aparelho de memória “... que essa memória está sujeita a reordenamentos segundo novas articulações, e que esses reordenamentos constituem uma sucessão de inscrições e retranscrições” (Garcia-Rosa 1991[1936], p. 199) Dessa maneira, “a memória não preexiste de maneira simples, mas múltipla, está registrada em uma variedade de signos” (Freud, 1996[1886], p. 283). Nesse sentido, pode-se dizer que a carta 52 é um “modelo lingüístico” (Dunker,
5 Esta é uma reprodução quase completa da carta 52. A reprodução integral pode ser vista em A correspondência completa de Sigmund Freud para Wilhelm Fliess, Rio de Janeiro: Imago, 1986.
1996, p. 52) para representar o psiquismo. Embora este modelo esteja apoiado na primazia do organismo, pelo fato de ser um esboço pré-psicanalítico e por estar ligado aos elementos cerebrais, seu teor “possui uma textura... lingüística e temporal” (Op.Cit., p. 52), que possibilita compreender um sistema multiestratificado, ao qual Dunker faz alusão no modelo da Carta 52 como um esboço elementar de uma “metáfora geológica” e de uma “metáfora ótica”, por ser um esquema próximo daquele que Freud vai desenvolver em “A interpretação dos sonhos” .
A primeira hipótese de Freud nesta carta é a de que o:
“... mecanismo psíquico tenha-se formado por um
processo de estratificação: o material presente em forma de
traços da memória estaria sujeito, de tempos em tempos, a um
rearranjo segundo novas circunstâncias – a uma retranscrição
(...) a tese de que a memória não se faz presente de uma só vez, mas se desdobra em vários tempos; que ela é registrada em diferentes espécies de indicações”. (Freud,
1996[1986], p. 281, negritos meus).
Por essa via, o aparelho psíquico é um aparelho de memória que implica na insistência de traços. De acordo com Garcia-Roza (1991[1936]) “é através dos traços mnêmicos que os acontecimentos psíquicos ficam gravados de forma permanente na memória, sendo reativados por efeito de investimento” (Op. Cit., p. 201).
Os traços podem ser decifrados a partir de três estratos, pois cada um deles tem seu registro nas variedades de signos. Sobre estes estratos, Dunker
(1996) enfatiza que “nexos entre signos é o que define uma língua, pode-se afirmar que cada estrato equivale a uma língua” (Op. Cit., p. 53) e que a análise desse sistema de multiestratificação obedece a uma ordem lógica ou semiótica diferente para cada estrato e interestratos.
O primeiro estrato diz respeito à primeira inscrição sígnica das percepções: “Wz (Wahrnehmungszeichein) é o primeiro registro das percepções; é praticamente incapaz de assomar à consciência e se dispõe conforme as associações por simultaneidade” (Op.Cit., p. 282). Dessa maneira, o princípio regulamentado neste estrato é o da simultaneidade que anuncia não operar sobre as noções de hierarquia, linearidade e cronologia, uma vez que a “simultaneidade implica na ausência de anterioridade ou posterioridade temporal e na ausência da relação de causalidade” (Lalande, 1999[1926], p.1023) por isso a ordem é da “sincronia significante” (Lacan, 1998[1964], p. 48).
O estrato que representa a transcrição “Ub (Unbewusstsein) [inconsciência] é o segundo registro, disposto de acordo com as relações (talvez causais). Os traços Ub talvez correspondam a lembranças conceituais; igualmente sem acesso à consciência” (Freud, 1996[1886], p. 282). Pode-se dizer que esse estrato implica a noção de causalidade que, de acordo com Dunker (1996), deve ser lida enquanto uma “estrutura gramatical da proposição que expressa a causalidade” (Op. Cit., p. 55), que faz pensar numa concepção lógica da linguagem, uma vez que: “na inconsciência não se trata apenas de uma coexistência entre signos em co-presença (como nos
‘Wahrnehmungzeichen’), mas da linguagem como um conjunto de proposições articuladas segundo uma sintaxe específica” (Op.Cit., p. 56).
A retranscrição diz respeito ao terceiro estrato:
“Vb (Vorbewusstsein) [pré-consciência] é a terceira
transcrição, ligada às representações verbais e correspondendo ao nosso ego reconhecido como tal. As catexias provenientes de Vb tornam-se conscientes de acordo com determinadas regras; essa consciência secundária do pensamento é posterior no tempo e provavelmente se liga à ativação alucinatória das representações verbais, de modo que os neurônios da consciência seriam também neurônios da percepção e, em si mesmo, destituídos de memória” (Freud,
1996[1886], p. 282-283).
O tipo de traço mnêmico envolvido no terceiro estrato é o da representação-palavra que implica no princípio do sistema de diferença, ou seja, “diferença esta que expressa a preferência por um caminho em detrimento de outro” (Garcia-Rosa 1991[1936], p. 202). Por essa via, a retranscrição não implica na abolição do estrato da segunda transcrição, mas funciona de maneira inversa, como uma simultaneidade de outra ordem de modo que, uma falha ou ausência de tradução em outro patamar do estrato implique no que Freud denominou de recalque (Verdrängung):
“dentro de uma mesma fase psíquica e entre registros de uma mesma espécie, forma-se uma defesa normal devida à produção de desprazer. Já a defesa patológica somente ocorre contra um traço de memória de uma fase anterior, que ainda não foi traduzido” (Freud, 1896[1986], p. 283).
A defesa psíquica é desencadeada pela lembrança, a recordação quando desprendida de desprazer marca um funcionamento defensivo normal, mas se a marca da rememoração produz um outro desprazer, está indiciado um funcionamento patológico.