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A Organização Mundial da Saúde (1948, p. 100) conceitua saúde como “um estado de completo bem-estar físico, mental e social, e não meramente a ausência de doenças ou enfermidades”.

O conceito de saúde, não pode ser definido com precisão. O que se entende por saúde depende da concepção que se possui do organismo vivo e de suas relações com o meio ambiente. Como essa concepção muda de uma cultura para outra e de uma era para outra, as noções de saúde também mudam. Saúde é uma experiência subjetiva, algo que pode ser conhecido intuitivamente, mas nunca descrito ou qualificado (CAPRA 1992).

Assim, para Capra (1992), a saúde não pode ser concebida como um estado estático de perfeito bem-estar, mas sim como um processo em constante mudança e evolução. Uma vez percebida a relatividade e a natureza subjetiva do conceito de saúde e doença, percebe-se que estes são fortemente influenciados pelo contexto cultural em que ocorrem. A estrutura para os

programas de saúde só pode ser efetiva se baseada em conceitos de cada cultura, segundo a dinâmica da evolução social e cultural.

A preocupação que tem orientado as pesquisas sobre estresse é relacionada ao estresse negativo, com interesse na compreensão do impacto do estresse sobre a saúde, o organismo e a vida produtiva dos trabalhadores. O impacto do estresse sobre a saúde mental e física dos indivíduos tem sido muito documentado por vários pesquisadores em todo o mundo (BROADBRIDGE, 2002). Por conseqüência, isto pode exacerbar uma diminuição de performance no trabalho e levar a uma série de morbidades (Quadro 1).

Dores de cabeça a Câncer a,b

Alergias a Doenças Cardíacas a b Problemas de Coluna a Doenças Respiratórias a,b Gripes e Resfriados a Trombose a,b

Depressão a Artrite a,b Ansiedade c Úlcera a b Irritação c Hipertensão a,b Tensões c

Quadro 1 - Manifestações do estresse sobre a saúde humana.

Fonte: a Arroba and James, b Quick et al., c Cooper et al. apud Broadbrige (2002).

O estilo de vida é definido como “a forma de vida baseada em padrões identificáveis de comportamento, os quais são determinantes pela interação de papéis entre as características pessoais, interações sociais e as condições de vida sócio-econômicas e ambientais” (WHO, 1998, p.16). Os estilos de vida individuais caracterizados pelos padrões identificáveis de comportamento, podem ter um efeito profundo na saúde dos seres humanos. Se a saúde vai ser objeto de intervenção possibilitando aos indivíduos melhorarem seu estilo de vida, as ações devem ser direcionadas não somente ao indivíduo, mas também às condições sociais de vida que interagem para produzir esses padrões de comportamento (AÑEZ, 2003).

A atividade física e os hábitos alimentares são dois elementos do estilo de vida que desempenham um papel significativo na promoção da saúde e na prevenção de doenças (BLAIR et al. apud AÑEZ, 2003). Outros elementos do estilo de vida também são importantes para a saúde e o bem-estar, tais como evitar o uso de cigarros, possuir um bom relacionamento com a família e amigos, evitar o consumo de álcool, prática de sexo seguro, controle do estresse, além da necessidade de se ter uma visão otimista e positiva da vida (CSEF apud AÑEZ, 2003 ).

O estilo de vida é descrito na literatura como estilo de vida “sedentário” ou “ativo” (ANDRADE, 2001). Estilo de vida sedentário é o estilo de vida no qual o indivíduo não realiza nenhuma prática de atividade física regular, com uma intensidade mínima para resultar numa melhora de sua aptidão física relacionada à saúde. Pessoas com este estilo de vida comumente preocupam-se apenas com compromissos relativos ao trabalho e seu lazer não envolve prática de exercícios físicos ou esportes. É considerado sedentário o indivíduo que não faz atividade física e que gaste menos de 500 kcal. semanais no trabalho, lazer, locomoção e nas atividades domésticas (FEDERATION INTERNATIONALE DE MÉDECINE SPORTIVE, 1998).

As causas do sedentarismo na vida moderna para Alvarez (2002), estão relacionadas com as mudanças no estilo de vida, que dentre outras conseqüências, reduziu bastante o gasto energético da população, ocasionando as chamadas “Enfermidades da Civilização”. O baixo nível de atividade física é um fator importante no desenvolvimento de doenças degenerativas, como a diabetes, hipertensão, doença coronariana, osteoporose e outras doenças crônico- degenerativas.

A Federation Internationale de Médecine Sportive (1997) conceitua o estilo de vida ativo como aquele no qual o indivíduo realiza alguma prática de atividade física regular, pelo menos, três vezes por semana com duração não inferior a uma hora cada sessão. A intensidade

das sessões pode ser leve, como numa caminhada moderada ou com forte intensidade, como no caso das lutas marciais ou de uma partida disputada de basquetebol. Pessoas com este estilo de vida preocupam-se com a qualidade de sua alimentação, com a postura, buscam manter regularidade nas atividades físicas para manter uma boa aptidão física.

Para um indivíduo ser considerado moderadamente ativo, ele deveria realizar atividade física que resulte num gasto energético superior a 1.000 kcal., representado na prática, por exemplo, por uma pessoa que caminhe 30 minutos em passos acelerados, cinco vezes por semana. Os estudos têm demonstrado que um estilo de vida moderadamente ativo já pode influenciar de maneira importante na redução do risco de várias doenças, especialmente as cardiovasculares (NAHAS, 2001).

Embora hajam evidências positivas para a saúde com relação ao estilo de vida e à atividade física, tem-se observado que as pessoas não seguem um estilo de vida adequado, uma vez que os índices de inatividade física são elevados para a maioria da população produtiva. Os níveis de inatividade física no tempo de lazer na União Européia são de 26,9% (MARTINEZ-GONZALEZ et al. apud AÑEZ, 2003), nos Estados Unidos 29,9% (PRATT, MACERA e BLANTON, apud AÑEZ, 2003) e no Brasil são estimados em 60% (Folha de São Paulo apud AÑEZ, 2003). O perfil de quem é menos ativo no seu tempo livre no Brasil é apresentado no Quadro 2.

Perfil de quem mais se exercita. Perfil de quem menos se exercita.

Homem Mulher Curso superior Baixo grau de instrução

Renda superior a 20 Sal. Mínimos Renda inferior a 10 Sal. Mínimos Residente na Região Sul Residente na Região Nordeste 18 a 24 anos 45 a 60 anos

Quadro 2 - Perfil dos praticantes e não praticantes de atividade física no Brasil. Fonte: DATAFOLHA apud NAHAS (2001).

Paffemberger e Lee apud Andrade (2001) levantam uma importante questão sobre qual quantidade de atividade física é ótima para a saúde. As recomendações do centro de prevenção e controle de doenças dos Estados Unidos e do Colégio Americano de Medicina do Esporte, enfatizam a importância da atividade física moderada, indicando 30 minutos ou mais de atividade física, preferencialmente todos os dias. O Colégio Americano de Medicina do Esporte recomendava, em 1985, exercícios mais vigorosos com 60 a 70 % da capacidade máxima do indivíduo, pelo menos com 30 minutos de duração, 3 vezes por semana. Estes autores concluem que, independente de alguns pontos ainda em discussão, pouco exercício físico é melhor que nada, enquanto mais atividade física é melhor que pouca atividade física, preferencialmente atividade física moderada.

A atividade física é cada vez mais, uma prática importante na promoção da saúde e da qualidade de vida do ser humano (SAMULSKY e LUSTOSA, 1996). Tratando-se da contribuição da atividade física para a saúde e qualidade de vida em geral, Nahas (2001), afirma que através da prática sistemática e prazerosa da atividade física ou esportiva, é possível administrar melhor o estresse. O estilo de vida da pessoa, influenciado por suas atitudes, decisões e contexto social, cultural e econômico irá influir significativamente na qualidade de vida (NAHAS, 2001). Estudos de Mcauley (1991) e Biddle (1991) indicam que a atividade física regular e o esporte atuam influenciando estados psicológicos positivos e podem agir como um fator de controle do stress e de suas conseqüências.

Pesquisa realizada por Andrade (2001) em bancários sedentários e ativos mostram diferenças importantes nos grupos investigados. Os ativos praticam atividade física regular, um lazer ativo e consomem uma dieta equilibrada, relatando boa saúde. Os sedentários não fazem atividade física, preferem um lazer relaxante, não afirmam controle alimentar, relatando problemas de saúde. Enquanto os ativos manifestam ter boa força, resistência,

flexibilidade, resistência aeróbica e capacidade neuromuscular para o trabalho, o grupo sedentário descreve comprometimento destas capacidades.

Rossi (1994) aponta que o bancário é freqüentemente atingido pelo estresse e apresenta vários problemas psicossomáticos e emocionais decorrentes das demandas de trabalho nos bancos. Esta autora também defende que a prática de atividade física de baixo impacto como a caminhada e a natação, caracteristicamente aeróbicos, podem contribuir para a saúde dos trabalhadores.

2.3.2. - O estresse no ambiente de trabalho

De acordo com a definição de estresse como um processo, o estresse no trabalho tem sido descrito como um desequilíbrio entre o indivíduo e o seu ambiente de trabalho. Uma definição mais específica, proveniente de NIOSH apud Kendall (2000), descreve o estresse no trabalho como sendo uma resposta nociva, física e emocionalmente, que ocorre quando as exigências do trabalho não são compatíveis com as capacidades, recursos e necessidades do trabalhador.

Independentemente da teoria ou modelo que se adote, é possível tentar resumir o estresse, como um conjunto de perturbações psicológicas ou sofrimento psíquico, associado, em geral, às experiências de trabalho (DEJOURS, 1998), que causam distúrbios emocionais, tais como ansiedade, depressão, angústia, sensação de fadiga e/ou tristeza crônica, hipersensibilidade a acontecimentos em geral, agressividade e/ ou irritabilidade aumentadas.

As causas do estresse ocupacional segundo Rossi (1994, p. 40), são principalmente, “pressão para satisfazer a outras pessoas, horas irregulares de trabalho, condições de

trabalho insatisfatórias, barulho e falta de interesse pela atividade”. Smith et al (2000) demonstra que a escala crescente de estresse ocupacional deve associar fatores demográficos

e fatores ocupacionais. Os índices de estresse mais elevados estão associados aos trabalhadores de meia-idade de 30 a 50 anos, viúvos, divorciados ou separados, com grau de escolaridade elevado e que trabalham em tempo integral. A magnitude do nível de estresse pode surgir em função direta de se apresentar algumas destas características, embora deva ser considerado que o estresse ocupacional não é conseqüência automática das mesmas.

A relação entre o estresse e o gênero é bastante controvertida na literatura, Smith et al (2000) consideram que o gênero isoladamente não exerce diferença significativa sobre o nível de estresse ocupacional, mas sim quando combinados a outros fatores demográficos ou ocupacionais é que se verificam diferenças, tanto para o sexo masculino quanto para o feminino. Os pesquisadores Miyata, Tanaka e Tsuji (1997), citados por Areias e Guimarães (2004), consideram o estresse ocupacional resultado de fatores individuais, sociais e laborais. Estudo realizado por estes pesquisadores em pacientes de um ambulatório mostraram diferenças nos resultados envolvendo o gênero, sendo que a principal causa de doenças nos pacientes homens (56%) foi o estresse ocupacional e, nas mulheres, (42,4%) foram os fatores pessoais. No entanto, Stuart e Halverson (1997), citados por Areias e Guimarães (2004) realizaram um estudo comparativo entre soldados (homens e mulheres) das Forças Armadas dos Estados Unidos, cujas medidas dos sintomas de estresse foram mensuradas durante o desdobramento das operações militares no Golfo Pérsico, na Somália, no Kuwait, no Haiti e na Bósnia, indicaram que os sintomas de estresse foram significativamente maiores para as mulheres do que para os homens.

A resposta dos indivíduos ao estresse no trabalho podem ser psicológicas, físicas ou ambas (COOPER e CARTWRIGT; KRISTENSEN; SANTOS e COX apud KENDALL et al, 2000), e pode ser usualmente categorizada como: estresse agudo, pós-traumático e crônico.

O termo agudo se refere aquele que surge repentinamente. Estresse dessa natureza envolve uma resposta rápida a uma causa abrupta, simples e fácil de identificar, que

freqüentemente responderá positivamente a alguma forma de intervenção (GUYTON, 1981; SCHULER apud KENDALL et al, 2000). A resposta a uma situação de estresse agudo faz com que a pessoa apresente um estado elevado de ansiedade que em seguida irá diminuir. Por exemplo, uma pessoa pode experimentar um estresse agudo em resposta a uma situação negativa, tal como um conflito no local de trabalho (com a chefia, colega ou cliente), expectativa de promoção ao corte de pessoal, a introdução de novos processos mudança de rotinas, a espera de renovação de contrato etc. Nesta fase há um aumento do senso de excitação que pode produzir respostas fisiológicas tais como, boca seca, diarréia, palpitações no coração, ou problemas cognitivos (GUYTON apud KENDALL et al, 2000). Para a maioria das pessoas que experimentaram uma resposta ao estresse agudo, a recuperação não demorou muito.

Quando os eventos no local de trabalho são constantemente ameaçadores (para policiais, militares, paramédicos, bombeiros, trabalhadores expostos risco de assalto, trabalhadores envolvidos em desastres e acidentes), a forma mais comum de estresse é chamada post traumatic stress disorder (PTSD) (ANSHEL; HUMPHREY; PATOM apud KENDALL et al, 2000). Estresse pós-traumático é uma resposta adiada a um evento ou situação estressante aguda (de curta ou longa duração). Este evento pode gerar uma resposta, com um grande potencial para causar um intenso estresse em qualquer pessoa (World Health Oganization - WHO apud KENDALL et al, 2000). Em termos simples o PTSD, desenvolve estressores de intensidade traumática. Como exemplos de eventos traumáticos, mas não são limitados a eles são a tortura, abuso sexual, estupro, acidentes, testemunha de atos violentos. A ansiedade e depressão são frequentemente associados com a PTSD, e pensamento suicida não é incomum. Outras conseqüências comuns são a síndrome do pânico, desenvolvimento de personalidade anti-social e abuso de substâncias química e agorofobia (WHO apud KENDALL et al, 2000).

O estresse crônico é uma reação cumulativa construída gradualmente pela exposição a pressões durante um longo período de tempo. Estresse crônico é melhor definido como um processo de reação interna, à circunstâncias externas quando a habilidade de lidar com estas circunstâncias está prejudicada (EVOY apud KENDALL et al, 2000 ). Enquanto no estresse agudo é esperado o retorno à normalidade dentro de um pequeno período de tempo, o estresse crônico geralmente se manifesta em vários sintomas psicológicos e físicos como a hipertensão, distúrbios do sono, doenças coronárias, falta de concentração, depressão (COOPER e AYNE; MINTER apud KENDALL et al, 2000). Além do mais, o estresse crônico pode levar, na maior parte das vezes a uma diminuição da resistência do sistema imunológico. Atualmente, há o reconhecimento de que adversidades acumuladas podem ser tão importantes quanto os incidentes traumáticos no desenvolvimento das condições de estresse. O processo constante de irritação e frustração destrói a capacidade individual de lidar com o problema. Enquanto há pouca dúvida sobre o que constitui um estressor agudo, as características crônicas do estresse do trabalho são mais difíceis de definir, criando significativos problemas para administrá-las e pesquisá-las (ALONZO apud KENDALL et all, 2000).

Embora seja relativamente limitado o número de trabalhadores que reportem queixas sobre seus problemas de estresse, o custo do retorno destes indivíduos ao local de trabalho é considerável. Em pesquisas sobre a relação entre o custo direto, como os pagamentos dos dias parados, reabilitação e medicação, e os custos indiretos estima-se ser este quatro a oito vezes maior do que aquele (CCH Austrália apud KENDALL et al, 2000). Os custos indiretos dos prejuízos no local de trabalho incluem o pagamento dos prêmios de seguro, perda de produtividade, custo das horas adicionais de trabalho para realocação do trabalhador e custos envolvendo a administração dos processos judiciais, além do impacto sobre a comunidade

causada pelos efeitos que eles têm na família, desemprego, perda de perspectivas, e perda de qualidade de vida.

Há outros resultados (Quadro 3) que não são fáceis de medir, mais notadamente o presenteísmo, ou seja, as pessoas que fisicamente vão ao trabalho, mas são incapazes de contribuir, apresentando baixa produtividade devido aos problemas relacionados ao estresse (BROADBRIDGE, 2002).

Em algumas profissões específicas, a ocorrência e a intensidade do estresse são maiores do que em outras. Muitos autores e pesquisas indicam que alguns profissionais são muito mais atingidos pelo problema do estresse no trabalho tais como “policiais, professores,

executivos, bancários e psicólogos clínicos” (Lipp, 1996, p. 14). Também apontam para profissões que estão mais submetidas a condições adversas de estresse no trabalho, incluindo professores, policiais, executivos e também bancários (NAHAS 2001).

Ausência de sugestões para os empregadores a Perda de tempo b

Evitar tarefas de responsabilidade b Fácil irritação e rigidez de pontos de vista c Conflitos interpessoais d

Falta de tomada de decisão e Baixa moral e motivação f Alta insatisfação no trabalho f

Resistência a mudanças nos processos g Perda de produtividade h

Pouca qualidade e cuidado no atendimento a clientes h Quadro 3 - Efeitos potenciais do presenteísmo em trabalhadores.

Fonte: a Margolis et al. (1974), bAdams (1980), c Cooper (1981), d Van Dijkhuizen (1981), e Quick e Quick (1984), f Cooper et al. (1988), g McHugh (1995), h Hirschkorn (1998) apud Broadbridge (2002).