O estudo teve como principal diretriz a avaliação da percepção dos gestores de pesquisa das principais instituições brasileiras de pesquisa acadêmica – as universidades e os institutos federais de educação, ciência e tecnologia – acerca das parcerias de cooperação de pesquisa entre a academia e o setor industrial.
A dinâmica adotada conferiu ao trabalho caráter inovador pela natureza abrangente dos fatores que empiricamente verificados, dada a diversidade de estudos tomados por base para elaboração do modelo estrutural e as implicações desta decisão para a metodologia empreendida e para os resultados alcançados.
Assim, de uma perspectiva mais ampla, o estudo traz para o campo de pesquisa um mapeamento qualificado da percepção dos gestores acadêmicos das áreas de pesquisa a respeito do processo de cooperação com parceiros da indústria e seus determinantes.
A qualificação do público-alvo do estudo reforça essa importante contribuição, tendo em vista que ocupam cargos de pró-reitores ou coordenadores de pesquisa – portanto, tomadores de decisões relacionadas à área de pesquisa – de instituições públicas e privadas, de praticamente todas as unidades da federação, o que confere maior relevância à obra.
Argumenta-se, assim, que a estrutura fatorial obtida a partir da manifestação da percepção dos próprios participantes da pesquisa é relevante, na medida em que representa o pensamento dos líderes das áreas de pesquisa de algumas das mais importantes instituições de pesquisa do país.
Pode-se ainda evidenciar a relevância da pesquisa ao se levar em conta o número de universidades e institutos federais representados na amostra de gestores (109). Assim, considerando a distribuição geográfica da pesquisa acadêmica brasileira, o estudo traz à tona um abrangente panorama da percepção dos gestores de pesquisa das principais instituições de ensino superior do Brasil acerca das parcerias com a indústria.
De um ponto de vista mais particular, este estudo traz algumas outras contribuições. Primeiramente, a extensa revisão de literatura confere à pesquisa a qualidade de estado da arte da pesquisa no campo das interações universidade-indústria.
Segundo, a ausência de escalas de mensuração apropriadas na literatura para aplicação em conformidade com os objetivos desta pesquisa demandou, por um lado, um maior nível de esforço para se conseguir investigar a percepção dos gestores acadêmicos de pesquisa, afinal, foi necessário desenvolver as escalas para este fim. Por outro, tal esforço se mostrou recompensado: há pelo menos quatro novas escalas de mensuração parcialmente validadas (Propensão à Cooperação, Solidez da Parceria, Benefícios da Cooperação e Diferenças Culturais e Institucionais), e que podem ser aplicadas no campo, ainda que em um primeiro momento se deva confirmar sua validade; há outras duas (Determinantes Contextuais e Reputação da Universidade) que, se devidamente melhoradas, podem também ser utilizadas. É importante lembrar que a modelagem de equações estruturais não tem por finalidade obter resultados generalizáveis, mas sim, permitir a avaliação de modelos quanto
ao seu ajustamento à realidade observada. Logo, não é possível eliminar a hipótese de existir(em) outro(s) modelo(s) explicativo(s) ainda melhor ajustado(s) para o mesmo fenômeno em análise, a depender das variáveis e da teoria de base utilizada pelo pesquisador.
Daí decorre a terceira contribuição do estudo: o próprio modelo estrutural proposto na pesquisa, ainda que não tenha sido validado – para esta amostra – pode ser ainda testado com amostras mais adequadas em termos de tamanho e, assim, tornar-se um modelo válido para aplicação em outras pesquisas.
A análise de regressão múltipla, que usou como variável dependente uma escala somada dos itens de medida do construto Propensão à Cooperação, trouxe outra importante contribuição, que foi a validação empírica de um modelo, com poder preditivo da propensão da universidade a cooperar com a indústria de 76,6%, e que pode ser usado para futuras pesquisas relacionadas ao tema. Neste modelo, observou-se a presença de variáveis que estão sob a ingerência dos gestores de pesquisa, como o acompanhamento do desempenho das parcerias e a confiança no parceiro, o que justifica sua maior intensidade em relação ao prestígio que a colaboração pode trazer para o pesquisador e para a instituição.
Finalmente, a partir de uma perspectiva mais exploratória, a investigação sobre as respostas dos gestores da pesquisa proporcionou relevante contribuição, ao permitir o mapeamento de sua percepção, o qual pode revelar novos rumos para a pesquisa no campo, como discutido a seguir.
Inicialmente, o exame das médias das avaliações fornecidas pelos gestores evidencia que, em linhas gerais, eles manifestam uma posição favorável às relações de cooperação com a indústria. Sobre os aspectos relacionados à reputação da universidade, os gestores consideram que as atividades de comercialização e transferência de tecnologia, assim como uma boa reputação da universidade em ranking de pesquisa, são importantes meios para se estimular a formação de parcerias de cooperação em pesquisa com a indústria.
Houve opinião neutra dos participantes da pesquisa sobre a influência negativa da distância geográfica sobre a formação de parcerias, e discreta concordância quanto à contribuição do financiamento público e de políticas específicas como Lei do Bem e Lei de Inovação para a formação das parcerias com a indústria. Por outro lado, a disponibilidade de financiamento de pesquisas pela indústria é vista como um incentivo à interação com o setor produtivo.
Em geral, os gestores concordaram que os benefícios advindos de parcerias de pesquisa com a indústria são importantes, principalmente a obtenção de recursos financeiros adicionais e o senso de eficácia, decorrente da realização de uma das funções sociais da
universidade, neste caso, a cooperação com a indústria. Entretanto, ressalte-se que tais benefícios estão fortemente correlacionados com a presença de fatores que garantam a solidez da parceria, como a boa comunicação e o comprometimento do parceiro.
Algumas barreiras à cooperação foram consideradas pela maioria dos respondentes, como a burocracia, as diferenças culturais e institucionais e, por consequência, a incompatibilidade dos prazos demandados pela indústria com a cadência da pesquisa universitária, fatores que tanto afetam o desempenho das parcerias atuais como dificultam a formação de novas.
Em referência à gestão do relacionamento, na visão dos pesquisadores, há a necessidade de se estabelecerem vínculos pautados em processos de comunicação adequados e em confiança mútua, suportados por mecanismos formais de monitoramento e controle para conduzir a parceria.
A avaliação direta da propensão à cooperação mostrou que as instituições têm tanto incentivado seus pesquisadores a buscar parcerias para pesquisas colaborativas com a indústria, como têm prospectado, em nível institucional, potenciais parceiros para projetos de pesquisa. Esta propensão está associada (i) a aspectos relacionados à solidez da parceria, como a confiança, o comprometimento e resultados mutuamente benéficos observados no relacionamento, o que revela uma possível tendência a cooperar com empresas com que já tenham desempenhado projetos de colaboração; e (ii) aos benefícios diretos provenientes da cooperação, como prestígio, incorporação de novos processos e informações ao ensino e, em menor intensidade, recursos financeiros adicionais.