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3. DATA

3.2 V ARIABLE DESCRIPTION

3.2.3 Additional analysis

Para compreender o pensamento de Maffesoli, destacamos que o autor foi

orientando de Gilbert Durant, pesquisador do campo do imaginário. Na obra “O ritmo

da vida: variações sobre o imaginário pós-moderno”, Maffesoli propõe analisar a sociedade contemporânea sem ódio e sem raiva, em uma tentativa de compreender e viver o mundo do jeito que ele é, tendo destaque as noções sobre o conhecimento comum como a religação entre o indivíduo e seus ambientes social e natural e o estar junto.

Ricardo Freitas, na apresentação dessa obra de Maffesoli, destaca que diversas manifestações de nosso tempo demonstram que não nos encontraríamos em uma nova barbárie, mas, ao contrário, estaríamos buscando o ritmo da vida no íntimo de nossos sentidos e sensos comuns, em que a decadência da razão e do progresso rompem com as

ilusões entre o público e o privado, oferecendo valor às estéticas múltiplas dos espaços urbanos. As manifestações de nosso tempo, como as histerias de liquidações, os reality

shows, as paradas gays, os corpos tatuados, “piercings”, redes sociais, grafites nos

convidam a perceber sensibilidades diversas, que irão construir estéticas harmonizadas por uma ambiência transversal, sendo uma lógica instintiva que passa pelos afetos dos quais participamos coletivamente. No mundo imaginal, podemos pensar em imagens e sentidos que formam as comunidades, pela presença de significados ao que poderia parecer insensato ou imprevisível.

Maffesoli (1996, p. 110) se refere à “perspectiva arquetipológica” utilizada por

Durant, que, por sua vez, inspirou-se na abordagem junguiana. A opção adotada por Maffesoli no que se refere à ênfase no coletivo está, sem dúvida, embasada no imaginário. Silva (2001, p. 79) nos lembra de uma entrevista em que Maffesoli fez a

seguinte afirmação: “para mim, sem tentar precisar a posição de Gilbert Durand, só

existe o imaginário coletivo.... O imaginário é algo que ultrapassa o indivíduo, que

impregna o coletivo ou, ao menos, parte do coletivo”. Nessa mesma entrevista sobre o

imaginário, Maffesoli exemplifica que, como em uma obra de arte, há uma aura que podemos sentir, uma atmosfera, algo que envolve e ultrapassa a obra, que vai além de

sua materialidade, o que constituiria o imaginário, e “esta seria a idéia fundamental de

Durand: nada se pode compreender da cultura caso não se aceite que existe uma espécie de algo mais, uma ultrapassagem, uma superação da cultura. Esse algo mais é o

que se tenta captar por meio da noção de imaginário” (MAFFESOLI, apud SILVA,

2001, p. 75).

Durand (2001, p. 391) reflete que existiria uma universalidade dos arquétipos, de

modo que “a história não explica o conteúdo mental arquetipológico, pertencendo a própria história ao domínio do imaginário”, pois, dentro dessa perspectiva, seriam os

arquétipos que controlam o imaginário, dominando, a partir deste, o tempo histórico.

Esse “algo a mais”, essa “aura” é a expressão arquetípica coletiva, igual em

todos os seres humanos que convivem em uma mesma época histórica, também movida pelos arquétipos através do imaginário coletivo.

Para Maffesoli, o arquétipo representa um “roteiro” impresso no inconsciente coletivo do sujeito que o impulsiona para a busca do autodesenvolvimento ou individuação. Na abordagem junguiana, como esse roteiro interno existiria em todos os

seres humanos, cada sujeito teria sua maneira particular de ser impulsionado a essa busca da individuação.

Maffesoli se diferencia de Jung nesse aspecto. Silva (2003, p. 14) lembra que, para aquele, somente haveria o imaginário coletivo ou social, pois o individual se reflete no grupo, seja esportivo, sexual, sendo determinado na ideia de fazer parte de algo, de partilhar uma filosofia de vida, uma linguagem, uma atmosfera, uma ideia de mundo, uma visão de coisas, na encruzilhada do racional e do não racional.

Maffesoli (1999, p. 150-151) considera que esse imaginário coletivo se apresenta na adesão às imagens televisivas, aos encantos dos estereótipos das imagens publicitárias, ou nas submersões de imagens políticas. O que ocorreria seria apenas o

reconhecimento dos arquétipos do “mundo imaginal”.

O entendimento de um viver social marcado pela força imaginal (imaginário, imagens, imaginação, aparência) pode ser decifrado por traços que carregam marcas do religioso, tatuagens e diversas outras, permitindo ao imaginário religar os indivíduos aos significados construídos culturalmente atualizando o ethos coletivo.

Assim, para Maffesoli (1999), o símbolo é “linguagem” do inconsciente coletivo, ou seja, dos arquétipos, tornando-se uma categoria ampla que inclui todos os símbolos socioculturais, tornando-se mediação entre o corpo-persona e o inconsciente coletivo através dos símbolos expressos na coletividade de um imaginário comum. É dessa maneira, portanto, que o inconsciente coletivo se revela no contexto através de símbolos-linguagens compartilhados, que formam um imaginário atravessado ou pela racionalidade ou pela emocionalidade, dependendo da expressão arquetípica que

delineia o momento histórico. Conforme o autor, “trata-se, de algum modo, de um

inconsciente (ou não-consciente) coletivo que serve de matriz à multiplicidade das

experiências, das situações, das ações ou das deambulações grupais” (MAFFESOLI,

1995, p. 139).

Maffesoli (1995, p. 17) considera que a cultura é sempre marcada por uma

“cultura maior”, a do imaginário arquetípico e que, na atualidade, esse imaginário coletivo seria o da “cultura do sentimento”, representando, por sua vez, a

emocionalidade que permeia todos os grupos sociais. Para compreender a atualidade, Maffesoli (2001a) utilizou o arquétipo do caminho ou da alteridade, que chama de arquétipo do êxodo, no qual a humanidade teria um destino cíclico.

Conforme Pinthan, percebemos um imaginário comum que difere nas épocas racionais e emocionais, modificando a forma como os sujeitos se relacionam com a realidade construída socialmente. Para a autora,

a construção do imaginário individual se dá, essencialmente, por identificação (reconhecimento de si no outro), apropriação (desejo de ter o outro em si) e distorção (reelaboração do outro para si). O imaginário social estrutura-se principalmente por contágio: aceitação do modelo do outro (lógica tribal), disseminação (igualdade na diferença) e imitação (distinção do todo por difusão de uma parte) PINTHAN, 2007, p. 05-06).

É no aspecto coletivo que surge o imaginário das tribos, onde se produziria sentido para a errância do indivíduo. No imaginário tribal, o indivíduo é retirado da

solidão e inserido em uma atmosfera de partilha e, ao “produzir sentido grupal, o imaginário só poderia ser a negação do indivíduo por sua assimilação num todo”.

(MAFFESOLI, 1999, p. 15). No tribalismo, esse sentido grupal se consolida e, como produção subjetiva, contém os elementos da fragmentação, da efemeridade e do hedonismo.

Também a reflexão de Silva (2003, p. 13-14) é importante, por apontar que “o imaginário explica o “eu” (parte) no “outro” (todo). Mostra como se permanece

individual no grupo e grupal na cultura”. Pelo imaginário, Maffesoli aponta dois

arquétipos que, em nosso entendimento, demarcam uma mudança em nosso tempo histórico, marcando posições fundamentais neste trabalho, no que se refere à questão da modernidade e da pós-modernidade.

Na modernidade, os indivíduos expressavam o arquétipo de Prometeu. O sujeito pós-moderno se expressa no contexto, tendo uma centralidade, uma persona, que, no caso da pós-modernidade, é a de Dionísio. As pessoas da época contemporânea teriam expressas em suas personas-corpo o arquétipo de Dionísio, o que as move em um presenteísmo.

Também Maffesoli (1999) se refere a Gilbert Durand, apontando que o arquétipo cultural ocidental é o da cultura heróica, do modelo judaico-cristão, em uma concepção do indivíduo ativo, dominando a si mesmo e a natureza. Para o autor, ainda não existe uma palavra que designaria a vitalidade não-ativa das tribos pós-modernas, uma vitalidade da eterna-criança12, um pouco lúdica, um pouco anômica. Uma eterna criança

12

Maffesoli (1999) mostra que, na atualidade, substituiu-se o adulto forte e racional da modernidade pela eterna criança. O mito remete que a eterna criança é calculadamente imoral, mas ético no que costura,

que é Dionísio, não restrita aos grupos de boêmios, mas à ideia de que toda ocasião é boa para se viver.

Para isso, exemplifica com o imaginário do “Tour de France”, uma nova subida

em direção à infância, que, de maneira mais ou menos barroca, carrega fantasias, sonhos, o estar com o senso lúdico partilhado, expressando o prazer da horizontalidade, o sentimento de fraternidade, a nostalgia de uma fusão pré-individual (MAFFESOLI, 1999, p.99).