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4.1 Adaptive cycle of SES
Embora as considerações da presente Constituição Pastoral sobre a cultura já tenham sido tratadas parcialmente acima, são aqui retomadas, porque é nesse contexto que o Documento conciliar trata da educação.
Testemunhamos o surgimento de um novo humanismo, marcado pela consciência da responsabilidade diante dos outros e da história, em que é crescente “o número de homens e mulheres de diversos grupos e nações que tomam consciência de serem os criadores e autores da cultura de sua comunidade”159.
Essa tomada de consciência gera uma esperança maior, ao mesmo tempo que a percepção das contradições, que encontra, angustiam. Entre estas, destacam- se: Que medidas tomar para que os intercâmbios culturais levem ao diálogo, com benefícios para todos e não signifiquem a destruição das elaborações feitas pelos antepassados, com risco para a manutenção da identidade de cada povo? Como conciliar o dinamismo e expansão de uma nova cultura, sem suplantar as tradições herdadas das gerações anteriores? Como conciliar a cultura advinda da ciência e da técnica “com aquela civilização que se alimenta dos estudos clássicos, segundo as diversas tradições”160? Como elaborar uma síntese em cada ciência, diante dos seus rápidos avanços e manter a capacidade de contemplação e admiração, necessárias à sabedoria? Como fazer para que os frutos da cultura cheguem a todos, evitando o crescimento da distância entre as elites e os demais? Como agir para que a autonomia reivindicada pela cultura não termine num humanismo imanentista, que possa vir até mesmo a combater a religião?
O Documento conclui essa lista de antinomias, com a seguinte observação:
No meio destas antinomias é necessário que a cultura humana se desenvolva de tal modo que aperfeiçoe de maneira equilibrada a pessoa humana integral e ajude os homens a desempenhar as funções a que são chamados, sobretudo os cristãos, unidos fraternalmente na única família humana161.
159 COMPÊNDIO DO VATICANO II – Constituições, Decretos, Declarações, op. cit., n. 375. 160 Idem, n. 378.
A plenitude da vida, esperada pelos cristãos para a eternidade, longe de alienar, “antes aumenta a importância da missão que eles têm de desempenhar juntamente com todos os homens na construção de um mundo mais humano”162, impulsionados pela fé, onde “a cultura obtém o seu lugar exímio na vocação integral do homem”163. Assim, o homem participa do plano de Deus de transformar a terra, como co-criador e administrador da sua obra, bem como do mandamento do amor ao próximo, recebido de Cristo.
Aplicado às diferentes disciplinas da história, da filosofia, das ciências naturais, da matemática e das artes, o homem pode ajudar na sensibilização para o bom, o belo, o verdadeiro “e a um juízo de valor do universo e seja mais claramente iluminado pela Sabedoria admirável, que estava junto de Deus desde toda a eternidade, dispondo com ele todas as coisas [...]”164. Assim sensibilizado, pode mais facilmente libertar-se do imanentismo. A realidade e os outros podem tornar-se-lhe, então, diáfanos à manifestação do Criador, presente nelas.
Mesmo que a ciência e a técnica, em função de seus métodos, corram o risco de fixar-se nos fenômenos e de assumir uma posição agnóstica, podendo fechar o homem ao tangível, isto não pode impedi-lo de ver os valores positivos da cultura moderna:
Entre eles enumeram-se: o estudo das ciências e fidelidade rigorosa à verdade nas pesquisas científicas, à necessidade de trabalhar em equipe com outros nos grupos técnicos, o senso da solidariedade internacional, a consciência cada dia mais viva da responsabilidade dos cientistas na ajuda e na proteção a ser dispensada aos homens, a vontade de tornar mais favoráveis as condições de vida para todos, sobretudo para aqueles que são privados de responsabilidade ou sofrem a indigência cultural. Tudo isto consegue trazer alguma preparação para que se receba a mensagem do Evangelho, que pode ser informada pela caridade divina por Aquele que veio salvar o mundo165.
Existe uma relação próxima entre a mensagem de salvação e a cultura: desde Abraão, ao longo do tempo, até à revelação plena em Jesus Cristo, Deus “falou de acordo com a cultura própria de diversas épocas”166.
Também a Igreja, ao longo da sua história valeu-se sempre dos recursos culturais na difusão da mensagem do Evangelho, com o intuito de melhor explicá-la, 162 Idem, n. 383. 163 Idem, Ibidem. 164 Idem, n. 385. 165 Idem, n. 388. 166 Idem, n. 389.
difundi-la e para uma investigação e compreensão mais profunda, em vista a melhor exprimi-la, tanto na liturgia quanto na vivência dos fiéis. A Igreja, porém, não está ligada com exclusividade a nenhuma raça, povo ou país, nem a determinado tipo de costumes ou hábito, seja antigo ou atual:
Fiel à própria tradição e simultaneamente consciente de sua missão universal, ela pode entrar em comunhão com as diversas formas de cultura, donde resultará um enriquecimento tanto para a Igreja como para as diferentes culturas167.
No esforço de ser fiel à mensagem de Cristo, “a Igreja lembra a todos que a cultura deve estar subordinada à perfeição integral da pessoa humana, ao bem da comunidade e da humanidade inteira”168. Deve haver, da parte de todos, empenho para que seja respeitado e valorizado o aspecto pessoal e social, na construção do indivíduo e da sociedade, com liberdade e autonomia da cultura e da ciência, assim como o direito para que cada um, “observadas a ordem moral e a utilidade comum, possa investigar livremente a verdade, manifestar e divulgar a própria opinião e cultivar a arte que desejar”169. A estes direitos, a Lumen Gentium acrescenta o direito à informação: “Exige-se enfim que o homem seja informado imparcialmente acerca dos acontecimentos públicos”170.
Ao poder público não compete decidir como deve ser a cultura, mas lhe cabe fomentar as condições do seu desenvolvimento e a promoção da vida cultural, também no meio das minorias e das pessoas com poucos recursos econômicos.
Uma vez que existem recursos para possibilitar que todas as pessoas sejam beneficiadas pelos frutos da cultura, deve haver um denodado esforço, “para que muitos não sejam impedidos de cooperar, de maneira verdadeiramente humana, no bem comum, pelo analfabetismo e pela falta de iniciativa”171. A todos deve ser levada a possibilidade de libertarem-se da miséria e da ignorância, num esforço político e econômico, nacional e internacional pela participação de todas as pessoas nos bens básicos da civilização. Por isso, o acesso à educação superior há de ser facultado a todos os que tiverem capacidade para tal, em vista ao desenvolvimento pessoal e à ação na sociedade, “desempenhando funções, cargos e serviços de acordo com a 167 Idem, n. 391. 168 Idem, n. 393. 169 Idem, n. 396. 170 Idem, Ibidem. 171 Idem, n. 398.
sua capacidade e com a competência que adquiriram”172. Convém, ainda, lembrar que, junto do direito à cultura, se coloca também o dever do autocultivo e o de ajudar os outros a também se cultivarem:
Às vezes, existem condições de vida e de trabalho que impedem os esforços culturais dos homens e destroem neles o gosto pela cultura. Estas observações valem de modo especial para os trabalhadores do campo e os operários, aos quais é necessário oferecer condições tais de prestarem o seu trabalho que não impeçam, mas promovam a sua cultura humana. As mulheres já trabalham em quase todos os setores da vida. É conveniente, porém, que possam assumir plenamente, de acordo com a própria índole, o papel que lhes toca. É dever detodos reconhecer e promover a participação específica e necessária da mulher na vida cultural173.
Diante do rápido crescimento e da diversidade de componentes que formam a cultura, é hoje cada vez maior a dificuldade e, quiçá, impossível fazer uma síntese das várias ciências e artes. Não conseguimos mais acompanhar o conjunto dos conhecimentos e, menos ainda, elaborá-los organicamente, mas continua o dever de cada pessoa buscar o desenvolvimento integral da sua personalidade, “na qual sobressaem os valores da inteligência, vontade, consciência e fraternidade, todos fundamentados em Deus Criador e que em Cristo foram sanados e elevados, de maneira admirável”174.
A família desempenha o primeiro e insubstituível papel na educação. É nela que, na experiência do amor, os valores, como componentes aprovados da cultura, são repassados às crianças e aos adolescentes.
Na sociedade atual, há muitas possibilidades de intercâmbios, quer no âmbito local, quer no regional, nacional ou internacional. Também o turismo e o esporte tornam-se ocasião especial para o conhecimento intercultural.
O aproveitamento dessas relações, para além de nações, raças e condições, se tornará maior, se acompanhado de interrogações sobre o sentido da ciência e da cultura nos seus múltiplos enfoques, para a pessoa humana.
Por mais que a Igreja tenha contribuído e continue contribuindo para o avanço cultural, hoje, muitas vezes, a relação entre cultura e cristianismo enfrenta dificuldades. Estas, ao invés de atrapalhar a fé, podem servir de provocação e estímulo para a busca de um conhecimento mais profundo da mesma. Novas descobertas, nas diferentes áreas, como ciência, filosofia e história, levantam novas
172 Idem, n. 399. 173 Idem, n. 400. 174 Idem, n. 401.
interrogações, questionam muitas das velhas respostas, ao mesmo tempo que são terreno fértil para a hermenêutica, a partir dos dados e experiências, a desafiar também os teólogos a novas investigações:
Além disso, os teólogos, observados os métodos próprios e as exigências da ciência teológica, são convidados sem cessar a descobrir a maneira mais adaptada de comunicar a doutrina aos homens de seu tempo, porque uma coisa é o próprio depósito da fé ou as verdades e outra é o modo de enunciá-las, conservando-se, contudo, o mesmo significado e a mesma sentença. Na pastoral sejam suficientemente conhecidos e usados não somente os princípios teológicos, mas também as descobertas das ciências profanas, sobretudo da psicologia e da sociologia, de tal modo que também os fiéis sejam encaminhados a uma vida de fé mais pura e amadurecida175.
Às letras e às artes a Igreja reconhece grande importância, diante da capacidade delas de “compreender a índole própria do homem, seus problemas e suas tentativas enérgicas de conhecer e aperfeiçoar a si mesmo e o mundo”176. O Concílio recomenda “trabalhar para que os cultores daquelas artes sintam-se compreendidos pela Igreja, em sua atividade, e, gozando de liberdade ordenada, estabeleçam intercâmbios mais fáceis com a comunidade cristã”177. Sejam reconhecidas, também, formas novas de arte, expressões desta época e das características dos diferentes países e regiões:
Os fiéis vivam, portanto, muito unidos aos outros homens de sua época e procurem perceber perfeitamente suas maneiras de pensar e de sentir, expressas pela cultura. Unam os conhecimentos das novas ciências e doutrinas e das últimas descobertas com a moral e os ensinamentos da doutrina cristã para que a cultura religiosa e a retidão moral caminhem, junto dos mesmos homens, no mesmo passo do conhecimento das ciências e da técnica em progresso incessante e assim consigam eles apreciar e interpretar todas as coisas com sensibilidade autenticamente cristã178.
É importante a realização de uma efetiva aproximação das pessoas que se aprofundam nas disciplinas teológicas, com estudiosos das diferentes ciências. É uma maneira de oferecer-lhes um conhecimento mais completo do conteúdo da fé e de a pesquisa teológica aprofundar mais o conhecimento da revelação. Auxilia os ministros sagrados a apresentar a doutrina da Igreja sobre Deus, o homem e o mundo, de uma maneira mais adaptada aos contemporâneos e a muitos fiéis leigos a aprofundarem os estudos da sua religião. Para o melhor desempenho do seu dever, seja reconhecida a todos, clérigos e leigos, “a justa
175 Idem, n. 406. 176 Idem, n. 407. 177 Idem, n. 408. 178 Idem, n. 410.
liberdade de investigação e de pensamento, bem como a justa liberdade de exprimir as suas idéias com humildade e firmeza, nos assuntos de sua competência”179.
4.3.1.2 Constituição Apostólica Ex Corde Ecclesiae, do Papa João Paulo II, sobre as