• No results found

1.6 Acoela

1.6.2 Acoel development

No início do capítulo 71, a frase parodiada do estoicismo senequiano tem como tema o compartilhamento de uma humanidade comum. Uma vez que a maioria dos amigos convidados para o banquete e o próprio anfitrião foram escravos por muitos anos, com Trimalquião e seus amigos então possuindo status de liberto, a presença de escravos na Cena é um constante lembrete do passado308. Courtney, pensando sobre Trimalquião compartilhar a crença de que escravos são homens, mostra-nos, ao mesmo tempo, que muitos não aceitariam e poderiam não aceitar as palavras de Sêneca (Ep. 47,1: servi sunt. immo homines; ortum eodem frui caelo, aeque spirare, aeque vivere, aeque mori. Tam tu illum videre ingenuum potes quam ille te servum)309. Desse modo, provavelmente Petrônio está, com a construção desta ideia e formulação de suas sentenças, parodiando Sêneca com o objetivo de contradizê-lo de modo cômico.

M. Smith nota que os escravos não desfrutariam da liberdade, que supostamente ganhariam segundo o desejo do senhor em sua morte310. Portanto me salvo (que tem geralmente um significado trivial de “se as coisas seguirem meu caminho”) é usado ilogicamente ou indiferenciadamente em relação aos escravos ou sem consideração quanto ao significado literal, provavelmente com este emprego do vocabulário indicando uma construção cômica. Já aquam liberam forma uma expressão poética para a própria liberdade311. O dono do testamento fala abertamente sobre o conteúdo de suas vontades312, mas através delas percebemos a paixão de Trimalquião por controle, espetacularizada comicamente, que irá estender-se ainda após sua morte: ele anuncia que Fortunata é feita sua principal herdeira e irá herdar todos os bens. Entretanto, ao que parece, herdaria também quaisquer

308 Ver JUV. 6, 222 ita serus homo est? 14, 16-17.

309 Cf. COURTNEY, E. A companion to Petronius. New York: Oxford Univerity Press, 2011, p. 113. Nesta carta de

Sêneca, ele elogia Lucílio por conviver com seus escravos. Ele fala inclusive de como é ridículo ter um escravo só para trinchar aves, como o carpe de Trimalquião. Ver PET. Sat. 39, 6 e 45, 3 e RÉVAY, J. Contributo alla questione della parodia di Nerone in Petronio, .ff/G/ 7, 29ff, 1923.

310 Comentários do editor na edição: SMITH, M (ed.) Petronii Arbitri: Cena Trimalchionis. Oxford University Press,

1975.

311 A expressão também aparece em: Antífanes fr. 25; Ateneu 10, 440; e Xenarco é lembrado por parodiar a expressão

“água de liberdade” com “vinho de liberdade”. Cf. SCHMELING, G, 2011, p. 291.

108 dívidas e obrigações incluindo aquelas para libertar escravos. Os legados citados poderiam diminuir a herança de Fortunata e, então por essa razão, seria mais provável que apenas um escravo fosse libertado para fazer lembrar todos os demais da vontade do dominus313. Além disso, de acordo com a Lex Fufia Canina (I a.C), não abolida até Justiniano, Trimalquião como testador não poderia libertar todos seus escravos, mas apenas um máximo de 20% de 500. Embora ele tenha muitos escravos (talvez milhares), não poderia libertar, portanto, mais que 100 em 500. Contudo, o conhecimento ou ignorância dessa lei não afeta a expressa gratidão dos escravos, que parecem mais representarem itens de manipulação, regidos por Trimalquião dentro de seu próprio espetáculo e em conjunto da exibição de controle perpetrada pelo liberto em sua atuação cômica.

Várias inscrições parecem indicar que libertos herdavam insulae314 e Trimalquião pode ter adquirido sua propriedade por este caminho. Cário é o nome de um escravo, talvez cozinheiro, como vemos pistas em 70, 10315. Ao dizer que deixa a mulher do escravo (contubernalis) como herança para este, talvez seja Menófila (70, 10). Entretanto, o casamento legal não é permitido para escravos316. A vicesima, taxa de 5% no valor de um escravo, é devida ao controle de manumissão de escravos. O escravo poderia acumular suas economias, chamada peculium, com o qual poderia então comprar sua liberdade de seu senhor e pagar os 5% do imposto, devido à condição de manumissão. Ou o senhor poderia permitir ao escravo manter seu peculium, se renunciado o preço de compra do senhor317, e pagar o vicesima318, então podendo conceder ao escravo como legado319.

Trimalquião não tem filhos: suadeo (...) non patiaris genus tuum interire320. Depois das despesas para libertação de escravos, doando e deixando de herança propriedades e construindo um suntuoso túmulo, a dedução da herança de Fortunata parece acentuada. Porém, a fortuna do liberto apresenta-se enorme. As fontes indicam que vontades em testamentos foram lidas em alta voz para vários propósitos321. Champlin comenta que tais legados são alterados, mas geralmente não com muita frequência322.

313 Em MART. 5, 39, Marcial escreve satiricamente sobre um homem que anuncia os nomes daqueles que vão receber

liberdade, mudando sua vontade regularmente, e que por fazer essas mudanças está fazendo Marcial pobre. Cf. CHAMPLIN, 1991, p. 67; HOPKINS, K. Death and Renewal. Cambridge University Press,1983, p. 245.

314 CIL VI, 10248, 29791. Insula significa blocos de construções, como fazenda. 315 Cf. SCHMELING, 2011, p. 292.

316 WATSON, A, Roman Slave Law. Baltimore, 1987, p. 47; 77 e BRADLEY, R. K. Slaves and Masters in the Roman Empire: A study in Social Control. New York: Oxford University Press, 1987, p. 49-51.

317 CIL VI, 2211.

318 Cf. SCHMELING, 2011, p. 292.

319 Sobre despeças envolvidas na libertação de escravos, ver: BRADLEY (1987) e SMITH (1975). 320 PET. Sat. 74, 15.

321 Exemplos em SUET. Iul. 83, 1; Vit. 14, 2; DIO. 53, 31, 1; CIC. At. 12, 18a, 2; APUL. Apol. 100, 2.

109 Em Quid dicis, vemos o clamor do anfitrião por controle e em ser central em seu espetáculo. Tal clamor reflete sua preocupação quanto à escuta, entendimento e execução sobre suas vontades em relação ao seu testamento, funeral, túmulo e post mortem. A frase é usada para atrair atenção de alguém, e corresponde a algo como “eu poderia ter sua atenção?”323, reforçando a necessidade de Trimalquião de que aqueles presentes no banquete sigam suas indicações, chegando a encenar sua própria morte para que efetivamente sejam executadas seus desejos acerca de sua morte, inevitável e já sabida, inclusive o dia e a hora, item que indica mais um sinal do controle absoluto do liberto no episódio.