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Em Eurico, o presbítero, o herói nos é apresentado como poeta, anjo tutelar dos amargurados e de caráter imutável (p 52-54), e, na mitologia, o herói apresenta caraterísticas semelhantes. Como afirma Campbell, o herói composto do monomito55 é uma personagem dotada de dons excepcionais. Frequentemente honrado pela sociedade de que faz parte, também costuma não receber reconhecimento ou ser objeto de desdém. Ele e/ou o mundo em que se encontra sofrem de uma deficiência simbólica (CAMPBELL, 2000, p. 41).

55 De acordo com o autor, o termo "monomito" é de James Joyce e está presente na obra ―Finnegans wake‖, Nova York, Viking Press, Inc., 1939, p. 581. O termo refere-se a uma jornada cíclica do herói, em que ele recebe o chamado, passa pelo limiar e retorna. Campbell, J. O herói de mil faces. São Paulo: Cultrix / Pensamento, 2000, p.53 (notas do prólogo).

As características de nosso herói fazem dele um homem acima dos seres humanos comuns, à semelhança daquele que é descrito por Campbell em O herói de mil faces: ―ele é o herói do caminho do pensamento de bom coração, dotado de coragem e cheio de fé no fato de que a verdade, tal como ele a conhece, nos libertará‖ (CAMPBELL, 2000, p. 31). Eurico é guerreiro, tem coragem e enfrenta os inimigos; é poeta, delicado na observação da natureza, incompreendido; é santo, está ligado diretamente a Deus, ele é Seu intermediário e recebe as visões dos céus.

O ciclo cosmogônico é apresentado com surpreendente consistência nos escritos sagrados de todos os continentes e dá à aventura do herói uma nova e interessante conotação, pois agora parece que a perigosa jornada não foi um trabalho de obtenção, mas de reobtenção, não de descoberta, mas de redescoberta. O ciclo cosmogônico deve prosseguir agora, por conseguinte, não pela ação dos deuses, que se tornaram visíveis, mas pela dos heróis, de caráter mais ou menos humano, por meio dos quais é cumprido o destino do mundo. ―Chegamos ao ponto no qual os mitos da criação passam a ceder lugar à lenda tal como no Livro do Gênesis, depois da expulsão do Paraíso. A metafísica é substituída pela pré-história, que é vaga e indistinta a princípio, mas aos poucos exibe precisão de detalhes‖. Os heróis tornam-se cada vez menos fabulosos, até que, nos estágios finais das várias tradições locais, a lenda se abre à luz comum cotidiana no tempo registrado (CAMPBELL, 2000, p. 306).

Os poderes divinos, procurados e perigosamente obtidos, segundo nos é revelado, sempre estiveram presentes no coração do herói. Campbell utiliza o exemplo de Jesus: ―Ele é ‗o filho do rei‘ que veio para saber quem é e, assim, passou a exercitar o poder que lhe cabe como "filho de Deus", que aprendeu a saber quanto esse título significa. A partir desse ponto de vista, o herói simboliza aquela divina imagem redentora e criadora, que se encontra escondida dentro de todos nós e apenas espera ser conhecida e transformada em vida (CAMPBELL, 2000, p. 42). Sabemos que esse não é totalmente o caso de Eurico, mas podemos dizer que ele é o filho escolhido da pátria, uma vez que, tendo se entregado ao celibato, ele tem uma ligação maior com o Pai, e Deus revela a ele, por meio do sonho, o que se sucederia com seu povo.

Outra característica é a moral do herói. Campbell (1991, p. 141) diz que o objetivo moral é o de ―salvar um povo, ou uma pessoa, ou defender uma ideia‖. O herói se sacrifica por algo, aí está a moralidade. Eurico atende o chamado de lutar na batalha, pois sabe que é seu dever como guerreiro e, além disso, tem esperanças de mudança: ―Com a profunda inteligência de poeta o presbítero contemplava este horrível

espetáculo de uma nação cadáver [...] recordando-se dos tempos em que era feliz porque tinha esperança, escrevia com lágrimas os hinos de amor e de saudade‖ (p. 58). Mas, sob outro ponto de vista, é claro, podemos dizer que, se observarmos com os olhos da religião, a ideia pela qual ele se sacrificou não merecia tal gesto, uma vez que o povo está enterrado na imoralidade e talvez devesse pagar por seus pecados: ―As cenas de dissolução social que naquele tempo [...] eram capazes de despertar a indignação mais veemente em todos os ânimos que ainda conservavam um diminuto vestígio do antigo caráter godo‖ (p. 58). ―É um julgamento baseado numa outra posição, mas que não anula o heroísmo intrínseco da proeza praticada‖, diz o autor, por isso o sacrifício do herói é válido.

Entendidas as características do herói, passemos agora para o que Joseph Campbell chama de ―façanha do herói‖. A façanha convencional do herói começa com alguém a quem foi usurpada alguma coisa, ou que sente estar faltando algo entre as experiências normais franqueadas ou permitidas aos membros da sociedade. Como vemos no trecho que segue:

Levado à existência tranquila do sacerdócio pela desesperança, Eurico sentira a princípio uma suave melancolia refrigerar-lhe a alma requeimada ao fogo da desdita. A espécie de torpor moral em que uma rápida transição de hábitos e pensamentos o lançara pareceu-lhe paz e repouso. A ferida afizera-se ao ferro que estava dentro dela, e Eurico supunha-a sarada. Quando um novo afeto veio espremê-la é que sentiu que não se havia cerrado, e que o sangue manava ainda, porventura, com mais força. Um amor de mulher mal correspondido a tinha aberto: o amor da pátria, despertado pelos acontecimentos que rapidamente sucediam uns aos outros na Espanha despedaçada pelos bandos civis, foi a mão que de novo abriu essa chaga. As dores

recentes, avivando as antigas, começaram a converter pouco a pouco

os severos princípios do cristianismo em flagelo e martírio daquela alma que, a um tempo, o mundo repelia e chamava e que nos seus transes de angústia sentia escrita na consciência com a pena do

destino esta sentença cruel: - nem a todos dá o túmulo a bonança das

tempestades do espírito (p. 57, grifos nossos).

Essa pessoa, então, parte numa série de aventuras que ultrapassam o usual, quer para recuperar o que tinha sido perdido, quer para descobrir algum elixir doador da vida. Normalmente, perfaz-se um círculo, com a partida e o retorno (CAMPBELL, 1991, p. 138). Vemos que Eurico tem seu amor retirado e sua pátria corre grande perigo; desta forma, ele decide que precisa lutar para que pelo menos um de seus amores não seja tomado de si. Entretanto, para ser o herói nacional, a personagem necessita atender

ainda às necessidades do mito. Como explica Campbell, algumas questões são levantadas sobre ele:

Se você colocar as coisas em termos de intenções, as provações são concebidas para ver se o pretendente a herói pode realmente ser um herói. Será que ele está à altura da tarefa? Será que é capaz de ultrapassar os perigos? Será que tem a coragem, o conhecimento, a capacidade que o habilitem a servir? (CAMPBELL, 1991, p. 137).

Durante a narrativa, o narrador cita, em alguns trechos, as características do herói português. Primeiramente, mesmo depois de sofrer uma desilusão, ele não desiste da vida: ―a energia de uma constituição vigorosa o arrancou das bordas do túmulo‖ (p. 51); ele é virtuoso: ―A nova existência de Eurico tinha modificado, porém não destruído o seu brilhante caráter‖, e seus sentimentos se transformam para o bem: [...] ―O entusiasmo e o amor tinham ressurgido naquele coração que parecera morto, mas transformados; o entusiasmo em entusiasmo pela virtude; o amor em amor dos homens‖ (p. 52); ele é inteligente: ―Com a profunda inteligência de poeta‖ (p. 57); seu amor para com seus irmãos não tem limites ou preconceitos: ―servo ou homem livre, liberto ou patrono, para ele todos eram filhos".

Sacerdote do Cristo. Eurico percebera, enfim, claramente que o cristianismo se resume em uma palavra – fraternidade‖ (p. 54) e ele é respeitado em sua comunidade: ―O caráter de poeta tornou-o ainda mais respeitável. A poesia, dedicada quase exclusivamente entre os visigodos às solenidades da igreja, santificava a arte e aumentava a veneração pública para quem a exercitava. O nome do presbítero começou a soar por toda a Espanha‖ (p.55). Assim, entendemos que Eurico é o escolhido para ser representante de sua pátria, pois ele carrega o que há de melhor no ser humano. Com isso, Eurico está pronto para atender seu chamado e partir para o cumprimento de sua tarefa:

Mas não é a sua coroa que os filhos das Espanhas têm hoje que

defender; é a liberdade da pátria; é a nossa crença; é o cemitério em

que jazem os ossos dos nossos pais; é o templo e, a cruz, o lar doméstico, os filhos e as mulheres, os campos que nos sustentam e as

árvores que nós plantamos. Para mim, de todos estes incentivos,

apenas restam dois: o amor da terra natal o a crença do evangelho (p. 90, grifos nossos).