Pretendíamos usar as ideias prévias dos alunos. Aquelas que estivessem corretas ou, apenas, incompletas, (ainda que carecendo de profundidade e abrangência) seriam tidas em conta como ponto de partida das novas aprendizagens; esta é uma condição para haver aprendizagem significativa, segundo Ausubel (1980), citado em Pires, (2013). Aquelas ideias que, estando erradas, se constituem como alternativas ao conhecimento correto, queríamos considerá-las no processo de ensino-aprendizagem para as “desmontar; consciencializar os alunos da sua existência; clarificar a sua diferença em relação ao conhecimento científico; e fazer com que se sentissem insatisfeitos com elas” (p. 35). Era desta forma, dizemo-lo outra vez, que tendo-as em consideração no processo de ensino-aprendizagem, as poderíamos mudar.
Na investigação que realizámos para determinar as conceções dos alunos sobre
Sexualidade, Fecundação Humana e Gravidez, a amostra era constituída por 10 alunos (a totalidade dos alunos da turma), 4 rapazes e 6 raparigas. Tínhamos dois grandes objetivos, que eram: i) identificar as conceções de alunos adolescentes ou pré- adolescentes, do 6º ano de escolaridade, sobre Sexualidade e Reprodução Humana e
Gravidez; ii) determinar a existência de mudança/evolução concetual em consequência da exploração do tema em sala de aula.
Obtivemos os dados aplicando um questionário diagnóstico (Anexo III) que foi validado por dois professores especialistas em Didática das Ciências (a orientadora do trabalho e um professor externo), e em que tivemos o cuidado de usar uma linguagem adaptada aos alunos, questionando-os sobre aspetos em que tínhamos percebido a sua curiosidade. Este interesse dos alunos pela Sexualidade Reprodução Humana e
Gravidez foi bem visível (e audível), como já dissemos, muito antes do tema ser lecionado. Uma justificação possível para esse interesse pode ser a forma como as imagens do corpo humano estão representadas no manual escolar, bastante naturais e sem subterfúgios, ou por os alunos estarem numa fase de descoberta do seu próprio corpo e de como funciona, bem como, da sua sexualidade ou até, mesmo, por algum constrangimento que este assunto lhes causara e que queriam ver esclarecido.
O questionário foi aplicado duas vezes, uma antes da exploração do tema em sala de aula (pré-teste) e a outra 7 dias após a exploração do tema (pós-teste). Aquando da 1ª aplicação do questionário (pré-teste), explicamos aos alunos que os resultados não
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seriam considerados para a sua avaliação, que só se pretendia conhecer o que eles pensavam sobre o assunto antes de este ser trabalhado na sala de aula. Temos consciência que este procedimento tem vantagens e desvantagens. Tem vantagens porque consideramos que, desta forma, os alunos se sentem mais “libertos” para dizerem o que pensam sobre o assunto, o que poderiam não fazer pensando que estavam a ser avaliados e temendo que as suas respostas estivessem erradas, uma vez que o professor ainda não tinha trabalhado o tema; tem desvantagens porque os alunos podem encarar o questionário de forma “pouco séria”, não respondendo, por exemplo. Aliando vantagens e constrangimentos optámos, também por indicação da professora cooperante, pela 1ª opção.
O conteúdo Reprodução Humana foi lecionado durante 5 aulas no 2.º período do ano letivo 2013/2014.
O questionário era composto por 6 questões/situações de tipologia aberta, que permitem uma maior variedade de respostas do que as de tipologia fechada, enriquecendo a análise, que pode ser mais realista (neste caso, em benefício da identificação das conceções alternativas dos alunos). Apesar das questões/situações abertas criarem maior dificuldade na análise dos dados, como no nosso caso a amostra era pequena esse constrangimento não se colocou.
Apresentamos, de seguida os resultados obtidos. A análise que efetuamos foi realizada comparando questão (situação) a questão (situação) as respostas dadas pelos alunos antes e depois do tema ser lecionado. Todas as respostas dos alunos estão representadas em gráfico após termos efetuado a sua transcrição.
Análise comparativa dos dados obtidos no pré-teste e no pós-teste
À volta do termo “Sexualidade” escreve palavras que este termo te faça lembrar.
0 2 4 6 8 10 12 A1 N/ Respondeu Total N º d e al u n o s A1 N/ Respondeu Total Pós-teste 2 8 10 Pré-teste 2 8 10
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Em relação a este aspeto, tanto no pré-teste como no pós-teste, não houve respostas, à exceção de dois elementos que responderam de igual forma em ambos os momentos, e apenas associando a palavra “sexo” (A1). Constata-se que, relativamente a esta matéria, não houve aquisição de conhecimento nem evolução conceptual em consequência do processo de ensino-aprendizagem. Em relação ao pré-teste, ainda admitimos que os alunos nunca tivessem ouvido o termo; já no pós-teste, é difícil entender estes resultados, que podem ser devidos à não aquisição de conhecimento sobre o assunto ou a algum desinteresse dos alunos em responder a um questionário que sabiam não os ia avaliar.
Em cada linha escreve uma frase em que utilizes a palavra Homossexualidade.
No Pré-teste, relativamente a este assunto, maioria dos alunos apenas associa
homossexualidade à homossexualidade masculina respondendo “…Homem que gosta de outro homem” (B1), apenas um aluno tem uma conceção mais ampla, referindo que a “Homossexualidade é duas pessoas do mesmo sexo gostarem uma da outra” (B2). No
Pós-teste, a generalidade das respostas mantiveram-se idênticas ao pré-teste, mas foi possível verificar em três casos alguma evolução na sua conceção. Apenas dois alunos não responderam a esta questão, quer no pré-teste, quer no pós-teste.
Podemos concluir que, sobre esta matéria, no pré-teste, a generalidade dos inquiridos detinha conhecimentos prévios (apenas dois alunos não responderam), mas incompletos, tendo evoluído após o processo de ensino-aprendizagem.
0 2 4 6 8 10 12 B1 B2 N/ Respondeu Total Nº de alunos B1 B2 N/ Respondeu Total Pós-teste 5 3 2 10 Pré-teste 7 1 2 10
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Provavelmente já ouviste falar em Doenças Sexualmente Transmissíveis (DST). Como se podem “apanhar” essas doenças?
Em ambos os momentos de aplicação do teste diagnóstico, muitas das respostas incidiram em “Não usar preservativo e falta de higiene” (C1); “Quando tentam fazer sexo” (C2), “Pode-se apanhar através do sangue” (C3) e “Quando estamos a ter relações sexuais” (C4). Nesta questão, pelos diversos exemplos de resposta, os alunos
demonstram conceções alternativas e conceções incompletas, mas também conhecimentos corretos. Contudo, pode constatar-se que, no pós-teste, houve alguma evolução conceptual, em consequência da aprendizagem na escola. No 2.º momento, todos os alunos respondem à solicitação, ainda que as conceções de alguns careçam de profundidade e abrangência, como as C2 e C4. O mais estranho é que houve 3 alunos (C3) que, no pós-teste apresentam uma conceção errada que não tinham no pré-teste, parece que confundiram DST com a transmissão da doença SIDA e outro aluno que apresentava uma conceção correta e que parece tê-la perdido.
0 2 4 6 8 10 12 C1 C2 C3 C4 N/ Respondeu Total Nº de alunos C1 C2 C3 C4 N/ Respondeu Total Pós-teste 3 2 3 2 0 10 Pré-teste 4 3 0 0 3 10
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Em cada linha escreve uma frase em que utilizes a palavra Masturbação.
Em relação a esta solicitação, relativamente a um termo que várias vezes eles tinham utilizado “em surdina”, quer no pré-teste, como no pós-teste, não se obteve qualquer tipo de resposta. Uma possível explicação para este facto talvez se relacione com o facto deste assunto lhes causar algum constrangimento (que os alunos demonstraram quando procediam à leitura do questionário) e timidez não responderam.
À volta do termo Fecundação escreve palavras que este termo te faça lembrar.
De igual forma, não obtivemos respostas, tanto no pré-teste como no pós-teste, quanto à fecundação. No pré-teste podemos perceber, admitindo que os alunos não tinham qualquer ideia sobre o assunto, no pós-teste, depois de lecionarmos o tema, fica mais difícil admitir que nenhum dos 10 alunos fez qualquer aprendizagem sobre o assunto. 0 2 4 6 8 10 12 N/ Respondeu Total Nº de alunos N/ Respondeu Total Pós-teste 10 10 Pré-teste 10 10 0 2 4 6 8 10 12 N/ Respondeu Total Nº de alunos N/ Respondeu Total Pós-teste 10 10 Pré-teste 10 10
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Se tivesses que explicar a um amigo como se faz um bebé, o que é que lhe dirias?
Nesta questão surgiram respostas como: “É o homem e a mulher terem relações
sexuais e esta engravidar” (D1); “É o pénis dentro da vagina” (D2); “Pai e mãe terem relações sexuais” (D3). Também em relação a este aspeto, houve dois alunos que não
responderam, quer no 1º, quer no 2º momento. De acordo com as respostas dadas a esta questão no pós-teste, verifica-se que a resposta de metade dos inquiridos pode ser incluída na categoria D1, o que já acontecia no pré-teste. Esperávamos que houvesse alguma mudança ou evolução conceptual, o que não aconteceu, até porque foi trabalhada a fecundação in vitro.
…E se tivesses que lhe explicar como se pode evitar ter filhos, o que lhe dizias?
Também nesta questão foi possível observar que as respostas foram as mesmas no pré-teste e no pós-teste, ou seja, os alunos já tinham alguns conhecimentos sobre o
0 2 4 6 8 10 12 D1 D2 D3 N/ Respondeu Total Nº de alunos D1 D2 D3 N/ Respondeu Total Pós-teste 5 3 0 2 10 Pré-teste 5 2 1 2 10 0 2 4 6 8 10 12 E1 E2 N/ Respondeu Total Nº de alunos E1 E2 N/ Respondeu Total Pós-teste 7 1 2 10 Pré-teste 8 1 1 10
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assunto mas não evoluíram em consequência do processo de ensino-aprendizagem. O dado mais marcante é que um dos alunos que tinha respondido no pré-teste não o fez no pós-teste. Também é este tipo de situação que nos leva a acreditar que alguns alunos talvez não tenham encarado com muita seriedade a realização do teste disgnóstico, sabendo que não contava para a sua avaliação; foram explorados em sala de aula, métodos anticoncecionais. A maioria dos alunos respondeu “Usar preservativo” (E1) e
apenas houve um caso que respondeu “Usar o preservativo e tomar a pílula” (E2).
À volta do termo “Gravidez” escreve palavras que este termo te faça lembrar.
Nesta questão, e mais uma vez, foi visível a grande ausência de respostas, mesmo no pós-teste. Naqueles que responderam, regista-se somente a resposta “É ter um bebé”
(F1). Mais uma vez a ausência de respostas demonstra que não houve evolução conceptual nesta matéria, ou desinteresse em responder.
Como é que o bebé se alimenta enquanto está no corpo da mãe?
0 2 4 6 8 10 12 F1 N/ Respondeu Total Nº de alunos F1 N/ Respondeu Total Pós-teste 4 6 10 Pré-teste 3 7 10 0 2 4 6 8 10 12 G1 N/ Respondeu Total Nº de alunos G1 N/ Respondeu Total Pós-teste 10 0 10 Pré-teste 8 2 10
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Para os 8 alunos que, já no pré-teste responderam pelo “Cordão umbilical” (G1) e mantiveram esse conhecimento no pós-teste, parece não ter havido evolução conceptual. Há, no entanto, 2 alunos que, não tendo respondido no pré-teste, adquiriram a conceção correta, ainda que, tal como a dos restantes elementos, careça de alguma profundidade e abrangência.
Durante quanto tempo o bebé deve estar no corpo da mãe?
Atendendo aos dados anteriores, os resultados desta questão são surpreendentes, todos os alunos responderam, tanto no pré-teste como no pós-teste “Nove meses” (H1). Já detinham o conhecimento correto e mantiveram-no.
Por onde sai o bebé do corpo da mãe?
Todos os alunos responderam a esta questão, quer no pré-teste, quer no pós-teste. Houve vários tipos de resposta, tais como, “Pela vagina ou cesariana” (I1) “Vagina”
0 2 4 6 8 10 12 H1 N/ Respondeu Total Nº de alunos H1 N/ Respondeu Total Pós-teste 10 0 10 Pré-teste 10 0 10 0 2 4 6 8 10 12 I1 I2 I3 N/ Respondeu Total Nº de alunos I1 I2 I3 N/ Respondeu Total Pós-teste 6 3 1 0 10 Pré-teste 3 5 2 0 10
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(I2); “Pela barriga” (I3), mas todas denotando conhecimento sobre o assunto, ainda que pouco especificado como a resposta I3. No Pós-teste, muitos mais alunos respondem corretamente o que mostra evolução conceptual em consequência do processo de ensino-aprendizagem. Apraz-nos dizer que as estratégias criadas provocaram, se não mudança conceptual, porque não havia, propriamente, conceções, pelo menos alguma evolução conceptual; mais alunos a responderem I1.
Que doença muito grave pode ser transmitida de mãe para filho, durante o desenvolvimento do bebé no corpo da mãe?
Apesar de haver 3 alunos que não respondem, em nenhum dos momentos de aplicação do teste diagnóstico, para esta questão surgiram respostas tais como “Sida” (J1); “Diabetes e Cancro” (J2); e “Fumar e beber álcool” (J3). Segundo os resultados obtidos, verifica-se que as conceções prévias corretas (J1) de 5 alunos se mantiveram e a conceção J2 desaparece. Parece ter havido, no entanto, uma mudança para uma conceção errada, havendo 2 alunos a responde J3. Dá ideia que os alunos confundiram doença com comportamentos não corretos durante a gravidez. Uma outra ideia que se impõe, nomeadamente, quando olhamos para os 3 alunos que não respondem, quer no pré-teste, quer no pós-teste, é que, não tendo ideias prévias sobre o assunto também não as adquiriram. Mais uma vez parece que temos que referir que as estratégias utilizadas sobre este tema durante o período em que foi lecionado não foram ao nível de provocar- lhes aprendizagens significativas.
0 2 4 6 8 10 12 J1 J2 J3 N/ Respondeu Total Nº de alunos J1 J2 J3 N/ Respondeu Total Pós-teste 5 0 2 3 10 Pré-teste 5 1 1 3 10
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…Como pode ser evitada essa doença?
Para além de haver muitos alunos que não responderam, em ambos os testes, constatam-se respostas do tipo “Ter higiene” (K1) (que aparece no 2º momento); usar
“Preservativo” (K2); e “Deixar de fumar” (K3). Embora haja um aluno que melhora as
suas conceções depois da lecionação do tema, ainda há dois alunos que consideram que deixar de fumar evita a transmissão de uma doença grave de mãe para filho. Mais uma vez parece haver alguma confusão entre doença e comportamento prejudicial ao bebé.