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Abortion Laws and Policies

1. Introduction

1.2 Abortion Laws and Policies

A escolha dos nomes fictícios dos participantes se deu em meio a um momento de brincadeira, para aproximar as crianças do universo da pesquisa acadêmica sem assustá- las, deixando-as o mais confortável e à vontade possível. Pedi para elas imaginarem que precisavam utilizar outro nome que não o seu como se fosse uma identidade secreta, ou um código que só seria conhecido por quem estava dentro da pesquisa. Essa atitude foi assumida, pois acredito que o brincar se relaciona diretamente com a criança; “na brincadeira, a criança cria uma situação imaginária, porém baseia-se em regras. Não existe brincadeira sem regras. Estas são as de comportamento, as quais são adquiridas através de sua realidade” (VYGOSTSKY, 1997, p. 106). Borba (2007, p. 34) defende o “brincar como dimensão cultural do processo de construção do conhecimento e da formação humana”.

Não se deve esquecer que, apesar de as rodas de conversa não serem realizadas na quadra durante as aulas de Educação Física, esse continua sendo meu contexto de pesquisa e prática social e, para as crianças do primeiro ano do ensino fundamental, ela ainda é considerada o momento do brincar.

As crianças de seis e sete anos se encontram em uma fase cujas instruções dadas de modo lúdico são mais bem compreendidas, por estarem ligadas ao brincar, que é

uma atividade interessante para elas. De acordo com Leontiv (1988) e Vygostky (1998), a brincadeira se caracteriza como a principal atividade da criança, funcionando como uma importante alavanca para as mudanças no desenvolvimento psíquico, preparando assim o caminho de transição da criança de um nível a outro do desenvolvimento. Portanto, a brincadeira é uma atividade produtiva, cujo foco está na ação em si mesma, sendo uma atividade objetiva que constitui a base de percepção que a criança tem do mundo. Aproximar a pesquisa através da ludicidade ofertada pelo brincar de faz de conta trouxe o mundo da fantasia para compreender quem elas são por meio de suas escolhas.

Moreira e Câmara (2008) afirmam que, durante a construção de nossa identidade, correm elos entre o real e o imaginário, logo, o fato de as crianças poderem escolher um nome fictício, apesar de ser uma formalidade para manter a confidencialidade da pesquisa, tornou-se um momento lúdico, no qual foi possível conhecer um pouco mais essas crianças. Dentro dessa representação entre o real e o imaginário, elas demonstraram as suas particularidades e, por consequência, suas identidades.

Duarte (2015) descreveu que, durante sua pesquisa, as crianças nesse momento de escolha se apoiaram em nomes vinculados pela televisão, como os personagens de uma dada novela da época. Fiz a pergunta “Que nome você gostaria de usar?” com a expectativa de que isso também fosse ocorrer, já que a faixa etária era a mesma. Entretanto, fui surpreendida, pois, das 16 crianças participantes, apenas cinco utilizaram nomes baseados em personagens, porém de desenhos animados, mais especificamente os super-heróis masculinos, escolhidos por cinco meninos: Flash, Batman, Superman, Supersonic e Hulk.

A justificativa de Flash estava atrelada à questão de ter uma qualidade do herói que percebeu faltar nele. Batman fez sua escolha por ter adquirido e querer adquirir produtos desse personagem. Superman baseou sua escolha no status de chefe que disse que o personagem possuía. Huck se identificou com o personagem por dizer que ambos eram fortes, ou seja, possuem a mesma qualidade. Do mesmo modo, Supersonic também encontra semelhanças suas com a personagem, dizendo que ambos são rápidos.

Salgado (2008) ressalta que, muitas vezes, as crianças acabam sendo influenciadas pela mídia, através das constantes propagandas de incentivo ao consumo, como foi possível observar na justificativa de Batman. O que percebi, ao questionar as crianças sobre o porquê de suas escolhas, novamente me remete à questão da identidade, pois as crianças compartilham com seus super-heróis qualidades em comum ou desejo de tê-las.

Os personagens dos desenhos animados, filmes ou novelas infantis influenciam direta ou indiretamente a formação da identidade das crianças. Corsaro (2011) explica que

isso ocorre porque essas personagens constituem uma das três fontes primárias da cultura simbólica da infância, especificamente neste caso é a da mídia dirigida à infância (sendo as outras duas a literatura infantil e os valores míticos e lendas).

As atitudes desses personagens são reproduzidas e imitadas repetidas vezes, fazendo com que as crianças se apropriem rapidamente delas. São as virtudes que fazem com que ocorra um processo de identificação da criança com a personagem. Para Corsaro (2011), é nas culturas de pares que essa identificação irá aparecer, ao se apropriarem, usarem e transformarem a cultura simbólica que provém das personagens.

Dificilmente se vê alguma criança dizer que queria ser o vilão e, nessa pesquisa, isso também não ocorreu. Normalmente, essa escolha só acontece quando o vilão transveste a imagem do anti-herói, sendo aquele personagem que não tem atributos físicos ou morais característicos dos heróis clássicos; são os heróis não politicamente corretos, porém dentro dos limites do aceitável, por exemplo, as personagens Fiona, a princesa, e Shrek, o príncipe, não convencionais.

No final das histórias, os heróis que foram as opções recorrentes de algumas crianças sempre “se dão bem”, sendo agraciados e recompensados, mostrando assim que, apesar de toda adversidade, sempre irão vencer; fato que na vida real da criança nem sempre irá acontecer, podendo deixá-las frustradas, sem saber lidar com o fracasso.

Na elucidação da relação entre as crianças e as personagens, considerei os segundos como influenciadores na construção da identidade da criança e da cultura da infância.

Outra circunstância com relação aos personagens, sobretudo quando estes são heróis, como foi o caso das crianças da pesquisa, é a resolução dos conflitos. Os heróis se apoiam em algum tipo de violência para ganhar suas batalhas e isso pode fazer com que as ações saiam do mundo da fantasia e caiam no mundo real. São recorrentes no universo dos meninos as famosas brincadeiras de “lutinha”, por exemplo. Uma das possíveis explicações surge da cultura simbólica que se materializa nas vivências das personagens na vida real das crianças, supondo que as crianças de seis e sete anos sofrem ainda com os conflitos do confronto entre o real e o imaginário.

As identidades são móveis e somos constituídos de identidades contraditórias que nos empurram em diferentes direções, fazendo com que essas mesmas identidades sejam comumente deslocadas (HALL, 2005). A ideia de confronto entre o imaginário e o real demonstra a transitoriedade pela qual a identidade de cada um passa em seu interior. Esse

embate que a criança enfrenta, entre a realidade e a fantasia não é negativo, mas sim uma das formas de construção dessa identidade.

Ao falar dessa construção da identidade na relação das crianças com as personagens, o que parece unificá-los é o querer ser, como notei no episódio descrito abaixo:

Flash

Professora/pesquisadora: - Que nome você quer usar? Flash: - Flash.

Professora/pesquisadora: - Por quê?

Flash: Porque na TV ele é o mais rápido e eu sou meio lerdo. Professora/pesquisadora: Lerdo por quê?

Flash: Lerdo pra pegar os outros ou correr atrás da bola. (DIÁRIO DE CAMPO IV – 20/03/2017)

As sociedades em que vivem os heróis e as princesas são representadas sempre harmoniosamente, de forma a tudo ocorrer de modo padronizado, constante e igual. Essa harmonia só se desfaz na presença dos vilões, ou seja, do diferente. Nessa perspectiva, a Diversidade Cultural não possui contexto para existir, pois todos se emolduram pelo viés da semelhança, do idêntico, do igual. A diversidade aqui se torna estática, sendo que o diferente não é bem-vindo, posto que seja o vilão que não se enquadra em um molde.

Ao traçar essa relação, percebi que esse mundo dos heróis preconiza um padrão de ser e viver, por essa razão, se distancia da questão da Diversidade Cultural como valorização dessa diversidade existente na identidade das pessoas. Assim, aquela questão abordada no final do segundo capítulo, sobre qual rumo seguirei com relação a compreender a Diversidade Cultural, encontra uma resposta. Compreendi que não cabe analisar meus dados com uma discussão nos pressupostos da semelhança e do pertencimento. Eles apontam, neste momento, que um enveredamento pela reafirmação do idêntico não é o caminho para se obter a compreensão da Diversidade Cultural pelas crianças – pelo menos não me pareceu ser o mais adequado, postas as discussões que teci até o momento.

Aproximei-me, assim, da Diversidade Cultural, vista não como um ponto de origem, mas sim como “o ponto final de um processo conduzido por operações de diferenciação” (SILVA, 2014). Ampliei então a discussão de que o vilão é só mais um modo de ser e estar no mundo, assim como todos os demais, uma identidade dentre todas as possíveis. Entretanto, não se pode esquecer que são as relações de poder que direcionam quais identidades são válidas, logo aceitáveis, e quais não são.

Segundo Miskolci (2005), nossas preferências são construções com base em padrões que interpassam o modelo binário pela relação de poder, entre o certo e o errado, o

aceitável e o rejeitável. Por vez, nossas preferências também acabam por identificar quem somos.

Nesse contexto, compreendo que as identidades infantis variam de acordo com as experiências culturais ofertadas às crianças, dentre essas, a cultura simbólica adquire relevância. Concordo, dessa maneira, com Hall (2005) que é nos processos culturais que nossas identidades tornam-se provisórias e variáveis. Ainda, em sintonia com essa ideia, acredito que as identidades, por se configurarem desse jeito, também permitem que as discussões a respeito da Diversidade Cultural as influenciem. Ao serem provisórias e variáveis, juntamente, essas identidades são passíveis de transformação.

Ao optar por nomes de heróis, estas crianças estão colocando em voga também a discussão da Diversidade Cultural através dos marcadores sociais de diferença, acordadas pelas relações de gênero que submetem a força, a inteligência e a rapidez à figura masculina.

Hulk

Professora/pesquisadora: - Que nome você gostaria de usar? Hulk: - Acho que Hulk.

Professora/pesquisadora: - Nossa, mas você não é verde!

Hulk: - Não professora, é porque eu sou forte (ele levantou o braço direito e mostrou o muque, como se aquilo representasse toda a sua força).

(DIÁRIO DE CAMPO IV – 20/03/2017)

Esse episódio acaba por remeter ao documentário “Repense o elogio”16(2017) no qual se vê a força que um elogio carrega quando padronizado por marcadores sociais de diferença de gênero. Não se costuma elogiar meninos e meninas com palavras iguais no que diz respeito ao seu empoderamento. Enquanto, para eles, prevalecem representações de força, competência e inteligência, por meio de adjetivações como: fortes, destemidos, espertos, poderosos, entre outras, para elas, prevalecem as representações de fragilidade, atributos físicos e submissão, por meio de adjetivações como: princesas, delicadas, lindas, bonitas entre outros.

Assim, acabamos naturalizando que elas devem ser “belas, recatadas e do lar” e eles têm que ser sisudos, inteligentes e não sentimentais, posto que “homens não choram”. Isso acaba por construir estereótipos e aqueles que são diferentes, como um homem mais delicado ou uma mulher mais sisuda, são estigmatizados e discriminados. Essa é uma

16 É interessante para mim que um documentário que visa desnaturalizar padrões esteja relacionado a uma das

marcas de cosméticos mais consumidas no Brasil, advinda da indústria norte-americana da beleza que vende padrões de beleza. Seria isso então um indicativo de mudança com relação ao que seja belo? Ou como bem ressaltou o prof. Dr. Osmar Moreira de Souza Júnior durante a defesa desta pesquisa, talvez seja mais uma politica de compensação de danos, como fazem, por exemplo, o Mc Donald´s ou a Coca-cola com suas campanhas de incentivo a alimentação saudável e os exercícios físicos?

discussão recorrente da Diversidade Cultural, uma vez que é sustentada pelas padronizações, trazendo à tona novamente a questão do se encaixar, tornando-as, portanto, aceitáveis ou sendo discriminadas em consonância ao rejeitável.

Parafraseando o título do documentário, repensar o elogio é necessário em uma conduta de desnaturalização desses marcadores sociais de diferença de gênero, ampliando o olhar para a Diversidade Cultural, com suas possibilidades de identificação, estando conscientes do verbo ser na intenção de que eles podem ser o que quiserem, construindo suas identidades sem serem regidos por padronizações.

Percebi que qualidades e defeitos, gostos e preferências ajudam a dizer quem são essas crianças. Além disso, suas palavras me encaminham para a percepção deles sobre semelhanças ou diferenças, o que vai ao encontro do que dizem Moreira e Câmara (2008, p. 41) sobre identidade: “aprendemos o que somos em meio às relações que estabelecemos, tanto com os nossos “semelhantes” [...] quanto com os que diferem de nós”.

Thiaguinho é outra criança que se utiliza de uma personalidade famosa para ser identificado na pesquisa e sua escolha se baseia no gosto pelo estilo musical do cantor de mesmo nome, aproximando-se de seu ídolo. Enxergo a aproximação aqui com a identidade por meio dos gostos e preferências.

Indo na contramão das escolhas anteriores, a maioria das crianças optou por nomes comuns. Algumas optaram por nomes que estavam ligados ao seu campo de relacionamento afetivo: primos, ex-professora, amiga, homenagem para mãe; como foi o caso de: Natália, Alexandra, João Pedro, Rebeca, Nicole, Carla. Isso também é explicado por Moreira e Câmara (2008), fundamentados na questão da identidade, quando dizem que nos identificamos com os grupos com os quais convivemos ou estamos em contato e estes podem nos influenciar em maior ou menor grau. Outras crianças justificaram suas escolhas por meio de adjetivos, escolhendo nomes que gostam, consideram legal ou bonito, como foi o caso de Fernanda, Miguel e Gabriel.

Gabriel

Professora/pesquisadora: - Que nome você gostaria de usar? Gabriel: - Vou usar Gabriel.

Professora/pesquisadora: - Por que vai usar Gabriel?

Gabriel: - Porque é um nome bonito e também é nome de anjo. (DIÁRIO DE CAMPO IV – 20/03/2017)

O presente episódio descreve a escolha do nome Gabriel, mas pode se interpor também ao nome Miguel, por demonstrar a existência de outra binariedade, agora no campo

do sagrado e do profano, posto que ambos advenham de nomes de anjos. Sua utilização pode estar atrelada às relações sociais da religião com seus ritos, signos e símbolos, que acabam, assim como os heróis, construindo uma identidade aceitável. Esses nomes condizem com adjetivações, como bom, puro e santo, objetivando, portanto, na criança, buscar nestes nomes exatamente aquilo que não são, ou seja, lhes falta; ou aquilo que são, ou seja, os qualifica.

Encontrei, ainda com relação às escolhas dos nomes fictícios para representar a criança, aquela que o fez porque tinha que fazê-lo e não deu nenhuma justificativa, como é o caso de Karen.

Karen

Professora/pesquisadora: - Que nome você quer usar? Karen: - Karen.

Professora/pesquisadora: - Por quê? Karen: - Por que sim ué.

Professora/pesquisadora: - Tem algum motivo especial? Karen: - Não.

(DIÁRIO DE CAMPO IV – 20/03/2017)

O episódio descrito torna-se compreensível, uma vez que toda a discussão feita me levou a compreender que as crianças podem ser quem quiserem e como quiserem.

As escolhas dos nomes fictícios pelas crianças foi outro momento de promover a escuta atenta das crianças de forma lúdica. Faz de conta que, para além de ser um brincar, é uma atividade objetiva que constitui a base de percepção que a criança tem do mundo e de como se identifica nele. Essa percepção do mundo pela criança durante a brincadeira, para Sommerhalder e Alves (2014, p. 115), ocorre porque o “brincar constitui-se em um espaço intermediário que aproxima a criança da realidade mais ampla”. Esse aqui, chamado de espaço intermediário para Winnicott (1975), recebe o nome de espaço transicional, que é o espaço entre a criança e a realidade externa. Assim, a ação do brincar é posta neste lugar das experiências, permitindo ao ser humano, no decorrer de seu desenvolvimento, lidar com suas frustações e com a vida de modo geral. Dessa forma, os sujeitos organizam a sua realidade e exercitam suas potencialidades. O autor atribui ao brincar grande valor no desenvolvimento do pensamento criativo, por este ser fundamental para a construção do conhecimento de si para a criança. Para nós, isso possibilitou mais um passo nesse ato de fazer pesquisa com elas, descobrindo como convivem com a Diversidade Cultural que as rodeia.

Por fim, utilizar as descrições para analisar inicialmente essa relação Entre o eu

e o outro possibilitou conhecer um pouco quem são essas crianças e deu uma prévia de como

experiências das aulas de Educação Física. Além disso, foi a primeiro momento de escutar essas crianças colocando-as no lugar do eu dentro da pesquisa, revelando que fazê-lo não é tarefa fácil, tendo em vista que conviver com elas em uma conduta não hierarquizada também não é.