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O nome de Gaetano Mosca tem sido associado às origens da teoria das elites através, principalmente, de seu livro The ruling class (Mosca, s.d.). Nele estaria consubstanciada, como indica o tí-

tulo, aquela que se impôs como a maior contribuição do pensador italiano para a ciência política: sua teoria da classe dirigente.58

O livro data de 1939 e é a tradução americana dos Elementi di scienza politica, reconhecido como um dos principais trabalhos de

Mosca. Na verdade, The ruling class corresponde já à segunda edição

dos Elementi, publicada em 1923, revista e ampliada por um Mosca

maduro, com uma longa trajetória de vida, e que trazia, segundo al- guns de seus comentadores, como Ettore Albertoni (1990:130-1), sua doutrina plenamente codificada. Também Norberto Bobbio (1992:8), organizador, em 1966, de uma nova edição italiana do livro, dizia que os Elementi de 1923 constituíam o texto final da obra, trazendo a dou-

trina de Mosca com uma formulação mais precisa e definitiva.59 De acordo com James Meisel, que em The myth of the ruling class procura acompanhar a evolução do pensamento de Mosca, a

segunda edição dos Elementi di scienza politica não era um mero

suplemento ou uma tentativa de atualizar a primeira, mas um reiní- cio da reflexão do autor, agora em um plano mais elevado (Meisel, 1962:190-1). Semelhante a estas é a avaliação de Arthur Livingston. Diz ele, na introdução a The ruling class que, em sua versão de 1923,

a teoria da classe dirigente alcançava um novo patamar, livre de al- guns dos preconceitos que haviam marcado suas formulações ini- ciais (Livingston, s.d.:xxxii-xxxiii).60

Se tomarmos a edição de 1923 dos Elementi, veremos que

inicial de 1896, mantida sem modificações como uma primeira par- te, apenas acrescida de novas notas, diferenciadas das originais (Mosca, 1923:vii). A primeira versão do livro comportava, além da conclusão — que trazia uma extensa discussão sobre o problema re- ligioso, o parlamentarismo e o socialismo —, nove capítulos. Des- ses, apenas dois traziam no título o termo classe política — efetiva- mente empregado por Mosca em vez de classe dirigente, utilizado pelos editores americanos —,61 não tendo nenhum deles sido iden- tificado como uma teoria. Os demais capítulos versavam sobre o método na ciência política, sobre noções como fórmula política, tipo social e defesa jurídica, sobre a teoria democrática, igrejas, parti- dos, seitas, revoluções passadas e presentes e, ainda, sobre exérci- tos permanentes, entre outros assuntos (Mosca, 1923:509-12).

Já na segunda edição, ou na parte efetivamente nova dos Ele- menti de 1923, de seus cinco capítulos, fora a conclusão, três cen-

travam-se em problemas diversos relativos à classe política, sendo um deles voltado especificamente para as origens e os obstáculos à difusão do que Mosca chamava propriamente de doutrina da clas- se política. Os dois capítulos restantes tinham por objeto a consti- tuição e a classificação dos diversos tipos de organização política (Mosca, 1923:512-4).

Uma comparação, ainda que superficial, entre as duas par- tes dos Elementi indica, portanto, que houve, entre a primeira e a

segunda edições, uma mudança quanto à centralidade e à dimen- são do lugar da classe política na reflexão de Mosca. Enquanto na primeira edição ela figurava como um dos elementos da ciência política, na segunda se constituía, explicitamente, no próprio eixo articulador, no princípio explicativo fundamental dessa ciência.

Essa ênfase tornou-se ainda mais evidente na edição america- na, a começar pelo título, que distava bastante de uma simples tra- dução do italiano. A própria distribuição dos capítulos, distinta da original, contribuiu para acentuar essa percepção. Capítulos foram seccionados, fundidos ou renomeados, passando alguns deles a re- ceber novos títulos nos quais constava o termo classe dirigente.

Procedeu-se assim, na versão em inglês, a uma nova organiza- ção do livro, conferindo-lhe uma feição diferente, resultado mesmo da exclusão de alguns trechos, da incorporação ao texto de determi- nadas notas e da eliminação de outras. Tudo isso teve em vista, nas palavras de Livingston, dar uma apresentação orgânica e legível do pensamento de Mosca, escapando de uma simples reprodução me- cânica e literal (Livingston, s.d.:xxxix-xli).62

Na prática, entretanto, o empenho do editor americano aca- bou tendo efeitos que extrapolaram a mera clarificação do texto, a tentativa de dotá-lo de uma estrutura mais orgânica, de torná-lo mais atraente, saboroso. Ele contribuiu de fato para a imposição, entre outras coisas, de uma determinada leitura, de uma percep- ção de Mosca como tendo sido, basicamente, o formulador de uma teoria da classe dirigente.63

Isso fica claro, por exemplo, em um comentário de Meisel a respeito da escolha do título da edição americana. Ele acentua que

The ruling class era bem melhor do que outros títulos que, embora

pudessem estar mais próximos do sentido literal do italiano, pouco se aproximavam dele em termos conotativos. Se era melhor, contu- do, aquele título também acabava gerando alguns equívocos:

Ele levou muitos leitores, este entre eles, a examinar o livro à luz da teoria específica sugerida pelo título em inglês, e não procurar nada mais. Quando descobrimos que o trabalho é mui- tas outras coisas além disso, que a análise da elite, longe de ser tratada de forma sistemática, é embutida em um tratado sobre a política em geral (no sentido aristotélico), o efeito é de irritação e perplexidade (Meisel, 1962:124).

Na verdade, poder-se-ia ir ainda mais longe do que Meisel, afirmando que a percepção que se impôs de Mosca terminou por determinar não apenas a leitura de The ruling class, mas uma re-

leitura de todos os seus trabalhos, que assim passaram a ser vistos como um conjunto ordenado, desde o início, por um fio que condu- zia a um sentido específico. Em outros termos, os escritos finais de Mosca passaram a conferir um determinado sentido a todos os de- mais, mesmo aos iniciais, articulando-os uns aos outros como um conjunto, como uma verdadeira obra, construída de forma progres- siva, teleológica, como a realização gradual, inexorável, de um pro- jeto dado, contido já nas origens.64

A imposição dessa percepção de Mosca guarda, portanto, uma evidente relação com sua edição americana, veículo, em par- te, de sua ampla difusão.65 Isso, é claro, só vem ressaltar a impor- tância de se levar em conta as estratégias dos editores quando se trata de refletir sobre o reconhecimento de um autor e de suas idéias. Entretanto, o que cabe enfatizar por ora é que a percepção que se impôs de Mosca foi resultado, igualmente, de um trabalho do próprio pensador. Afinal, quando The ruling class foi publicado,

Mosca ainda era vivo e a prova do livro, como observa Livingston, lhe havia sido submetida (Livingston, s.d.:xli). É aliás o empenho do pensador que explica, em grande parte, o fato de que a mesma per- cepção esteja presente em autores que tomaram contato com seus trabalhos a partir, basicamente, das edições italianas.

Como foi destacado, Mosca, na edição italiana dos Elementi,

de 1923, já procurava fazer da classe política o centro de sua refle- xão. Mais do que isso, em diversos trechos do livro — que mais tarde qualificaria como seu “trabalho maior”, seu “testamento cien- tífico” (apud Bobbio, 1992:7) —, ele introduziu o termo classe diri- gente, usado de forma intercambiável com classe política, ainda que continuasse a privilegiar este. Seu objetivo com isso era confe- rir a suas formulações um escopo mais amplo, geral, evitando o seu enclausuramento na esfera estritamente política. E foi com base nessa tentativa de ampliação que Livingston buscou justificar a adoção, na edição americana, do termo classe dirigente, contribu- indo para a consolidação do seu uso.66

Mais do que produto apenas de uma evolução intelectual, como é em geral apresentada, a tentativa de Mosca de ampliar a abrangência de seus conceitos, bem como de definir claramente suas formulações como compondo uma doutrina, uma teoria da classe dirigente, se deu, em larga medida, como efeito de sua con- corrência com Pareto. A opção pelo termo classe dirigente visava assim a fazer frente ao sucesso e à difusão do conceito de elite, mais geral, utilizado por este autor.

Se o esforço, se o trabalho de apresentação de Mosca, em sua competição com Pareto, desemboca na afirmação de uma percep- ção de seus textos como constituindo uma obra articulada no senti- do da elaboração de uma teoria da classe dirigente, importa tam- bém acentuar que um de seus efeitos foi, ao mesmo tempo, a imposição de determinados objetos quando se trata de estudar aqueles mesmos textos. Assim, se a visão que se tem é a da realiza- ção gradual e progressiva de um projeto, o que parece ser impor- tante é a busca de suas origens, demonstrando estar presente em todos ou quase todos os trabalhos desde o início, mesmo que em germe, e além disso reconstituir os seus diferentes estágios de rea- lização. Obviamente isso termina, por sua vez, por reforçar a per- cepção inicial comprovando-a, objetivando-a, conformando desse modo um círculo vicioso.

Isso fica bastante evidente no livro Doutrina da classe políti- ca e teoria das elites, de Ettore Albertoni (1990). É sobre o processo

se maior do autor. O que se tenta mostrar é que Mosca foi um pen- sador profundamente envolvido com a realidade política italiana e que a codificação de sua doutrina foi fruto de um processo de ama- durecimento e de reflexão sobre aquela mesma realidade, que pre- senciou e viveu.

O esquema que Albertoni segue, entretanto, tem um caráter evolutivo, importando perceber como, ao longo de sua trajetória de vida, Mosca foi se descolando do localismo de suas origens sicilia- nas para assumir uma perspectiva mais geral, mais cosmopolita.67 Dessa forma, o comentador percebe três períodos evolutivos no pensamento de Mosca. O inicial, de 1879 a 1895, marcado pelos pri- meiros livros — Teorica dei governi e governo parlamentare, de

1884, e Le costituzioni moderne, de 1887 —, pode ser caracterizado

como um período de sistema aberto, ou seja, de esboço de sua ela- boração teórica. No segundo, de 1896 a 1922, já se percebe, com a publicação da primeira edição dos Elementi, um sistema científico

elaborado. E finalmente o terceiro, que se estende de 1923 a 1941, inaugurado com a segunda edição dos Elementi e encerrado com a História das doutrinas políticas, corresponderia à doutrina plena-

mente codificada.

Cabe acentuar que, na medida em que se consolida essa per- cepção do autor, opera-se uma espécie de naturalização, que faz com que ela não figure como produzida, dispensando por conse- guinte a necessidade de uma reflexão sobre as operações das quais resultou, sobre as condições sociais de sua produção. Resulta daí uma “elusão” dessas condições, determinando que o importante para a compreensão do autor seja, de fato, o acompanhamento de seus textos, tratando-os de forma homogênea, complementar, como se tivessem todos o mesmo sentido, buscando neles as peças que se ar- ticulam na montagem da doutrina da classe dirigente. É o que faz Bobbio, por exemplo, em um artigo de 1962 em que procura apre- sentar a doutrina de Mosca que, para ele, deve ser apreendida a partir de seus vários trabalhos. Portanto, segundo Bobbio, qualquer tentativa de expor a teoria de Mosca da classe dirigente deve partir de uma organização adequada do material disperso pelos textos do autor.68

No limite, teríamos uma situação em que, incorporada e di- fundida aquela percepção de uma forma tal, o trabalho com os pró- prios textos de Mosca seria dispensável, bastando recorrer a co- mentadores. Convém destacar, no entanto, que os comentadores não são meros herdeiros passivos das percepções impostas dos au- tores, contribuindo simplesmente para a sua consolidação e repro-

dução, de forma inalterada. Longe disso, eles são atualizadores e construtores dessas percepções, fazendo-o a partir de seus próprios contextos, de suas próprias posições sociais, de seus próprios cam- pos de relações e de concorrência.69