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17. A/S Stangfjordens elektrokemiske Fabrikker
Assim como os trabalhos de Jenny Holzer e Barbara Kruger e as intervenções desenvolvidas por outros artistas da Creative Time, a intervenção artística proposta por mim, além de buscar uma alternativa para a forma de apresentação do meu trabalho para além dos espaços convencionais de exposição, como os museus e galerias, visa potencializar a relação entre a arte e o local onde os outdoors serão instalados (ruas de bairros onde habitualmente se concentram pessoas de classe A) e uma preocupação com o público-alvo que terá acesso à obra. Proponho ainda, através dessa intervenção, um questionamento sobre o discurso publicitário e suas estratégias de convencimento e manipulação do desejo, além de uma crítica ao consumo das elites e à fetichização de produtos consumidos por esta classe. Também não se pode ignorar no trabalho sua relação com o discurso publicitário, com o suporte de veiculação – os outdoors, e, sobretudo com o próprio espaço urbano.
Retomando Peixoto (1998), Pasternak (1998) e Bergamin (1998), que afirmam que as intervenções temporárias no espaço urbano contribuem para
redefinir o espaço da urbe, na medida em que questionam a relação entre a rua e o museu e exploram todas as tensões advindas dessa relação, pode-se afirmar que meu trabalho, ao criticar, em particular o consumo das elites e ao utilizar o espaço público urbano - ruas de bairros normalmente freqüentadas por pessoas pertencentes à classe A de Belo Horizonte, objetiva empreender com este público em específico um diálogo questionador e crítico.
Paralelamente ao trabalho de Jenny Holzer, pode-se perceber que a proposta de intervenção urbana por mim desenvolvida também apresenta um reflexo da linguagem, da mensagem e dos veículos publicitários. Tal como no trabalho da artista, em que o meio principal de expressão é, sem dúvida, a linguagem, minha proposta de intervenção artística também busca estabelecer um diálogo com o público, provocando sentimentos ambíguos e contraditórios, assim como os truísmos irônicos e mordazes veiculados em suas obras.
Sob esse aspecto, pode-se dizer que minha proposta de intervenção urbana tem reflexos no trabalho de Jenny Holzer. Além de explorar o veículo outdoor também explorado por ela, meu trabalho propõe a construção de frases-títulos, extremamente sintéticas, que têm o mesmo papel desempenhado pelos slogans e títulos publicitários. Contudo, enquanto Holzer busca no discurso político e no tom autoritário dos comunicados dos serviços públicos a inspiração para a criação de suas frases, no meu trabalho, a fonte de inspiração foram frases bíblicas também profundamente difundidas, na atualidade, pela indústria cultural e disseminadas pelos veículos de comunicação de massa.
A proliferação dos templos religiosos, a comercialização de diversos artigos religiosos, a crescente invasão dos meios de comunicação de massa pelas religiões através da veiculação de programas de cunho religioso em meio à programação
tradicional, a própria utilização do espaço público para a exibição das mensagens religiosas por meio da utilização de placas de fachada de estabelecimentos comerciais ou adesivos em veículos cujos proprietários são fiéis membros de religiões cristãs, proporcionou, em muitos casos, a banalização da mensagem religiosa. A partir do momento em que a mensagem religiosa com tarefa de propagação do discurso de determinada religião transcende o espaço cultual dos templos e das igrejas e atinge o mobiliário urbano e os meios de comunicação de massa, a mensagem religiosa invade o espaço urbano e passa a disputar com a mensagem publicitária os espaços na mídia e no próprio espaço público. A disseminação da mensagem religiosa nos meios de comunicação de massa, a repetição exaustiva e a redundância na transmissão dessa mensagem promovem, nesse discurso, um esvaziamento de sentido. Assim, alguns provérbios bíblicos até então discutidos apenas no momento do culto religioso e restritos às páginas da Bíblia e ao espaço das igrejas, ao serem transpostos para os adesivos de veículos, para as camisetas, para as sacolas de supermercados e, principalmente, para as placas de fachada de diversos estabelecimentos comerciais são vitimados pelo efeito da banalização provocada pela superexposição aos meios de comunicação de massa. Logo, enquanto discurso, essas frases são vítimas de um esvaziamento de sentido no momento em que se transformam em meros slogans.
Assim, neste trabalho composto pela seqüência dos três outdoors, propõe- se exatamente a análise do processo de esvaziamento de sentido dessas mensagens bíblicas, ao serem extremamente superexpostas pelos meios de comunicação. Nesse sentido, tais mensagens passam a ser vistas como slogans banais semelhantes aos slogans publicitários de qualquer produto. Daí, a
apropriação dessas mensagens como título para os anúncios por mim desenvolvidos e sua relação com produtos os mais variados.
Ao mesmo tempo em que meu trabalho propõe uma crítica à banalização do discurso religioso e sua reutilização em um outro contexto, a criação dos títulos publicitários e sua vinculação aos produtos propostos revela, tal como os truísmos de Holzer, uma crítica mordaz e contundente ao consumo das elites, apontando uma relação cínica e irônica entre o poder aquisitivo e as benesses advindas da fé religiosa.
A crítica à sociedade de consumo e aos valores da cultura da sociedade contemporânea, contaminados pela publicidade, pela economia de mercado e pela globalização, presente como tema recorrente no trabalho de Barbara Kruger, também se faz presente na proposta de intervenção urbana criada por mim. Os trabalhos ainda se relacionam quanto à utilização das frases de efeito que se mesclam a imagens publicitárias, quanto à presença constante do diálogo entre o emissor e a audiência, por meio da utilização de pronomes, e também quanto à ênfase na relação entre o texto e a imagem para a produção de significado.
Quanto a esse último aspecto, minha proposta de intervenção urbana também se utiliza do texto e da imagem em sua composição. Já que o objetivo da intervenção é o de se apoderar do discurso publicitário na tentativa de se criar uma marca ilusória, fictícia, e ao mesmo tempo criticar o consumo da elite através da veiculação de anúncios de produtos destinados a essa classe econômica, faz-se pertinente a utilização do texto e da imagem nos moldes dos anúncios de produtos similares.
Contudo, diferentemente do trabalho de Barbara Kruger, onde se percebe a utilização de imagens advindas de colagens de anúncios publicitários antigos, minha
proposta vale-se de imagens fotográficas reais de produtos fictícios. Nos três
outdoors criados, as fotografias dos produtos desenvolvidos têm destaque, já que,
seguindo a intenção do trabalho, pela primeira vez esses produtos estariam sendo apresentados ao público-consumidor, ou seja, estariam em estágio primário ou de lançamento.
Para o meu trabalho, o convencimento do público que terá acesso à obra quanto à existência dos novos produtos e da nova marca passa pela necessidade de que a mensagem final se aproxime ao máximo do código publicitário utilizado na confecção das mensagens de venda de produtos similares. Ao mesmo tempo em que se objetiva criar essa ilusão pela apoderação dos signos publicitários, espera-se que o público possa decodificar a ironia presente na obra, que se revela sobretudo no vínculo entre texto e imagem.
Além da utilização do código publicitário, deve-se levar em conta que, assim como os trabalhos de Jenny Holzer, Barbara Kruger e algumas das intervenções propostas por artistas da Creative Time, meu trabalho utiliza também os suportes destinados à veiculação da mensagem publicitária, no caso os outdoors. Neste aspecto, pode-se considerar que, ao mesmo tempo em que o trabalho empreende uma crítica ao código publicitário e à elite consumidora, utilizo dos próprios meios de divulgação da mensagem publicitária para a exibição de minha obra. Assim, a experiência de ruptura com o espaço institucionalizado da galeria reveste-se também de outros significados, como, por exemplo, a tentativa da potencialização da crítica presente no discurso utilizado e, ao mesmo tempo, a criação de um jogo metalingüístico. A obra proposta não teria o mesmo impacto se fosse exibida nas paredes de uma galeria. Por todos os objetivos já expostos, a obra apenas se sustenta se for destinada ao espaço urbano, se conseguir efetivar o diálogo com o
público ao qual se destina. Para tanto, a utilização dos outdoors publicitários torna- se fundamental.