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In document MEDDELTE VASSDRAGKONSESJONER (sider 65-71)

A individuação inerente à atuação do poder disciplinar é observada em relação a quatro procedimentos: a distribuição no espaço, o controle da atividade, a organização da gênese, a composição das forças. No primeiro deles, Foucault descreve uma série de técnicas que conduzem a uma administração espacial do que se opera na dinâmica de um dispositivo. Tal procedimento passa pela instituição de três diretrizes: a primeira corresponde o encarceramento, i.e. a utilização de lugares cercados e fechados como forma de potencializar os efeitos de dominação; a segunda se refere ao chamado princípio de localização imediata ou do quadriculamento, segundo o qual cada indivíduo tem o seu lugar, e em cada lugar, deve haver

86 FOUCAULT, Michel. Le pouvoir psychiatrique. Paris: Gallimard, 2003, p. 74. 87 Ibidem, p. 75.

um indivíduo; a terceira técnica, conhecida como regra das localizações funcionais, instala a lógica de que os espaços livres devem ser anulados e dotados de um objetivo útil, de modo que todos os espaços, inseridos em um quadro geral direcionado a um padrão de utilidade, sejam preenchidos com uma funcionalidade específica; a quarta técnica, por fim, refere-se a uma espécie de racionalização conjuntural dessas unidades espaciais, em que cada um ocupa um local dentro de uma configuração que distribui os corpos em espaços seccionados de maneira serial. O procedimento de distribuição de espaços, portanto, esforça-se na adequação topográfica dos corpos à maquinaria do dispositivo. A disciplina cumpre melhor a sua meta ao passo que consegue calcular à exaustão a maneira pela qual os indivíduos se ajustam no espaço:

“É preciso anular os efeitos das repartições indecisas, o desaparecimento

descontrolado dos indivíduos, sua circulação difusa, sua coagulação inutilizável e perigosa; tática de antideserção, antivadiagem, antiaglomeração. Importa estabelecer as presenças e as ausências, saber onde e como encontrar os indivíduos, instaurar as comunicações úteis, interromper as outras, poder a cada instante vigiar o comportamento de cada um, apreciá-lo, sancioná-lo, medir as qualidades ou os méritos. Procedimento, portanto, para conhecer, dominar e utilizar. A disciplina organiza um espaço analítico”.88

O segundo elemento do procedimento de individuação diz respeito ao controle da atividade, algo que se materializa a partir de cinco aspectos: a) o horário, b) a elaboração temporal do ato, c) a correlação entre o corpo e o gesto, d) a articulação corpo-objeto, e) a utilização exaustiva. Em primeiro lugar, a disciplina herda a noção de horário das comunidades monásticas. A técnica de estabelecer condutas regulares de acordo com unidades de tempo cada vez mais precisas – quartos de hora, minutos, segundos – conjuga-se perfeitamente com a produtividade exigida no cerne de mecanismos disciplinares: metodicamente dividido, o tempo pode ser fiscalizado para ser bem empregado. De qualquer forma, a disciplina deve se esforçar em ajustar o corpo aos imperativos que se desenvolvem nas medidas temporais. É o que Foucault chama de elaboração temporal do ato, que consiste em condicionar o corpo às

unidades de tempo. Gestos devem ser decompostos de modo a regular o movimento conforme o elemento temporal: um ritmo programático deve ser seguido a fim de conferir a perfeita combinação do ato com o relógio. Daí surge a necessidade de colocar o corpo e seus gestos em correlação. Para o melhor controle corporal, a disciplina impõe uma série de gestos, visto que um corpo que obedece a um código gestual elaborado pela atuação disciplinar responde melhor aos objetivos de eficiência:

“A fim de aperfeiçoar o mecanismo de controle das atividades, a disciplina faz

com que cada um dos gestos que compõem o ato esteja sintonizado com a atitude global do corpo e com o objeto manipulado. Essa sintonia, ao mesmo tempo em que facilita o controle, aumenta a eficiência”.89

O dispositivo disciplinar, no entanto, não define apenas a postura do corpo, mas também a sua relação com o objeto. De fato, esta é mais uma face do controle da atividade: o corpo deve seguir as diretrizes disciplinares que definem o modo pelo qual ele se relaciona com os objetos que manipula. Não só isso, a disciplina também se esforça em utilizar o tempo exaustivamente. Inscreve-se em uma lógica positiva: coloca em voga o princípio de uma utilização sempre crescente do tempo: “mais exaustão que emprego; importa extrair do tempo sempre mais instantes disponíveis e de cada instante sempre mais forças úteis”90. Consiste em potencializar

ao máximo o uso mínimo do tempo. Por meio dessas quatro condições, o dispositivo controla plenamente a atividade corporal. A gerência sobre a atividade entra em uma economia de vigilância e eficiência.

No entanto, o processo de individuação elaborado pela disciplina requer a realização de um terceiro procedimento: a organização das gêneses. O fato é que os dispositivos disciplinares atingem inclusive os processos de formação. A prática pedagógica, nesse sentido, obedece a um aparato de organização que aparece ligado a estratégias políticas. Mais especificamente, o

89 FONSECA, Márcio Alves da. Michel Foucault e a constituição do sujeito. São Paulo: EDUC, 2003, pp. 65- 66.

programa que atravessa a instrução reflete a existência de um perverso objetivo disciplinar: capitalizar o tempo dos indivíduos. “Trata-se, aqui, de efetuar uma acumulação rentável das durações temporais decompostas e recompostas das atividades”91. Em outras palavras, a

organização das gêneses é atravessada por uma economia de dispositivos destinados a dividir o tempo segundo o paradigma de rentabilidade. O exercício dessa missão consubstancia-se por meio de um programa serial. Nele, a duração do tempo é dividida em segmentos que, inseridos em uma espécie de esquema analítico, representam etapas que segregam indivíduos conforme o seu grau de disciplina. O fim dessas etapas está condicionado à realização de uma prova que serve como termo de aprovação para o próximo segmento, superior e mais complexo, em um tipo de programa linear e evolutivo. Em última instância, essas séries estabelecem um regime que permite dividir indivíduos de acordo com suas qualificações. A seriação permite ao poder atuar de forma pontual sobre os corpos, conhecendo-os detalhadamente a partir dos comportamentos observados nas séries das quais eles se inserem. Assim, o dispositivo consegue disciplinar em relação a cada caso: há casos de correção, de castigo, de eliminação, de diferenciação.

Mas o procedimento disciplinar revela, ainda, um quarto aspecto não menos importante: a composição das forças. A composição das forças consiste na combinação dos elementos sobre os quais o dispositivo disciplinar se instala: os corpos e as séries temporais. Corpos e séries devem se ajustar de maneira tática, adequando-se a um aparato que tem, como finalidade, extrair o máximo de efetividade de sua configuração. Com outros termos, a disposição entre esses elementos é realizada em conformidade com uma meta inscrita nos jogos de poder: extrair o máximo das forças que se relacionam no agrupamento de incidência da disciplina. Essa composição tem em mente, por um lado, os corpos: o poder disciplinar define os corpos no que se refere aos espaços que eles ocupam, i.e. um objeto que preenche um intervalo. Não só isso,

essa localização também se opera em articulação com outros corpos, tendo em vista que um corpo é peça de um tabuleiro mais complexo, faz parte de uma estratégia mais ampla. Por outro lado, as séries cronológicas também são elementos importantes nesse tabuleiro. Os tempos de todos os indivíduos devem ser sincronizados serialmente com vistas a otimizar os objetivos que o poder disciplinar persegue:

“São também peças as várias séries cronológicas que a disciplina deve

combinar para formar um tempo composto. O tempo de uns deve-se ajustar ao tempo de outros de maneira que se possa extrair a máxima quantidade de forças de cada um e combiná-la num resultado ótimo”.92

Logo, o dispositivo disciplinar compõe individualidades que podem ser descritas a partir de quatro características: celular (elaborada pela distribuição dos corpos no espaço), orgânica (alcançada pelo controle das atividades), genética (regulada pela capitalização do tempo) e combinatória (disposta pela composição de forças). O processo de individuação, portanto, completa-se na esteira desses quatro procedimentos. Conforme Fonseca:

“O efeito direto da concretização das grandes funções disciplinares sobre

o espaço, as atividades, o tempo e as forças é a produção de um tipo de individualidade com características bastante precisas. Uma individualidade específica, fruto de uma tecnologia específica, com características de uma época: a época da disciplina”.93

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