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O Teste AT-9, a Caixa de Areia, a Arquitetura Sensível e a pedagogia da escuta revelaram a estrutura sintética sincrônica do imaginário de Seu Ceará. Esse

idoso transita, ao mesmo tempo, pelo místico e pelo heróico, pelo movimento

(cíclico) e renascimento (cobra), disseminando imagens de luta, revolta e imagens de aconchego (joão-de-barro) e paz. No Teste AT-9 verifica-se uma tendência à desestrutura, assim como em sua fala ao misturar datas.

Diante da angústia do passar do tempo, ele luta; entretanto, ao considerar sua impotência, despista o medo, a morte e confessa que quer sossego, descanso. Nesse asilo, o idoso precisa lutar para sobreviver; ele briga pelos seus direitos, quer

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heroicamente que a organização escute sua voz, suas vontades, seu ponto de vista. Mas, ao mesmo tempo, quer descansar. Ele ainda precisava fazer cirurgia em um de seus olhos e, por isso, afirmou que necessitava ficar no asilo. Suas denúncias foram diversas: falta de respeito com os idosos, despreparo dos profissionais de saúde, agressão física e psicológica. Afirmou: “isso aqui não é lugar de gente vivo, não”.

A Caixa de Areia confirmou os duplos movimentos de luta e descanso. Além disso, demonstrou consciência sobre sua vida. Falou de sua história e deixou ver o seu imaginário. No resultado da Arquitetura Sensível, ficou evidente que esse idoso não tem ou não vê lugar para se refugiar naquela instituição. Ao colocar suas emoções e afetividade nos espaços do asilo, ele não deixava ver emoção positiva. A área de lazer representa tanto o monstro quanto o elemento cíclico. Essa área foi vista como positiva e negativa por esse idoso. Ao mesmo tempo em que ele poderia desfrutar de uma área com árvores, ver o céu, ver o movimento da rua, é um ambiente que está sendo reduzido, devido às construções. Dito de outra forma, o espaço de Seu Ceará foi reduzido a ponto dele resolver sair do asilo.

Quando a mestranda-pesquisadora voltou ao asilo, esse sujeito já não estava mais lá. Ficou a lembrança de um idoso que lutou o quanto pôde, brigou não apenas por ele, defendendo muitos idosos. É um cidadão com percepção dos fatos, que conhece o Estatuto do Idoso, e é uma pessoa crítica, pois afirmou: “[...] aqui é um abrigo de ‘idoido´. Um cara cismou comigo porque eu disse ‘só tem doido’. Pois é, quem que é bom de juízo aqui? Só eu e um outro que tinha lá em cima, só. O resto tudo é débil”. Considerando os dados emergidos nos testes e na fala de Seu Ceará, percebe-se forte presença heróica, mas os dados místicos aparecem além de simples impurezas. Há a presença do caminhão, elemento cíclico do Teste AT-9 e

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objeto centrado na Caixa de Areia. Assim, ele apresenta microuniverso disseminatório sincrônico com tendência à desestrutura.

1.2 Dados míticos do sujeito 2

1.2.1 Caracterização do sujeito 2

Seu Tião, sujeito do sexo masculino, com 89 anos, viúvo, católico, cursou o ensino fundamental incompleto e estava no asilo há mais de oito anos no período da pesquisa. Teve uma perna amputada do joelho para baixo. No entanto, se locomove em cadeira de rodas sem ajuda e faz sua higiene sozinho. Gosta de pintar e participar das aulas de alfabetização.

1.2.2 Protocolo do Teste AT-9 do sujeito 2

Seu Tião recebeu o protocolo do Teste AT-9 e, após breves instruções sobre o procedimento, executou o desenho mostrado na Figura 4.

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Sobre seu desenho, contou a seguinte história:

“Esse pássaro pertence à água, vive na água, né? E a água é uma parte geradora do nosso país. Há serventia para todos nós”.

Respondeu ao questionário do Teste AT-9 da seguinte forma:

A. Sobre que idéia você centrou sua composição?

[Esse sujeito não deu resposta à pergunta.]

B. Você foi eventualmente inspirado? Através do quê (leitura, filme, etc.)?

“Leitura.”

C. Entre os nove elementos do teste de sua composição, indique:

1. Os elementos essenciais em torno dos quais você construiu o desenho.

“Pássaro e lago.”

2. Os elementos que você teria vontade de eliminar. Por quê?

“Não.”

D. Como acaba a cena que você imaginou?

“Essa parte não tem sobretudo. Não tem fim.”

E. Se você tivesse que participar da cena composta, onde você estaria? O

que faria?

“Na água, pescando. Gosto muito de água.”

No Quadro 5 são mostrados a representação, a função e o simbolismo atribuídos por Seu Tião a cada um dos nove elementos do Teste AT-9.

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Quadro 5. Representação, função e simbolismo dos elementos arquetípicos do

Teste AT-9 do sujeito 2, Seu Tião.

Elemento A. Representado por B. Função/Papel C. Simbolizando

Queda - - - Espada - - - Refúgio - - - Monstro - - - Cíclico - - - Personagem - - -

Água Lago Comunica com o rio Serventia

Animal Pássaro Caçar Serventia

Fogo - - -

1.2.3 Análise do protocolo do Teste AT-9 do sujeito 2

Seu Tião precisou de um certo tempo para desenhar, pois relatou “[...] o desenho, por exemplo, tem que decorar ele na idéia pra riscar”. Seu desenho se caracterizou pela presença de desestrutura, porém percebe-se no restante do Teste AT-9 uma tendência ao místico. O sujeito apresentou uma síntese incompleta sem deixar claro que é a atmosfera do repouso. Esse idoso não vê monstro e não vê refúgio. No questionário, disse que não quer eliminar nenhum elemento arquetípico, mas não os desenhou, não lhes deu função e nem lhes atribuiu simbolismo.

Disse no questionário que, se tivesse que participar da cena, estaria misticamente pescando e enfatizou que gosta muito de água. Pode ser o desejo da volta ao útero materno, isto é, seria a vontade de aconchegar-se. Em seu imaginário, deseja a paz e devaneia, sonhando acordado com água e pesca.

Segundo Chevalier e Gheerbrant (2001), a água possui três temas dominantes: fonte de vida, meio de purificação e centro de regenerescência. A água

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foi representada pelo lago e sua função foi de comunicar-se com o rio. A água, para seu Tião, simboliza serventia, pois é utilitária, ou seja, é fonte de vida. De acordo com a pesquisa de Durand, Y. (1988, p. 186), “a água tem um papel mais claramente utilitário nos místicos (masculinos, sobretudo)”, o que se encontra também na representação do imaginário desse sujeito.

Para Seu Tião, o pássaro tem a função de caçar. Chevalier e Gheerbrant (2001) atribuem significados diversos ao pássaro: símbolo da alma, símbolo da relação entre o céu e a terra. No Corão, muitas vezes, esse elemento é sinônimo de destino, e na arte africana, especialmente nas máscaras, simboliza força e vida. O pássaro, para Seu Tião, também tem a função de serventia e é para ser caçado, o que remete à necessidade de sobrevivência, à alimentação, à presença da dominante digestiva.

Segundo Durand, G. (1997, p. 71), na explicação psicanalítica desenvolvida por Jung, o símbolo animal seria a figura da libido sexual e, “Indistintamente o pássaro, o peixe, a serpente eram para os antigos símbolos fálicos, escreve Jung”.

Seu Tião tem uma namorada no asilo, mas ele disse “não tenho nada a oferecer a ela”. Aqui se percebe baixa auto-estima, o que pode ser resultado do tempo em que esse idoso está no asilo. Seu Tião reconhece que essa namorada é uma companhia para ele. A sexualidade está presente na vida desse idoso.

Em sua dramatização, a história que contou sobre seu desenho no Teste AT- 9, segundo ele, não tem fim, o que remete à angústia do passar do tempo e ao medo da morte. Seu Tião explica:

[...] minha história fora daqui é a mesma aqui. Eu fui um homem assim muito trabalhador, né? Gostava demais de trabalhar. Trabalhei muito, mas fui muito assim fora de certas atividades que a gente não teve, né? Então, minha vida era só trabalho, gostava de trabalho e num ponto de vista eu não pude aproveitar. Não pude aproveitar a saúde que eu tinha, né? Eu

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joguei fora minha saúde. Hoje estou nessa causa. Eu condeno eu mesmo, né? [...] entrei na infração, então hoje está me dando o resultado.

Sentimentos de culpa e impotência perpassam a fala do Seu Tião, além da vontade explícita de poder sair do asilo.

Esse idoso tem na memória a época em que tinha saúde e se condena por não tê-la aproveitado. Durand, G. (1997, p. 402) destaca que “se a memória tem de fato o caráter fundamental do imaginário, que é ser eufemismo, ela é também, por isso mesmo, antidestino e ergue-se contra o tempo”. Ao reavivar sua memória, Seu Tião relatou que os buracos do asilo, às vezes, o impedem de andar em sua cadeira de rodas conduzida por ele mesmo. Apesar das dificuldades, afirma, se imagina herói que não desanima. Essa situação confirma o que Durand, G. (1997) considera:

Longe de estar ao lado do tempo, a memória, como o imaginário, ergue-se contra as faces do tempo e assegura ao ser, contra a dissolução do devir, a continuidade da consciência e a possibilidade de regressar, de regredir, para além das necessidades do destino. (DURAND, G., 1997, p. 403).

1.2.4 Caixa de Areia realizada pelo sujeito 2

Após receber o material e as instruções sobre o procedimento da Caixa de Areia, Seu Tião compôs o cenário mostrado na Figura 5.

Sobre seu cenário, criou a seguinte história:

Esse é um ponto de vista, é... Assim como a gente sempre pede a Deus, então só acho assim, uma boa comunidade aí, né? Um símbolo assim de vida que a gente já teve e ainda tem. Tá vivo, graças a Deus e, no mais, é ter uma boa harmonia com os irmãos, com as irmãs, né? E a benção Divina. O meu causo é esse daí. Pedindo as bênçãos para que aquilo passado não volte. Que a gente seja feliz mais pra frente, né? Esse aqui, por exemplo, é como a maldade... É escorpião, é perigoso. Essa daqui também não fica atrás. A aranha, né? O escorpião pode pegar ela, mas cai fora dele, né? O cachorrinho, se deixar aqui, ele caça a gente, né? De devorar, mas tem o medo lá no ferrão, né? E a parte dos [inaudível] é a proteção divina. E essa pedra é o órgão do devaroso humano, né? [...] Tem aquela história lá do Lázaro, que sentou numa pedra e fazia cem anos que mistério tinha sentado na pedra. Ele assentou e o pai falou pra ele: “Lázaro, levanta porque tem cem anos que você está sentado aí no mistério, né?” Então, é ponto de vista que a maior força não acredita que tem coisa que pega, né?

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Nós mesmo pega coisa de qualquer um. Aqui mesmo tem pessoas que você não pode facilitar. Então, é um ponto de vista, um exemplo pra quem sabe defender. Não tem escrúpulo... Só Deus sabe o que a gente vai passar amanhã. Hoje já sabemos o que passamos, mas não sabemos do amanhã. Então não podemos ter escrúpulo um do outro. O meu caso é esse daí... Ô, porque se fulano chegar aqui é porque só tem essas pessoas aqui que, às vezes, não se dá com ele, né? Se você não quer ser mal-tratado, você mal- tratado, você pode, né? E aquela pessoa te persegue. Aí se torna difícil, né? A hora que cheguei do curativo. Tem uma mulher aí que ela mexe aí com todo mundo [inaudível] mas como eu, ela me castiga, né? Nós tivemos um debate aqui. Assim que eu cheguei, nós tivemos um debate aí. Nós não nos damos no ato. E hoje, se eu pego ela lá, ela volta o debate, né? Ia danar demais com ela, né? [inaudível] mas eu tenho cisma de ela mexer nas minhas coisas e pegar [inaudível] Mas fala pra fulano e não mexe nas minhas coisas, não. Mas, ela é teimosa, né? Então, é a coisa, né? Como o escorpião, é muito ruim. Se você pisar nele, ele te chega o ferrão, né? A aranha não, ela foi buscar o mosquito, alguma coisa, mas ele consegue a aranha, né? O cachorro é um amigo que nós temos. Você tem um cachorrinho, né? O que ele pode te valer, ele te vale, né? E nós também temos que adorar o cachorro. O cachorro é um amigo, né? Não é falso. O cachorro sendo seu, não tem falsidade com você, né? Às vezes se ele morde o chegante, é porque ele distraiu aquela pessoa, né? Mas se você ‘raiar’ com ele, ele te obedece. Volta pra trás e não faz nada. Então, é um amigo que nós temos. Temos que adorar o cachorro. E o mais, a comunidade que era como eu falava. A parte do catolicismo é essa parte aqui. É uma parte que nem todos, porque hoje tem diversas religiões. Os mandatos científicos são iguais. Às vezes, você é uma crente numa coisa [inaudível] porque seu modo de vida é diferente do meu. Então, tudo isso aí tem que pensar pro um homem que já viveu tanto e se for contar dá uma história que enche e jornal, não cabe [ri]. Então, você tá nova, tá no seu estudo, porque a psicóloga tem novas intinuanças, que seja feliz e, no mais, a minha história é por aí. Eu não tenho assim [inaudível] a enxerga, que minha possibilidade é fraca.

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1.2.5 Análise do cenário realizado na Caixa de Areia pelo sujeito 2

No centro da Caixa de Areia, Seu Tião colocou: crianças, um pescador, leopardo, aranha, escorpião, pedra, gato (para ele é um cachorro), uma casa de correio e um santo. A partir desse cenário, Seu Tião, em discurso narrativo, fez denúncias sobre o asilo, falou de maus-tratos, falsidades, invasão das pessoas mexendo em suas coisas e dificuldade em se relacionar com os outros asilados.

A aranha, o escorpião e o cachorro representam perigo para Seu Tião. O escorpião apresenta alguns simbolismos negativos de acordo com Chevalier e Gheerbrant (2001). Na tradição grega, esse animal é o vingador de Ártemis, pois “o escorpião evoca a natureza na época do dia de Todos os Santos, da queda das folhas, da morte da vegetação, do retorno da matéria bruta ao caos” (CHEVALIER; GHEERBRANT, 2001, p. 384). Seu Tião explicou que o escorpião é “[...] maldoso. A maldade dele pode até ser de utilidade”. A aranha para ele é “[...] trabalhadeira, mas também é maldosa. Faz os planos dela para pegar o mosquito”. Aparecem aqui os opostos dialetizando: a maldade e a utilidade, o trabalho e o mal.

O leopardo é o símbolo da altivez, e “[...] pode ser tomado, mas geralmente como um símbolo da casta real e guerreira, sob seu aspecto agressivo” (CHEVALIER; GHEERBRANT, 2001, p. 544). A agressividade foi mostrada por Seu Tião ao falar que teve um debate com alguém, ao denunciar que as pessoas mexem em suas coisas. Seu Tião afirmou: “Como o escorpião, é muito ruim. Se você pisar nele, ele te chega o ferrão, né?”. Todos os animais de seu cenário são relatados como tendo caráter de agressividade e medo, representando perigo e morte.

Referindo-se ao asilo, Seu Tião disse: “[...] tem pessoas falsas. A falsidade toma o mesmo símbolo do escorpião. Está aqui conversando com você, está tudo bem, você vira as costas, aí desce o cacete [...] essa parte do escorpião é maldade”.

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Em seguida, seu Tião explicou que “A aranha não, ela foi buscar o mosquito, alguma coisa, mas ele consegue a aranha, né?” Nesse momento, o idoso entendeu que o escorpião também pega a aranha. É um bicho pegando o outro, um devorando o outro. Sobre a aranha, reforçou:

[...] ela é trabalheira e maldosa, porque ela faz o benefício, mas te pega adiante, né? Tem que abrir os olhos para sair da infração, né? Quando chega, você sai dela, não sei de nada e vai saindo pra não ter complicação, para não cair na teia da aranha, não é certo? Porque não adianta nada estar aqui conversando com você e você vira as costas, mas aquela menina [...] então, a parte da aranha é essa daí.

Falou que: “[...] o cachorro é um amigo que nós temos”, pois esse animal tem o lado positivo de ser um amigo. Parece que Seu Tião está necessitando de uma proteção, de um cão protetor, de uma amizade, quer e deseja a paz, o aconchego; a carência de proteção e afeto está presente nesse sujeito. Em seu discurso narrativo, Seu Tião colocou sua situação nas mãos de Deus, demonstrando, assim, o aspecto místico de seu imaginário. Deus lutará por ele, enquanto se recolhe misticamente. No entanto, na Caixa de Areia, observam-se laivos de heroísmo em denunciar o que acontece no asilo; mas o idoso não reage, entregando seu destino nas mãos de Deus, acomodando-se e continuando na mesma situação, com medo de falar, de criticar e ser punido, pois Seu Tião relatou que “ele te chega o ferro”. Não há heroísmo e luta, mas sim fuga e eufemização de perigo/morte.

1.2.6 Protocolo do teste da Arquitetura Sensível do sujeito 2

No Quadro 6 é apresentada a ressignificação do espaço asilar por Seu Tião com a aplicação do teste da Arquitetura Sensível.

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Quadro 6. Ressignificação do espaço asilar do sujeito 2, Seu Tião.

Elemento Espaço do asilo Significado

Queda Em todo lugar Falta consciência

Espada Quarto Contratempo/parte estranha

Refúgio Não tem lugar -

Monstro Secretaria Falsidade

Cíclico - -

Personagem Refeitórios (masculino e

feminino)

Falta de consciência

Água Em todo lugar Utilidade de manutenção

Animal Privacidade/pensamento humano Falta de consciência

Fogo Em todo lugar/está geral Desumanidade

1.2.7 Análise do protocolo do teste da Arquitetura Sensível do sujeito 2

Seu Tião disse:

[...] tem um ferrão me cutucando, uma espada me cutucando. “Essa é uma parte, a maldade [...]. E você vai comprimir ela, todo mundo sai fora, não, que isso? Você está sentindo que eu estou te fazendo uma maldade e vou sair fora? Bom, do ponto de vista, né? Mas que a maldade está aí dentro, tá.

Falou da mudança de diretoria do asilo, o que piorou dez vezes a situação, em sua opinião. Também relatou que esperava há oito meses a mudança de asilo. O asilo pesquisado será transformado, futuramente, em uma faculdade de medicina e a proposta é levar os idosos para um local que atualmente abriga uma creche, a qual será adaptada para recebê-los. Para Seu Tião, o refúgio não tem lugar, pois afirmou que “entra aqui e sai ali com cuidado, senão o bicho pega”. O monstro está na secretaria. Esse idoso destacou que a secretaria só quer o seu benefício, assim disse: “só quer vir a nós”. Ele colocou o personagem no espaço dos refeitórios masculinos e femininos, posto que para ele a refeição significa “uma hora sagrada”. O fogo, ao qual não atribuiu função e nem simbolismo no Teste AT-9, no mapa

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estava geral ou em todo o espaço do asilo. Seu Tião reforçou: “você não pode facilitar que aqui o fogo te queima [...] isso é coisa de sete anos que eu venho observando, né?”

Seu Tião afirmou:

Eu sou nervoso, eu não gosto de ver as coisas malfeitas e eu falo logo. Então, eles querem, eles querem do jeito deles. Acha que a gente não enxerga o malefício. [....] se você é funcionária daqui, agradeça o nosso dinheiro. Eles ‘está’ aqui pra ganhar dinheiro e é nós que pagamos, entendeu? E na hora de te ajudar, não te ajuda, né? A vez que vai te ajudar, te ajuda com má vontade.

Seu Tião denunciou que existem maus-tratos no asilo. Ele precisa ser ajudado e está a pedir socorro. Outra denúncia desse sujeito: “[...] e você não pode falar nada, né? É um trem interessante, porque você vai reclamar e acha ruim, vira a cara para você”. Esse idoso disse que quem reclama no asilo é afastado da convivência. Explica: “[...] não pode reclamar. Então, a parte que eu sinto prejudicado é essa aí, porque eu reclamo, eu vejo uma coisa, eu não deixo para trás, eu falo logo. Olha, isso é assim, assim e assim”.

Aqui, novamente, verifica-se o heroísmo ao denunciar, ao falar do que o incomoda no asilo, mas é um heroísmo imaginado, distante daquele que o prejudica. Na verdade, ele não enfrenta a situação; fala à mestranda-pesquisadora com medo de ser ouvido pelas pessoas envolvidas na organização do asilo. Não se trata, pois, de microuniverso heróico.

1.2.8 Interpretação geral dos dados advindos dos instrumentos utilizados com o sujeito 2

O microuniverso mítico de Seu Tião se apresenta com imaginário desestruturado em traços místicos registrados em seu protocolo do Teste AT-9. No entanto, na Caixa de Areia, apesar de seu discurso ser confuso, verifica-se a

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presença da luta quando denuncia. Da mesma forma, na Arquitetura Sensível, Seu Tião denuncia sua insatisfação em relação à direção da instituição e a alguns comportamentos dos idosos. Esse sujeito tenta ser ativo no que pode, pois tem uma perna amputada, mas se locomove sozinho em cadeira de rodas, como citado anteriormente. O Teste AT-9 revela seu imaginário naquilo que ele não diz, representando simbolicamente quando, na concretude da realidade, ele denuncia, quer ser visto como herói, porém nada faz para alterar sua situação.

É um idoso que sabe que quando reclama, acaba sendo prejudicado. Assim,