Porque as identidades são construídas dentro e não fora do discurso é que elas precisam ser compreendidas como produzidas em locais históricos específicos. Tomamos esse pensamento de Hall (2000) para situar na prática discursiva do grupo dos Saraus Culturais da AEC-TEA a identidade de “quem discute o social” no contexto de uma associação de objetivos culturais, democrática e de fins não econômicos, que tem como missão, segundo seu
18Aqui nos referimos às formas marcadas da heterogeneidade mostrada proposta por Authier-Revuz (2004) e por
95 Estatuto Social, “fomentar a participação das pessoas no trabalho voluntário em projetos e ações que visem a melhorar a qualidade de vida da população”.
Ora, no interior desse lugar histórico a prática discursiva do grupo dos Saraus Culturais, este por nós compreendido como uma comunidade de prática (Cf. 6.2.2), promove um domínio de interesse a partir do qual os sujeitos se reúnem e pelo qual se exclui ora a possibilidade de “estar em outro lugar”, ora quem “não está no grupo”, suturando-se, para
usar o termo de Hall (ibidem), à identidade daqueles que “discutem os problemas sociais”.
Nesse sentido, como propõem Lave e Wenger (1991), reconhecer o aprender como uma forma de pertença diz respeito reconhecer a formação e a transformação de identidades dos sujeitos à medida que eles se tornam membros de uma comunidade de prática.
Porque o sujeito tornou-se “descentrado”, segundo argumentação de Hall (2005), e em especial pelas imposições da pós-modernidade, as identidades não são unificadas, singulares, mas, ao contrário, como também debate Hall (2000), multiplamente construídas ao longo de discursos, práticas e posições. São sujeitas à historização, à mudança e à transformação, num processo no qual a materialidade das condições de produção diz respeito à vida dos sujeitos, à sua pertença “no mundo”, como alegam Lave e Wenger (1991), de forma que pensar a identidade é referir-se a uma movimentação de sujeitos e de seus lugares na história.
O atravessamento ideológico, nesse sentido, diz respeito a um trabalho da interpretação, pelo qual os sujeitos constroem outros sentidos, e estes podem comprometer-se com o pensamento crítico, como julgamos acontecer no contexto do grupo que planeja e apresenta os Saraus Culturais da AEC-TEA. Lá, a preocupação constante diz respeito à discussão de problemáticas que se estendem sobre a realidade da comunidade local.
Nas quatro edições observadas ao longo dos dez meses de pesquisa, identificou-se que o grupo decidiu discutir sobre o preconceito contra nordestinos e negros, sobre a ideia estereotipada de que o carnaval de Salvador é uma festa popular e, por fim, sobre a problemática da abordagem sobre as drogas junto a jovens e adolescentes.
A edição “Discriminação? Respeite o meu nordeste”, de agosto de dois mil e doze, a
sexta realizada pelo grupo, teve como construto ideológico ideias como a de que cabe aos nordestinos exercitarem a autovalorização, olhando criticamente as construções textuais propagadoras de preconceito contra eles, bem como a de que cabe aos diversos grupos sociais o respeito mútuo às peculiaridades de cada um; a sétima edição, realizada em novembro do mesmo ano, cujo tema foi “Identidade e Cultura Negra”, promoveu a discussão sobre o
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reconhecimento de elementos da cultura negra presentes na comunidade local e sobre a forma estereotipada da beleza feminina associada ao “ter cabelos lisos”.
O oitavo sarau, realizado em dezesseis de fevereiro do ano seguinte, mês em que se vive a euforia, principalmente da juventude, pelo carnaval de Salvador, voltou-se ao questionamento dos interesses empresariais atualmente envolvidos na organização do evento e pelos quais se superou o ideário de festa popular. A nona edição, realizada em maio daquele ano, atraiu uma plateia bastante diversificada que se propôs a participar da discussão sobre as drogas, trazida pelo grupo na perspectiva do “como você nunca viu”. O grupo se apresentou à luz do propósito de promover maior envolvimento dos jovens no debate, valorizando sua
contribuição, ajudando-os a sentirem-se convidados a “ficar de fora” por convicção própria,
esta assumida pela consciência da necessidade de assim o ser, e não porque houve eficiência do recurso da repetição do “fique fora”.
Em 25.04.2013, no diário de campo fez-se o seguinte registro:
Como chama atenção na proposta dos Saraus discutir a partir do questionamento de outros discursos pelos quais as coisas se mantêm estáveis. Os meninos se preocupam com o ir além das aparências e acabam revelando situações despercebidas, mas reais. Falar do consumo das drogas denunciando o incentivo midiático ao consumo do álcool, e mais, alegando que a forma como o assunto é abordado com os jovens impõe-lhe um “não” alheio que precisa ser melhor assumido quando do maior envolvimento deles nas discussões, anuncia um traço bem latente na identidade do grupo: discutir pela lógica do pensamento crítico.
Assim, para além das apresentações artísticas, o interesse dos sujeitos, e pelo qual se
identificam, é o propósito da “discussão’, desde as reuniões de preparação até as
apresentações, de forma que, pelas palavras de Tulipa numa reunião de avaliação,“o sarau primeiro é discussão do tema e não apresentação bonitinha, mas vazia”.
As imagens a seguir dão prova do que estamos afirmando19.
19 Também se pode conferir esse interesse do grupo assistindo-se aos dois vídeos na pasta “Sarau sobre
97 Fig. 13: A discussão como foco das reniões de planejamento dos Saraus
Fonte: Acervo da pesquisadora
Fig. 14: A articulação do envolvimento do público na discussão - Sarau sobre o preconceito contra nordestino
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Fig. 15: A articulação do envolvimento do público na discussão Sarau sobre “Identidade Negra”
Fonte: Acervo da pesquisadora
Fig. 16: Insistência na articulação da participação do público na discussão Sarau sobre “Identidade Negra”
Fonte: Acervo da pesquisadora
Assim, encorajados por Hall (2000) e por Lave e Wenger (1991), interpretamos que há formação de identidades a partir da prática discursiva desencadeada no grupo que planeja e apresenta os Saraus Culturais da AEC-TEA. Compreendemos que, de maneira específica, por
99 estratégias e iniciativa também específicas, é uma prática que identifica os sujeitos com um pensamento mais crítico e pelo qual se diferenciam de quem não o faz, bem como exclui quem não o faz, conforme percebido nas seguintes falas:
Prefiro estar aqui discutindo coisas interessantes ao invés de estar assistindo televisão ou ‘colada’ no computador”; “se eu não estiver na reunião do Sarau vou estar lá na avenida, bebendo, olhando os ‘cara’ empinar moto ‘pra’ chamar atenção... É melhor vir ‘pra’ cá”; “aqui eu não fico desatualizado ou só vendo as informações pela televisão, que passa tudo de uma maneira interesseira”; “não quero estar com umas meninas que só falam de roupa de marca, de coisas caras, que eu acho tudo uma bobagem. Prefiro muito mais estar aqui.”. (Diário de campo, 28 de novembro de 2012).
A nossa compreensão se embasa, portanto, no pensamento halliano de que “acima de tudo, e de forma diretamente contrária àquela pela qual elas são constantemente invocadas, as identidades são construídas por meio da diferença e não fora dela” (HALL, 2000, p.110), firmando-se como um ato de poder pelo qual se reprime aquilo que as ameaça. Nesse sentido, o ato discursivo, a prática discursiva dos Saraus da AEC-TEA tem a ver, para os sujeitos do grupo, com a questão da utilização dos recursos da história, da linguagem e da cultura para a construção de uma forma de representação deles mesmos e de como eles reagem a outras quaisquer que queiram ser-lhes impregnadas.
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