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A LITERATURE AND REFERENCES

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No subtítulo anterior vimos a genealogia da Cidade de Deus confundida com o povo hebreu e a continuidade dela nos cristãos, tendo por característica o amor. Por sua vez, a cidade terrena caracteriza-se pela dominação, o que gera divisão na própria cidade e dominação de alguns sobre outros de modo que “cada qual busca a própria utilidade e a

443AGOSTINHO, Santo. A Cidade de Deus: contra os pagãos.Tradução de Oscar Paes Leme. v. II. 7. ed.

Petrópolis: Editora Vozes, 2010, p. 331.

444Cf. AGOSTINHO, Santo. Cidade de Deus.Tradução de Oscar Paes Leme. v. I. 10. ed. Bragança Paulista:

própria cupidez e a que o bem que apetecem não é suficiente para ninguém nem para todos, por não ser o bem autêntico.”445

Agostinho considera que dois grandes impérios são a expressão máxima da cidade terrena: os assírios no oriente e os romanos no ocidente, sendo que este surgiu depois do fim do primeiro temporalmente. Ao analisar os acontecimentos, o pensador conta que os povos dominados por esses impérios preferiam ter certa segurança e paz à própria liberdade446. A liberdade é sacrificada pela segurança legal e social.

Visivelmente, o filósofo cristão quer provar a realidade neste mundo das cidades terrena e celeste. Para ele, a formação e ação dos Estados, a favor ou contra Deus, desenvolvem-se ao longo da história da humanidade em maior ou menor grau. Tanto que para descrever a Cidade de Deus utiliza a genealogia dos homens que viveram sem desprezar a Deus e, ao final, foram representantes da liberdade e do amor de forma continuada na história.

Já para descrever a cidade terrena, Agostinho cita os impérios como sinais da constituição dos Estados com o objetivo de subjugar os outros povos como política de ação externa e, internamente, preferirem os bens inferiores aos superiores e usá-los desordenadamente a tal ponto de transformar o hábito em vício de maneira a criarem uma necessidade que afasta o homem dos bens superiores (virtudes) em prejuízo do bem comum até a queda e ruína de si.

Por essa razão, a passagem mencionada acima fala em “própria utilidade”, “própria cupidez” e “o bem que apetecem não é suficiente para ninguém nem para todos” para, na prática, dominar no âmbito externo desmedidamente e para serem dominados pela escravidão dos vícios no interno. Dominação e licenciosidade (desordem da liberdade) são a marca do Estado terreno.

Agostinho cita447a História do povo romano escrita por Marco Varrão para traçar a linhagem dos romanos do reino dos siciônios, passando aos atenienses e destes aos latinos, bem como o historiador romano Salústio que reconhece a contribuição da produção cultural ateniense para o mundo que se desenvolvia política e filosoficamente, inclusive com a fundação de Atenas. Este nome vem da deusa Minerva, que, em grego, se diz Athéna, vencedora da eleição (as mulheres votavam à época) contra Netuno (água) por um voto (de uma mulher). Não se conformando, Atenas foi castigada pelas águas (dilúvio de Deucalião) e

445AGOSTINHO, Santo. A Cidade de Deus: contra os pagãos.Tradução de Oscar Paes Leme. v. II. 7. ed.

Petrópolis: Editora Vozes, 2010, p. 311.

446AGOSTINHO, Santo. A Cidade de Deus: contra os pagãos.Tradução de Oscar Paes Leme. v. II. 7. ed.

Petrópolis: Editora Vozes, 2010, p. 312.

447Cf. AGOSTINHO, Santo. A Cidade de Deus: contra os pagãos.Tradução de Oscar Paes Leme. v. II. 7. ed.

impôs às mulheres a pena de nenhum filho ter o nome da mãe, aboliu o voto feminino e lhes retiraram o nome de atenéias448.

Já Roma é considerada a segunda Babilônia no ocidente. A primeira Babilônia foi a capital dos Assírios, o maior império já visto. Ambos dominaram os povos pela força com a sucessão de vários governantes. A par disso, a Cidade de Deus caminhava com o nascimento de Abraaão, sucedido pelo filho Isaac e este por Jacó que teve um filho chamado José. Tempo depois, nasceu Moisés no Egito que libertara o povo da escravidão, sucedido por Jesus Nave. Deste até a monarquia de Israel governada por Saul, o povo hebreu foi governado por juízes. Na fase monárquica, Davi sucedeu a Saul, que fora sucedido por Salomão até a divisão do reino no governo de Roboão.

Na época em que o povo hebreu foi governado por juízes, a Grécia instituiu solenidades a vários deuses, como, por exemplo, festas (orgias e bacanais) em homenagem à morte de Líber e das mulheres que o acompanhavam chamadas de bacantes ou mesmo da fábula de Liceu que transformava homens (os árcades) em lobos (lykos)449. Já à época do reinado de Davi em Israel, a Grécia passou da monarquia ao governo dos magistrados para governar a república.

Em relação ao povo latino, formou-se a dominação dos denominados silvanos. Esse nome tem origem no nome Sílvio, primogênito de Enéias, no período em que Saul governava em Israel . A eles são atribuídos a criação de acrescentarem ao próprio nome a alcunha de “César” e “César Augusto”450. No tempo de Salomão em Israel, os latinos fundaram Alba.

Posteriormente, na região do Lácio foi fundada Roma pelo avô de Rômulo (Numitor) que governaram juntos a região451 impondo aos povos conquistados a mesma lei. A lei civil passa a ser instrumento de dominação para que as regiões conquistadas sejam pacificadas. Nesse sentido, a lei é o meio necessário para que a paz nos territórios seja equivalente à segurança. No mesmo período da fundação de Roma, o rei de Judá era Ezequias e o de Israel Oseias. Este prediz que Israel (gentios) e Judá se unirão sob o mesmo chefe como promessa da vinda de

448Cf. AGOSTINHO, Santo. A Cidade de Deus: contra os pagãos.Tradução de Oscar Paes Leme. v. II. 7. ed.

Petrópolis: Editora Vozes, 2010, p. 318.

449Cf. AGOSTINHO, Santo. A Cidade de Deus: contra os pagãos.Tradução de Oscar Paes Leme. v. II. 7. ed.

Petrópolis: Editora Vozes, 2010, p. 323 e 326.

450Cf. AGOSTINHO, Santo. A Cidade de Deus: contra os pagãos.Tradução de Oscar Paes Leme. v. II. 7. ed.

Petrópolis: Editora Vozes, 2010, p. 329.

451Cf. AGOSTINHO, Santo. A Cidade de Deus: contra os pagãos.Tradução de Oscar Paes Leme. v. II. 7. ed.

Cristo, bem como profetiza a ressurreição de Cristo no terceiro dia da mesma forma que o profeta Amós452.

Agostinho, para demonstrar a manifestação de Deus na história, narra o contato que teve com o Procônsul Flaciano que lhe mostrara escritos da profetisa grega Eritréia, no tempo de Rômulo em Roma, os quais “as letras iniciais dos versos compunham, por ordem, as seguintes palavras: Iesoús Kreistós Theóu Hyiós Sotér, quer dizer, Jesus Cristo, Filho de

Deus, Salvador”453, a indicar que a Cidade de Deus estava presente mesmo entre os gregos. Durante o reinado de Rômulo em Roma e dos sete sábios (filósofos) gregos como Tales de Mileto e Pítaco de Mitilene na Grécia (deram resumidos alguns preceitos morais para o povo), as dez tribos de Israel foram dominadas pelos caldeus e as duas tribos de Judá ficaram na Judéia, até serem dominadas no reinado de Sedecias entre os judeus e de Tarquínio Prisco entre os romanos. Naquela época, surgiram físicos como Anaximandro, Anaxímenes, Xenófanes e Pitágoras454.

O paralelo histórico entre a Cidade de Deus e a dos homens, a primeira representada pelos hebreus e a segunda pelos impérios romano e assírio, é tão evidente, que Agostinho anota com vigor o mesmo marco temporal da libertação dos judeus do cativeiro na época de Ciro e Dario, governantes dos persas, assírios e caldeus, e da queda do domínio dos reis em Roma com o desterro de Tarquínio. O Estado romano floresce e o império assírio tem seu fim. Roma, a segunda Babilônia, é o centro do mundo de onde Cristo nascerá na Judéia sob o julgo da dominação do povo hebreu pelos romanos.

Podemos notar que Agostinho descreve o nascimento e morte de pessoas e Estados como sinal da presença da Cidade de Deus e da terrena nos acontecimentos históricos. Não por outro motivo, o legado que Agostinho deixa para a cultura do mundo é a junção entre a filosofia grega, o direito romano e tradição cristã.

A narração histórica e teológica do povo hebreu e o desenvolvimento dos impérios humanos (egípcio, assírio e romano) repercutem no conhecimento sobre o que é verdade sobre Deus. Manifestar-se (apparuit) significa tornar presente entre os homens a luz da Verdade. Aqui também aparece o filósofo cristão, a misturar filosofia e teologia novamente, para dizer que Cristo mostrou que é pura bondade. Essa visão repercute na filosofia sobre os bens criados, os quais são bons por natureza, na doutrina sobre o livre-arbítrio, na verdade

452Cf. AGOSTINHO, Santo. A Cidade de Deus: contra os pagãos.Tradução de Oscar Paes Leme. v. II. 7. ed.

Petrópolis: Editora Vozes, 2010, p. 337.

453AGOSTINHO, Santo. A Cidade de Deus: contra os pagãos.Tradução de Oscar Paes Leme. v. II. 7. ed.

Petrópolis: Editora Vozes, 2010, p. 332.

454Cf. AGOSTINHO, Santo. A Cidade de Deus: contra os pagãos.Tradução de Oscar Paes Leme. v. II. 7. ed.

sobre o conhecimento intelectivo e de conduta, na teoria da iluminação, na graça como auxílio para a prática da lei, a lei natural como caridade e restauração da ordem e no Estado ético- político.

A manifestação de Deus na história, segundo Agostinho, acontece com o nascimento, morte e ressurreição de Cristo e salvação das pessoas. Os profetas Oseias, Amós, Isaias, Miquéias, Jonas, Joel, Abdias, Naum, Habacuc, Jeremias, Sofonias, Daniel, Ezequiel, Ageu, Zacarias e Malaquias455 já assim profetizavam entre o povo hebreu. Após a vida desses profetas surgiram na Grécia os grandes filósofos (este nome teve origem em Pitágoras de Samos segundo Agostinho) como Pitágoras, Sócrates e Platão. Agostinho coloca esse fato pela localização temporal para dizer que a filosofia pagã surgiu após as profecias mais antigas do povo hebreu456. Da mesma forma critica o conhecimento egípcio de modo a enaltecer o do povo hebreu ao asseverar que tinham conhecimento de astrologia após Ísis ter introduzido o ensinamento das letras por volta de dois mil anos, e, não, há cem mil anos como diziam na época457.

O pensador cristão chega a mencionar que as filosofias existentes à época (se o mundo teve princípio ou seria eterno ou se há vários mundos, se a alma era mortal ou imortal, se a alma voltaria para corpos terrestres ou não, se o supremo bem estava no corpo ou na alma ou em ambos) formam a confusão da cidade terrena (diabólica) de modo a perturbar os governantes nas escolhas de tão variáveis correntes que professam o meio para encontrar a vida feliz, a ponto de levar os homens a combate458. Já entre o povo israelita os profetas não divergem. A mensagem é a mesma. Para confirmar esse fato, Agostinho lembra o caso em que as Escrituras foram traduzidas do hebraico para o grego por setenta e dois tradutores (seis de cada tribo) hebreus, a pedido do rei egípcio Ptolomeu Filadelfo que queria dar destaque para os textos na sua biblioteca, a provar a fidelidade dos textos pela coincidência entre as palavras e os sentidos que os tradutores a atribuíram mesmo ao fazerem a tradução de modo separado um do outro459. Essa versão das Escrituras é conhecida como a versão dos Setenta. Mais tarde Jerônimo traduziria as Escrituras do hebraico para o latim. Isso indica como a

455Cf. AGOSTINHO, Santo. A Cidade de Deus: contra os pagãos.Tradução de Oscar Paes Leme. v. II. 7. ed.

Petrópolis: Editora Vozes, 2010, p. 335-348.

456Cf. AGOSTINHO, Santo. A Cidade de Deus: contra os pagãos.Tradução de Oscar Paes Leme. v. II. 7. ed.

Petrópolis: Editora Vozes, 2010, p. 349-350.

457Cf. AGOSTINHO, Santo. A Cidade de Deus: contra os pagãos.Tradução de Oscar Paes Leme. v. II. 7. ed.

Petrópolis: Editora Vozes, 2010, p. 352.

458Cf. AGOSTINHO, Santo. A Cidade de Deus: contra os pagãos.Tradução de Oscar Paes Leme. v. II. 7. ed.

Petrópolis: Editora Vozes, 2010, p. 353-354.

459Cf. AGOSTINHO, Santo. A Cidade de Deus: contra os pagãos.Tradução de Oscar Paes Leme. v. II. 7. ed.

cidade terrestre se dividia em meio à confusão e como a de Deus era concorde com base no valor da fé.

Quando reinava o primeiro rei estrangeiro na Judéia, Herodes, o Imperador César Augusto decretou um período de paz no mundo após a mudança do regime constitucional romano na mesma época em que nascera Cristo460. Para Agostinho os cidadãos da Cidade de Deus são aqueles que aceitam Cristo, desde nações estrangeiras até os israelitas. A Cidade celeste e a terrena estão misturadas, afligidas pelos mesmos males e usando por igual os bens temporais, até o fim dos tempos461 e isso a história demonstra.

In document 02-04210 (sider 39-43)