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4. DET DYNAMISKE BESLAG

4.2 A KTIV INNHENTING AV “ INNKOMMENDE BEVIS ”

Anelamos pela verdade e só encontramos em nós incerteza.

Buscamos a felicidade e só encontramos miséria e morte.

Somos incapazes de não desejar a verdade e a felicidade e somos incapazes de certeza e de felicidade.

Esse desejo nos é deixado tanto para nos punir como para fazer-nos sentir de onde caímos244.

A distância infinita entre os corpos e os espíritos figura a distância infinitamente mais infinita entre os espíritos e a caridade, porque esta é sobrenatural. Todo o brilho das grandezas não tem lustre para as pessoas que estão nas buscas do espírito.

A grandeza das pessoas de espírito é invisível para os reis, os capitães, para todos esses grandes da carne. A grandeza da sabedoria, que não é nenhuma senão de Deus, é invisível para os carnais e para as pessoas de espírito. São três ordens diferentes, de gênero. Os grandes gênios têm o seu império, o seu brilho, a sua grandeza, a sua vitória e o seu lustre, e não têm nenhuma necessidade das grandezas carnais com as quais não têm relação. Eles são vistos, não com os olhos, mas com os espíritos. Isso basta.

Os santos têm o seu império, o seu brilho, a sua vitória, o seu lustre, e não têm nenhuma necessidade das grandezas carnais ou espirituais, com as quais não têm nenhuma relação porque eles nada lhes acrescentam nem tiram. Eles são vistos por Deus e pelos anjos, não com os corpos nem com os espíritos curiosos. Deus lhes basta. (...)

Todos os corpos, o firmamento, as estrelas, a terra e os seus reinos não valem o menor dos espíritos. Porque ele conhece tudo isso e a si mesmo; e os corpos, nada.

Todos os corpos juntos e todos os espíritos juntos e todas as suas produções não valem o menor movimento de caridade. Isto é de uma ordem infinitamente mais elevada245.

A maioria dos homens intercala a atividade de foder nos intervalos daquilo que considera preocupações

244 PASCAL, Blaise. Pensamentos. São Paulo: Editora Martins Fontes, 2005. p. 154. 245 Idem, p. 124-125.

mais importantes: a caça ao dinheiro, política, moda... Mas Sabbath havia simplificado sua vida e intercalado as demais atividades nos intervalos da principal, que era foder246.

Philip Roth, escritor norte-americano nascido em 1933, criou um dos personagens mais disjuntivos na perspectiva moral da história literária do ocidente, como o próprio

Roth o chama: o “evangelista da fornicação (...), o monge da foda247”, personagem central

de O teatro de Sabbath, o velho titereiro Mickey Sabbath. Vejamos o sumo do livro: o teatro de Sabbath é terrivelmente hilário. Desbragamento e melancolia se confundem nos monólogos de Sabbath, alternativamente Falstaff e Lear, herói da malícia e rei insano, sofrendo afrontosamente a perda de tudo: paixão, emprego, casamento, respeitabilidade e até o sexo, seu vínculo humano mais puro [...]. Entre o sexo e a morte, em suas espirais absurdas de adultério e fúria, Sabbath vai resistindo a tudo que, no mundo, apaga nossa incandescência. E Philip Roth vale-se da oportunidade para realizar uma façanha de virtuosismo erótico e dramático. Entre as perguntas que o livro sugere está descobrir até que ponto é possível escrever o sexo. O erótico e o humano se confundem, de modo comovente, neste romance que fala ainda mais quando não há o que falar248.

Sabbath é um artista da luxúria. Experimenta a vida como um rico campo de possibilidades à redenção pelo sexo, sexual healing. A cura via aisthesis: essa faculdade de sentir que, ao prevalecer sobre a vontade mediada pela razão, fica incomunicável na sua ordem disjuntiva, e assim, cabeceando no vazio moral encontra sua própria linguagem, a linguagem do prazer desenfreado, doentio. Ou seja, todo sentimento — para

não enlouquecer àquele afetado e que afeta — deve ser um “sentimento-moral”, caso

contrário, hipertrofia na sua ordem (disjuntiva) em espiral à sistemática, sempre maior e

mais intensa, gratificação — como uma adição, um vício. Logo, é possível reconhecer o

“desejo de mais poder” radicado, em Sabbath, no sentimento esgarçado sem limites, ou melhor, sem lastro moral. Com efeito, Sabbath não liga a moral ao sentimento e, com isso, acaba por odiar tudo o que sente e, odiando, reconhece o prazer na dor: a inversão completa do “prazer racional”, fora das convenções morais. A vontade fraca fica, portanto, arredia à moral e, dessa forma, torna-se escrava da matéria, isto é, escrava do corpo que se estabelece como igreja da luxúria, e Sabbath é um de seus sacerdotes.

246 ROTH, Philip. O teatro de Sabbath. São Paulo: Editora Companhia das Letras, 1997. P. 76. 247 Idem, p. 76.

No fim da história, Roth nos diz que Sabbath clama por uma morte que não chega,

ainda que perseguida e desejada249; largado numa estrada noturna e sem qualquer

esperança nos sentimentos de abismo que conheceu só lhe resta pensar com a ordem disjuntiva que o dominou por inteiro, os sentimentos sem nenhuma mediação moral,

fazendo-o cabecear agônico entre “coxas”, “bundas”, “bocetas” e perversões de toda

sorte. Roth arremata pela boca de Sabbath:

— Mas, então, estou livre! Eu me deleitei com todas as aberrações, muitas e muitas vezes! E continuo aqui livre! Sou um demônio violador de sepulturas! Um demônio! Depois de ter provocado todo esse sofrimento, o demônio ainda sai livre de tudo! Mattew! — Mas o carro-patrulha já tinha partido, deixando Sabbath enterrado até as canelas no pudim da lama da primavera, cego e tragado pela indiferente floresta nativa, pelas árvores que faziam chover e pelas rochas lavadas pela chuva — e sem ninguém para matar, senão a si mesmo. E Sabbath não podia fazer isso. Não podia morrer porra nenhuma. Como é que ia deixar tudo isso para trás? Como é que podia ir embora? Tudo o que ele odiava estava aqui250.

Tanto Sabbath quanto Dorian Gray, de Oscar Wilde, têm sua força vital e pulsante

nas clandestinas “experiência de subsolo”, assim como nosso Mr. Hide, lembro, e dessa forma, vendo a máscara secreta se colar ao rosto sobra apenas a confissão do intenso desejo em permanecer obscuro, encerrado nos segredos inconfessáveis, pois inconfessáveis na ordem em équivocité. Pois, como o próprio Sabbath diz “nossa vida é tão emocionante quanto os nossos segredos (...) tão abominável quanto os nossos segredos, tão vazia quanto os nossos segredos, tão desesperada quanto os nossos segredos (...)”. E, aos poucos, Sabbath vai se enredando no teatro que cria e aproxima-se da morte sem perceber, diretamente, esse “segredo” que a matéria esconde:

Era tudo quanto lá fazia agora, ler livro após livro sobre a morte, sepulturas, inumação, cremação, funerais, arquitetura funerária, inscrições fúnebres, livros sobre atitudes para com a morte ao longo dos séculos e livros de métodos práticos, remontando a Marco Aurélio, acerca da arte de morrer251.

Vale dizer, com efeito, que:

O acesso sexual representa para Sabbath a única via de integração humana; mas naturalmente não garante a sua sustentação. Nenhuma outra tentativa, porém, nenhum esforço de reintegração pessoal, chega a ter qualquer sucesso, como ele bem sabe. “Quanto ao padrão que rege as nossas vidas... chama-se

249 Há uma possível remissão a Shakespeare. Mais especificamente a Hamlet, no Ato III e cena I, no famoso

monólogo “to be or not to be”.

250 Idem, p. 507. 251 Idem, p. 103.

habitualmente caos”, comenta ele, e insiste: “na minha experiência, a vida se dirige para a incoerência”. Noutro momento, em discurso indireto livre, o narrador ou seu duplo tem a visão de si mesmo como um “caixão que guiamos interminavelmente pela escuridão sem quadrante, contando e recontando os eventos incontroláveis que nos induziram à transformação numa pessoa imprevista”. Nenhuma teoria do caos pode dar conta dessa desordem humana; nenhuma empatia ou amizade pode ajudar a interromper a queda livre de Sabbath252.

Em linguagem pascaliana, Sabbath é um homem consumido pelo pecado que consiste “em um ato de orgulho da vontade que se revolta contra a ordem em que se encontrava o homem, e muda o centro de sua vida. Essa mudança de centro do desejo é

também fonte de uma desordem que atinge todos os planos do ser humano253”. E, quanto

mais Sabbath se orgulha (“ordem da vontade” que deveria ser assistida por caridade) das profundidades que alcança com o corpo (“ordem da matéria” que deveria ser assistida por ascese) mais separação ocorre entre este, o corpo, em relação ao intelecto (ordem do espírito que deveria ser assistido com sabedoria) e a vontade (cujo verdadeiro lugar é a caritas). Ou seja, “cada movimento dentro de cada ordem numérica responde a um princípio de geração distinto, e, à medida que se desenvolve o crescimento numérico

interno a cada ordem, a distância entre as ordens se agiganta254”. Interessante notar que

Roth usa categorias “teológicas” para compor características, digamos, da

“personalidade” de Sabbath, tais como, evangelista e monge. De minha parte, diria que Roth propositalmente faz essa inversão para nos mostrar que no fundo obscuro de cada vício reside a contraparte de uma ontologia condenada à insuficiência de sentido, e que, por isso deve ser assistida, dado que o homem é insuficiente. Sabbath é, dessa forma, um

tipo de evangelista sim, mas com o sinal invertido, cujo infinito da soberba aponta a

insuficiência da humildade, cujo infinito da luxúria aponta a insuficiência da pureza e da castidade. Ora, duas retas paralelas não se tocam no infinito?

Assim, até mesmo nos vícios há uma tendência para a recuperação da adequação e da conveniência perdidas; cada vício está vinculado de maneira “adequada” a uma determinada virtude, tem a sua mesma estrutura, de modo invertido, e procura atingir, ainda que de maneira equivocada, detendo-se em um meio como se fosse um fim, a mesma meta que a virtude visa a atingir. Cada vício é uma sombra (umbra), um vestígio (vestigia), uma parábola (parábolis) de uma virtude; tem com ela uma estrutura de semelhança (similitudinis). Por isso mesmo, a partir daí é que se deverá empreender o

252 NESTROVSKI, Arthur. Palavra e sombra: ensaios de crítica. São Paulo: Ateliê editorial, 2009. p. 71. 253 ADORNO, Francesco Paolo. Pascal. São Paulo: Editora Estação Liberdade, 2008. p. 41.

254 PONDÉ, Luiz Felipe. O homem insuficiente: comentários de antropologia pascaliana. São Paulo:

processo de cura [...]. Há em cada vício um desejo legítimo que indica a origem divina da natureza humana e o fim para onde ela se dirige; cada vício é indicativo de uma meta que se realiza mediante sua virtude oposta255.

Só a “consciência do abismo”, às vezes por meio do sofrimento, permite a compreensão da insuficiência que exige assistência, graça. O vício, dessa forma, torna- se o mecanismo de desvelamento da carência da virtude, que cura. Só a ontologia do abismo pode permitir que uma sociedade doente, ontologicamente, se erga da soberba —

vinda em boa medida do otimismo iluminista que aposta no ser humano... — e tome

consciência da pesada condição que o escraviza. Sabbath é apenas o espelho de quem somos, em alguma medida.

§52 A disjunção das ordens. Ou, sobre: vaidade e orgulho como redenção

Segundo nosso jansenista, tudo que existe (incluindo o ser humano) é composto da ordem do corpo ou matéria, da ordem do espírito ou intelecto e, finalmente (e fundamental), da ordem da vontade ou caritas (o sobrenatural em si). Pensadas como concupiscências (portanto caídas), essas ordens assumem sua forma sem forma: fechadas em si mesmas, sem comunicação entre si, atormentadas pela heterogeneidade e desproporção (...), afogadas em distâncias infinitas256.

As ordens são mudas entre si porque o orgulho se coloca entre o intelecto e qualquer conhecimento objetivo, se coloca entre o corpo e qualquer afeto sentido ou manifesto e se instala na vontade, antecedendo qualquer humildade na forma de soberba, e, fora da graça, ainda quando manifestamos humildade ela é orgulhosa, cheia de si. Isto é, o “orgulho da humildade”, o lugar-comum do farisaísmo bíblico. Grosso modo, as três

ordens sofrem do solipsismo do orgulho257. Ao buscar fazer uma síntese da religião cristã

Pascal nos diz que:

Ela ensina pois conjuntamente aos homens estas duas verdades: tanto que há um Deus de que os homens são capazes, quanto que há uma corrupção na natureza que os torna indignos dele. Importa igualmente aos homens conhecer

255 VARGAS, Walterson José. Soberba e humildade em Santo Agostinho. São Paulo. Edições Loyola, 2014.

p. 51.

256 PONDÉ, Luiz Felipe. Da negatividade em filosofia da religião. In O pensamento no deserto: ensaios

de filosofia, teologia e literatura. São Paulo. Editora da Universidade de São Paulo, 2009. p. 56.

um e outro desses pontos; e é igualmente perigoso para o homem conhecer a Deus sem conhecer a própria miséria, e conhecer a própria miséria sem conhecer o Redentor que pode curá-lo dela. Um só desses conhecimentos faz, ou a soberba dos filósofos, que conheceram a Deus e não a sua miséria, ou o desespero dos ateus, que conhecem a sua miséria sem o redentor. E assim como faz parte da necessidade do homem conhecer esses dois pontos, faz igualmente parte da misericórdia de Deus ter-nos feito conhecê-los. A religião cristã o fez, é nisso que ela consiste258.

Ou estamos desesperados de morte, e orgulhosos da carne, ou estamos soberbos a nossos próprios olhos, e orgulhosos de nossa própria razão. Em qualquer movimento, com efeito, o homem caído tem na vontade que o guia, ao invés da caritas, o orgulho, consciente ou inconscientemente manifesto, eu acrescentaria.

Por isso não faz sentido que alguém prove moralmente (como procura fazer os sistemas normativos da Ética) a Sabbath que seu modo de vida é “imoral” em relação a esta ou aqueloutra Ética, tampouco deduza ao ateu as provas filosóficas da existência de Deus, pois como bem argumenta Pascal:

e eis por que não empreenderei aqui provar por razões naturais, nem a existência de Deus, nem a Trindade, nem a imortalidade da alma, nem nenhuma das coisas dessa natureza; não somente porque eu não me sentiria bastante forte para encontrar na natureza elementos capazes de convencer ateus empedernidos, mas também porque esse conhecimento, sem Jesus Cristo, é inútil e estéril. Ainda quando um homem estivesse persuadido de que as proporções dos números são verdades imateriais, eternas e dependentes de uma primeira verdade na qual subsistem, e a que chamamos Deus, eu não acharia que ele estivesse muito adiantado para a sua salvação. O Deus dos cristãos não consiste em um Deus simplesmente autor das verdades geométricas e da ordem dos elementos; essa é a parte dos pagãos e dos epicuristas. Tampouco consiste apenas num Deus que exerce a sua providência sobre a vida e sobre os bens dos homens, para dar uma feliz sequência de anos àqueles que o adoram; esse é o quinhão dos judeus. Mas o Deus de Abraão, o Deus de Isaac, o Deus de Jacó, o Deus dos cristãos é um Deus de amor e consolação; é um Deus que enche a alma e o coração daqueles que possui; é um Deus que os faz sentir interiormente a própria miséria e a sua misericórdia infinita; que se une ao fundo da alma deles; que a enche de humildade, de alegria, de confiança, de amor; que os torna incapazes de outro fim que não seja ele próprio259.

A regeneração e a conversão são, portanto, misteriosas260. O próprio

arrependimento não nasce no pecador, mas é plantado por Deus graciosamente em seu coração. Do coração do eleito de Deus para que, se regenere, tome consciência de sua

258 PASCAL, Blaise. Pensamentos. 2.Ed. São Paulo: Editora Martins Fontes, 2005. p. 181. 259 Idem, p. 182.

260 A possível consciência racional do mistério da graça, por si só, geraria orgulho e, por isso, a graça de

Deus não pode ser representada, muito menos sua moral, que é imitativa na essência e jamais, pode ser demonstrada. Kant, dessa forma, é o exemplo crasso de soberba intelectual, pois quis categorizar a moral e a razão, entes puros da razão, como se Deus o fosse.

miséria e, por fim, caia de joelhos, arrependido261. Em síntese, todos estamos condenados

à disjunção, às consequências morais e noéticas da Queda, mas Deus, na sua infinita misericórdia, escolhe de antemão os piores entre os pecadores para salvar. Gratuitamente. O apóstolo Paulo é um bom exemplo, a princípio assassino de cristãos, convertido, praticamente funda a tradição cristã, desenvolve sua teologia e, por fim, morre martirizado em libação dos seus pecados nas mãos de Roma. O prêmio dos eleitos é sofrer por Cristo. Roth, bom judeu que é, consciente ou inconscientemente deixa pistas de sua fé.

261 Há um dito proverbial que diz: “quando uma alma se eleva o corpo cai de joelhos”. Citado em Pondé,

Luiz Felipe. Os dez mandamentos (+ um). Aforismos teológicos de um homem sem fé. São Paulo: Três Estrelas Editora, 2015.

Capítulo 4