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3. NOEN NEDSLAGSPUNKTER I HISTORIEN

3.1. A GON OG A RISTOTELES

A contenção de Almeida Faria traduz-se numa prosa elaborada e profundamente poética. Lembremos Ricoeur que tratou o tema em diversos escritos, de entre os quais destacamos Du texte à l’action (Do Texto à Acção), onde defende a ideia de que a linguagem poética é mais enriquecedora do que a descritiva, devido à sua capacidade metafórica e transgressora (Ricoeur, 1989: 24). Como ele próprio assinala ainda, em Teoria da Interpretação, “um símbolo refere sempre o seu elemento linguístico a alguma coisa mais” (Ricoeur,1976: 65).

Quando, por exemplo, lemos no primeiro fragmento de Rumor Branco: “há trevas à tua volta e tu não és, serás um dia” ou “o futuro continuará ao rés das águas que não são vogando” (AP: 21), a densidade simbólica dos enunciados é evidente. Da mesma forma quando no romance A Paixão, na entrada referente a Piedade se alude ao texto bíblico – “assim o percorreu envolta em trevas, por semanas santas que duraram séculos” (PA:13) – é indeclinável o enriquecimento próprio das ressonâncias alegóricas. Se em Rumor Branco tínhamos já uma prosa poética, no romance A Paixão ela adquire outra consistência.

Não podemos ignorar aqui a importância do Romantismo e sobretudo, de Hölderlin – poeta romântico estudado e admirado pelo nosso autor – poeta para quem a linguagem era “o mais perigoso dos bens” (Lopes, 1994: 192). A obra de Almeida Faria, mais do que o “perigo”, reflecte o valor, a importância da linguagem, como artefacto que projecta e põe o homem em contacto com o mundo, pela exposição das suas contradições e expectativas.

A tarefa do intérprete é desbravar os múltiplos sentidos potenciados pela metáfora poética. A prosa poética de Almeida Faria desafia-nos a aceder ao “significado último”, quase ontológico, das existências enquanto partes de um texto - mundo. No discurso narrativo do autor, as personagens ganham autonomia como se fugissem ao controlo do seu criador. Estão lá como personagens narradoras e quase sempre em situação-limite.

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São presenças plasmadas em rostos indefinidos, em gestos ambíguos, cujos corpos manifestam modos de ser. Vidas fragmentadas, as personagens de Almeida Faria estão sempre em débito com a vida, todas elas estão comprometidas com um destino que começou lá atrás, num tempo onde a felicidade já não tinha lugar, a não ser sob o céu lavado da memória que romantiza um “ter sido outrora” naquele ou noutro lugar. Sem o recurso à metáfora poética, os romances de Almeida Faria dificilmente poderiam transmitir uma tal intensidade em tão poucas palavras. A narrativa breve e contida não significa incapacidade criativa ou contingência, é, pelo contrário, o resultado de muito trabalho, de uma exigência estética muito pronunciada, e de uma prosa claramente depurada, que não desmente a formação filosófica do autor. Depois de Rumor Branco, os romances de Almeida Faria aproximam-se do romance- ensaio, não nos moldes do seu mestre Vergílio Ferreira, cujos romances se inscrevem num universo de pessimismo enquanto Almeida Faria tende, a nosso ver, para a luz, para a esperança. É sobretudo o caso de A Paixão e Cortes, onde cada capítulo funciona como um pequeno ensaio, a partir do qual as personagens se expõem ou são expostas, num registo muito próximo do existencialismo. Mesmo na escrita epistolar predominante em Lusitânia e em Cavaleiro Andante, se sente essa preocupação existencial.

Ainda a propósito do legado romântico (sobretudo do alemão) na obra de Almeida Faria, são pertinentes as palavras de Silvina Rodrigues Lopes sobre o pensamento de Walter Benjamin:

Segundo Benjamin, toda a filosofia romântica da poesia confina na importância conferida à prosa, o que leva a afirmar, numa fórmula-síntese: “A ideia da poesia é a prosa”. A compreensão desta fórmula passa pela relação que através dela Benjamin estabelece entre os românticos e Hölderlin, encontrando neste poeta um princípio equivalente, o da “sobriedade da arte”. Entendendo o prosaico como metáfora do sóbrio, o que ressalta é a importância conferida à lucidez e a recusa do êxtase, do entusiasmo, do conceito tradicional de beleza, do juízo fundado no sentimento (Lopes, 1994: 190).

Almeida Faria está entre esses autores e esse horizonte estético revela-se tanto na estrutura dos romances como no tratamento dos temas. Ao nosso autor poderíamos muito bem apor a frase- síntese de Benjamin: “A ideia da poesia é a prosa”, como a escrita dos seus romances confirma abundantemente. Outra herança significativa

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oriunda do romantismo, prende-se com o caracter fragmentário da sua escrita. Enquanto nos romances A Paixão e Cortes temos o monólogo (as personagens dizem-se sem mais preâmbulos), fragmento tão ao gosto dos românticos Schlegel e Novalis, em Lusitânia e Cavaleiro Andante temos a estrutura epistolar, em voga desde a segunda metade do século XVIII. As cartas são, a seu modo, fragmentos de vida também, deixando sempre um resto de ser, são abertura e expectativa.

Por outro lado, há, sobretudo na Paixão, a salientar a intertextualidade com o texto bíblico, com os ciclos da vida, com os ciclos do dia (manhã, tarde, noite), igualmente um tempo secular onde enraizamos o nosso ser. De que a saga, o mito e o herói são símbolos. Assistimos a um trajecto em que a epopeia e a tragédia repercutem as angústias da sociedade do nosso tempo. E Almeida Faria não deixou de ser sensível a uma estética que privilegiava a aliança entre o pensamento e a sua expressão, recorrendo à poetização da linguagem como forma de maximizar a tensão o meio de atingir a máxima tensão imagística.

A carga poética dos romances em análise atenua, a desolação existencial que perpassa cada frase, cada monólogo, manifestando-se onde pareceria mais improvável, como acontece no romance A Paixão, no capítulo em que Piedade faz desfilar as suas mágoas e deveres, descrevendo a galinha morta “dentro do alguidar a cabeça entre as asas como um sono” (PA:13), são analogias e imagens como esta (“como um sono”) que marcam a diferença, que fazem da obra de Faria uma obra de excepção.

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III. A obra em aberto