3. Possible Paths towards a Working Solution
3.8. A Closer Look at the Self-Cleaning Effect
Embora se apresentem dados estatísticos sobre a distribuição da água na Terra, pode-se afirmar que estas medidas não são estáticas, pois se alteram devido a diversos fatores, dentre eles as mudanças climáticas, que a afetam significativamente.
Contudo, é notória a desigualdade da distribuição da água na Terra, na medida em que 97,5% da água é salgada e apenas 2,5% é água doce. No entanto, desta “pequena” quantidade de água doce, 68,9% localizam-se nas calotas polares ou geleiras; 29,9% são subterrâneas; 0,9% se encontram em outros reservatórios; e 0,3% estão nos rios e lagos.
Gráfico 1 – Distribuição das águas na Terra
Fonte: http://www.drm.rj.gov.br/index.php/projetos-e-atividades/subterraneas - Acesso em: 19 mar 2012.
A desigualdade na distribuição da água doce superficial na Terra se agrava ainda mais quando analisada a partir dos continentes, pois 39,6% estão na América, 31,8% na Ásia, 15% na África, 15% na Europa e 9,7% na Oceania. E somente o Brasil detém 13,7% de toda água doce do planeta Terra.
Tabela 1– Distribuição da água doce superficial (Mundo, América e Brasil) Distribuição da água doce superficial no mundo
Àfrica 9,48%
Ásia 31,59%
Europa 6,79%
Oceania 5,61%
América 46,53%
Distribuição da água doce superficial no continente americano
América do Norte 32,20%
América Central 6,50%
América do Sul 61,30%
Distribuição da água doce superficial no Brasil
Em relação ao continente americano 34,90%
Em relação ao mundo 13,70%
Fonte: UNESCO, apud
http://www.ana.gov.br/bibliotecavirtual/arquivos/20070129082304_AAguaNoBrasilENoMundo.pdf - Acesso em: 26 de jan 2012. Tabela organizada pela autora.
Ribeiro (2008: 24), em sua obra Geografia Política da Água, aponta que há diversos estudos indicando para uma crise da água, principalmente por razões políticas. A falta dessa substancia natural fundamental à vida em determinados locais poderia ser resolvida por meio de uso de técnicas conhecidas de estocagem e reaproveitamento da água. Porém, o que se vê é a poluição e degradação de corpos d‟água e aquíferos de maneira crescente em escala internacional. O que recentemente era encarado como um problema de países pobres, a falta de acesso a água de qualidade, passou a ser vista como um problema mundial, dado que ela também se torna rara para países ricos.
Como se pode observar, o Brasil é privilegiado do ponto de vista da distribuição da água na Terra e no continente americano. No entanto, também existem fortes desigualdades na distribuição da água nas bacias hidrográficas brasileiras.
Tabela 2 – A Distribuição de água no Brasil por Bacias e Sub-Bacias Hidrográficas
Fonte: ANA, Embrapa e Pnuma, apud
http://www.ana.gov.br/bibliotecavirtual/arquivos/20070129082304_AAguaNoBrasilENoMundo.pdf Acesso em: 26 jan 2012.
Além destes aspectos relativos à desigualdade na distribuição da água no Brasil, também há outros elementos importantes constitutivos na análise sobre a conjuntura política da água, pois há diferença no que diz respeito à demanda e disponibilidade de água por microbacias hidrográficas. O Relatório realizado pela ANA - CONJUNTURA DOS RECURSOS HÍDRICOS NO BRASIL, de 2011, aponta que, das doze regiões hidrográficas brasileiras, quatro se encontram com stress hídricos em relação à demanda e à disponibilidade hídrica superficial, a saber: Bacias da Região Semiárida (baixa disponibilidade de água); Bacia do Tietê (alta demanda para abastecimento urbano) e Sub-Bacias das Regiões Uruguai e Atlântico Sul (demanda de água extremamente alta para irrigação) – Anexo 1.
A análise sobre a distribuição e qualidade da água se intensifica ainda mais, quando se coloca uma “lupa” para chegar mais perto da hidrografia estudada, como o caso do semiárido da caatinga do sertão central cearense, que apresenta stress em relação ao montante das bacias hidrográficas brasileiras. Devido a sua disponibilidade hídrica, o sertão central cearense, em especial o município de Itatira/CE, se configura como área vulnerável nesta conjunta, conforme demonstra o mapa a seguir.
Mapa 3 – Situação hidrográfica do Estado do Ceará
O Município de Itatira/CE apresenta séria criticidade na distribuição e qualidade da água, pois seu abastecimento advém de reservatórios superficiais e subterrâneos, seus rios são intermitentes e os principais açudes – João Guerra, Oiticica, Suçuarana e São Joaquim – apresentam problemas em diferentes escalas na qualidade e quantidade da água, de acordo com a estiagem de chuvas. Além dos poços artesianos, principal manancial de abastecimento da sede municipal, passaram por stress hídrico em 2011, o que ocasionou um colapso no abastecimento de água, pois ficou aproximadamente dois meses sem abastecimento de água encanada. Acrescido ao fato de que esta água não é 100% doce, pois apresenta níveis consideráveis de salobridade. Seguramente, é possível afirmar que quem consome esta água para beber é a população que não detém condições econômicas para adquirir água de “boa” qualidade.
Outro agravante sobre o acesso à água potável no município de Itatira/CE é o caso do distrito de Lagoa do Mato, que tem aproximadamente 8 mil habitantes e cuja capacidade hídrica do seu principal reservatório – açude Oiticica – é de 901.782,32 m³, que em 2010 disponibilizou apenas 28%9 de sua capacidade total. Ademais, o abastecimento de água encanada não é universal aos habitantes, pois apenas pouco mais da metade tem acesso ao abastecimento de água encanada. Além desta peculiaridade na incapacidade do abastecimento, acrescem-se os diversos usos e até abusos, na medida em que há muitas construções civis, irrigação, lava-rápidos e muito desperdício no consumo da água.
Com efeito, para a outra parte significativa desta população, que fica excluída do abastecimento de água – por falta, sobretudo das condições financeiras para pagar pela prestação dos serviços –, há outras iniciativas para o enfrentamento do problema, como exemplo a disponibilidade do acesso à água através do carro-pipa. Este vulnerabiliza ainda mais o acesso à água potável, tendo em vista que a água muitas vezes chega aos reservatórios domésticos à deriva, sem controle sistemático de qualidade no percurso de seu trajeto (do açude aos potes, filtros) ou tratamento adequado para o consumo humano.
9 Dados da capacidade e disponibilidade obtidos pelo Relatório de Análises de Alternativas Hidrológicas
para o Abastecimento de Água no Distrito de Lagoa do Mato, Município de Itatira, Estado do Ceará, COGERH, 2010.
Figura 6 – Abastecimento de carro-pipa em açude
Fonte: Alexander Koch. Acervo Projeto Pingo D‟água, 2005.
Contudo, reconhecem-se esforços estabelecidos entre Secretaria Municipal de Agricultura e Recursos Hídricos de Itatira/CE, Exército Brasileiro, CAGECE – Companhia de Água e Esgoto do Ceará e Laboratório LACEN, na realização de laudo para assegurar os mínimos estabelecidos de qualidade da água para o consumo humano, advinda desta forma de abastecimento.
Mapa 4 – Situação hídrica do distrito de Lagoa do Mato – Itatira/CE
Fonte: Relatório de Análises de Alternativas Hidrológicas para o Abastecimento de Água no Distrito de Lagoa do Mato, Município de Itatira, Estado do Ceará, COGERH, 2010.
O Relatório de Análises de Alternativas Hidrológicas para o Abastecimento de Água no Distrito de Lagoa do Mato, Município de Itatira, Estado do Ceará, realizado pela COGERH – Companhia de Gestão dos Recursos Hídricos, 2010, aponta que nos últimos anos houve um crescimento acentuado da população de Lagoa do Mato, em proporção fora do padrão da região, conforme estimativa do IBGE, que é de um aumento médio de 2,5% ao ano. No entanto, o distrito atualmente apresenta uma população de cerca de 8.000 habitantes, com base em cálculo nas ligações referentes ao sistema de abastecimento administrado pelo SISAR (Sistema de Abastecimento Rural), que informou a quantidade de 1951 ligações, com a justificativa de que a construção de uma Indústria de Beneficiamento de Fosfato e Urânio na região polarizou em Lagoa do Mato um aumento de população, ainda pelo fácil acesso relativo aos outros povoados da região, inclusive à sede do município de Itatira/CE.
Este estudo hidrológico foi imprescindível, na medida em que indicou alternativa de construção de uma adutora no açude João Guerra para resolver o problema, em curto prazo, do abastecimento do distrito de Lagoa do Mato, ainda que em termos quantitativos. A médio e longo prazos, a solução é a utilização da adutora do açude Umari, localizado no município de Madalena/CE, com a alternativa de derivação para Lagoa do Mato, com uma vazão corrigida do projeto original para a realidade populacional atual, a fim de complementar a demanda total e a localidade suprir seus usos múltiplos de água.