• No results found

Dante Alighieri (1265-1321) reproduz o valor ético dos antigos em um belíssimo poema, escrito em língua vulgar (humana retórica), e cuja espetacular narrativa apresenta a alegoria da eterna luta do espírito humano para salvar-se a si mesmo das próprias paixões. O céu e o inferno passam pela Grécia e pela Roma eterna de Cícero e Vergílio, e a salvação se encontra, certamente, nas quatro virtudes cardeais: prudência, justiça, temperança e fortaleza – que são as servas de Beatriz.

No século XIV, provavelmente, Dante tenha sido o primeiro a buscar a harmonia entre a literatura sagrada e a profana. É correto imaginar-se que Dante tenha desenvolvido uma consciência social profunda, inspirado até pela própria fé cristã, que o leva a escrever em latim vulgar, uma das mais significativas obras literárias da humanidade, para ser lido e entendido pelas pessoas comuns. Ou, em um exercício mais ousado de imaginação, o próprio desterro pode ter produzido em Dante uma visão política incomum àquela época, que o surpreende fora da vida comunal da cidade-Estado de Florença, para confrontá-lo com a realidade de cidadão do mundo que pretende fazer-se compreender de alguma forma pela turba.

Inevitavelmente, em qualquer momento da sua vida e da sua obra, identifica-se o humanismo romano de Vergílio e Cícero a inspirar o grande poeta:

Os sábios são amigos dos sábios e também dos desconhecidos (...) Porque nada há de tão amável quanto a virtude, qualquer um que a alcance será amado por todos nós, em qualquer parte da terra em que se encontre.70

Afirma-se que Dante chegou a redigir, em latim clássico, alguns versos do

inferno, mas logo desistiu, decidindo-se pelo seu idioma natural. Teria então

destruído as laudas já compostas em estilo nitidamente vergiliano. Por isso, é duramente criticado, especialmente por Giovanni de Vergílio, professor da

35

Universidade de Bolonha, que classificou como uma ousadia condenável escrever-se um poema na língua do povo.71

O poeta que, em reiteradas horas, verbalizou sua natureza política combativa, quando pressente a possibilidade de retorno à sua Florença, em 1311, envia de Arezzo aos dirigentes da cidade a seguinte mensagem: Ó vós, que

assim transgredis os direitos divinos e humanos, e a que uma cruel ambição vocacionou a todos os crimes, porventura confiais em qualquer possibilidade de defesa, num ridículo vale fechado?72

Dante Aleghieri fez questão de intitular a obra de Comédia – a Comédia de

Dante Aleghieri, Florentino de nascimento, não de costumes - para expressar a

sua oposição ao gênero tragédia mais em voga na literatura de elite. Nessa obra, ao contrário do estilo adotado, normalmente, na tragédia, inicia pela brutalidade do “inferno” para se atingir, em um segundo momento, a placidez do “paraíso. Assim como outros pensadores, George Santayana define a “Divina Comédia” como uma profunda filosofia uma pura e completa filosofia como a de Espinoza,

concebida em algum momento de maravilhosa receptividade ou de afortunado isolamento.73

1.4.2 Petrarca

O poeta Petrarca (Francesco Petrarca, 1304-1374) precede qualquer discussão sobre humanismo em razão de ter sido a primeira grande figura a repensar a cultura de seu tempo e, efetivamente, resgatar o espírito da antiga

71 Cristiano Martins. A Vida Atribulada de Dante Alighieri (Notas introdutórias). In: Dante Alighieri. A Divina Comédia, p. 74. “Os falares característicos de cada agrupamento geo-social, se multiplicavam na Península, cada um apresentando seus modismos peculiares de vocabulário e construção, que os diferenciavam e lhes emprestavam cunho próprio, exibiam, entretanto, muitos pontos em comum, que pelo uso continuado nos círculos culturais mais evoluídos tendiam a se consolidar e se impor. (...) Em sua obra

Vulgari Eloquentia, espécie de tratado sobre a linguagem, a estilística e a técnica do verso, promoveu, em

termos lapidares, verdadeira exaltação dos valores e virtualidades da língua geral do povo, que, já então, no seu uso literário, se estruturava harmoniosamente sobre a diversidade dos dialetos peninsulares...”.

72 Cristiano Martins. passim. 73 Ibid., p. 96.

civilização romana. Cultiva com grande paixão, a literatura latina antiga ao mesmo tempo em que repudia a cultura medieval.74

Petrarca contribuiu para reavivar os estudos clássicos, especialmente o pensamento e a obra de Cícero, seu autor favorito. Exerceu grande influência sobre a escola florentina, especialmente sobre Boccaccio (1313-75), que reconhecia nele originalidade e grandeza.

A trajetória petrarquesca antecipa a orientação mais representativa de todo o século seguinte: o núcleo do humanismo literário, lingüístico, histórico tende a crescer incorporando outras matérias e buscando a simbiose com outros saberes.75

Destaca-se a figura de Petrarca como o iniciador de uma linhagem de homens de letras que transferem certos saberes de uns para os outros e se sentem herdeiros de um mesmo legado. Esta linha iniciada com Petrarca leva a Coluccio, Salutati, a Crisoloras, a Leonardo Bruni, a Alberti e, finalmente, a Valla entre outros que se perdem no anonimato.76

Desde o princípio se soube que não era suficiente cultivar os studia

humanitatis propriamente ditos. Petrarca, segundo Rico, dedicou a primeira

metade de sua vida a inteirar-se da Antigüidade e a elaborar uma obra latina de impecável classicismo.77

Considerado o pai do humanismo, o primeiro homem moderno. Petrarca se opõe aos escolásticos e, em certa medida, a Aristóteles. Ataca o sistema pedagógico que se baseia unicamente na autoridade do professor; despreza as formas eruditas de expressão em benefício de um estilo leve e coloquial de escrita. Adverte na carta De sui ipsius et multorum ignorantia que vai escrever

74 Charles Nauert Jr. Humanism and the Culture of Renaissance in Europe, pp. 21-22. 75 Francisco RICO. El Sueño del humanismo: De Petrarca a Erasmo, p. 61.

76 Ibid., p. 13. 77 Ibid., p. 59.

37

como se estivesse falando em uma noite de inverno junto à lareira em torno de uma conversa familiar.78

Faz sérias críticas aos seus opositores que utilizam linguagem rebuscada e confusa e adverte que expressar-se dessa forma não é um signo de sabedoria. Petrarca é um orador ciceroniano cujo discurso tem sentido inequívoco, em oposição à incapacidade dos filósofos – especialmente os escolásticos - de se fazerem entender pelas pessoas comuns. Identifica-se aí o início de uma dualidade de saberes.

Petrarca divide a realidade em duas categorias distintas: aquela que corresponde às insolúveis questões celestes ou metafísicas; e outra que trata das coisas imediatas da vida civil.79 Assim, consegue o genial Florentino explicar por que os gregos, por não conhecerem a revelação, conseguiram detalhar tão bem a vida civil ouvindo o homem como homem, contudo, reconhece que conseguiram até aproximar-se bem da luz eterna. Mas, se os modernos sabem mais do que os antigos não é porque sejam melhores, senão porque foram tocados pela luz eterna.

A despeito da sua infatigável dedicação ao legado de Cícero há um momento na vida de Petrarca em que ele se acolhe ao “sagrado” amparo de Santo Agostinho. Faz isso exatamente para livrar-se das vaidades, da fama e das honrarias que, de certa forma, encantavam ao grande Cícero.

Justamente na combinação harmônica dos dois é que Petrarca encontra o centro (a virtude), ao enlaçar as considerações teológicas com as civis, isto é, a projeção das verdades reveladas sobre a vida concreta, para assinalar, na cidade dos homens, os ensinamentos do tratado De Civitate Dei.80

78 Francisco Rico. El Sueño del humanismo: De Petrarca a Erasmo, p. 136. 79 Ibid., p. 137.