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As duas tendências, Distensão e Universalismo, se sobrepunham e se uniam para formar o grande periscópio das relações internacionais do Império no período de 1870-1889. Essa hipótese testada, baseada nos eventos ocorridos na política externa daqueles anos, com base na análise do paradigma liberal- conservador, revelou que de fato foram elas os principais eixos de atuação e o
sentido máximo da atuação externa, ainda que caibam algumas ressalvas,
especialmente quando analisados os eventos de forma mais minuciosa.
No subsistema do Prata, onde reside boa parte da face soberana e autônoma do Império, apenas em 1876, com a retirada das tropas de Assunção pode-se afirmar haver uma verdadeira Distensão da região. As relações após esse período tornaram-se cada vez menos centrais para os últimos anos do Império, o que não significou um período livre de sérios contratempos. Apesar da escalada de tensão entre Brasil e a Argentina no pós-guerra, levando muitos a acreditarem na guerra inevitável, essa possibilidade não se concretizou. No Uruguai e no Paraguai a influência brasileira oscilou, especialmente pelo aumento da presença argentina. De qualquer forma, a política da Distensão evitou a guerra e possibilitou uma vigilância distante, o que contrastava com as soluções de força das décadas anteriores.
Com o Pacífico, as interações ocasionais foram substituídas por momentos de interesse contínuo, especialmente se ressaltarmos a atenção dada pelas Falas do Trono, notadamente fonte que só tratava dos assuntos da mais alta urgência e relevância para o Império. Contribuiriam para isso problemáticas residuais da Guerra do Paraguai, acertos de limite, convites para congressos internacionais, e acima de tudo a Guerra do Pacífico. No entanto, é impossível dizer que as relações com aquela parte da América do Sul teriam evoluído para algo além de uma lógica de distanciamento histórico. Diferente da região platina, o Império não tinha intenção ou mesmo possibilidades de projetar seu poder
naquela região, transparecendo uma Distensão histórica e não apenas conjuntural, como no caso do Prata.
Algo muito semelhante com o ocorrido nas tentativas interamericanistas, especialmente as com tendências fundadas no Bolivarianismo. Usando a noção de Distensão como sinônimo de distanciamento, o período pode ser interpretado como sendo a reprodução da tendência histórica do Império de resistência a qualquer uma dessas experiências, ainda que as pressões externas obrigassem o Brasil a abrir algumas frentes de conversa. Mesmo quando por força das circunstâncias foi obrigado a participar de qualquer tribuna internacional, e assim evitar a formação de qualquer coligação antibrasileira, as recomendações aos representantes imperiais eram de manter a neutralidade e minar qualquer medida que contrariasse o interesse histórico do regime e suas elites. Mesmo no caso emblemático e paradoxal do Congresso de Washington, quando o Brasil entra uma Monarquia e sai República, as primeiras instruções ainda durante o regime Imperial eram de resistência a qualquer inovação desagradável aos interesses nacionais. Sendo assim, ainda que estivesse nesse último caso sob o efeito do
Universalismo externo, como foi visto, muito mais reativo do que propositivo, o
Império ainda era incapaz de ultrapassar certas barreiras, especialmente por essas contrariarem as velhas instituições imperiais.
A explosão do multilateralismo após a adoção do sistema bismarckiano na política continental europeia, a pauta ampla de assuntos com as principais potências capitalistas e a mudança nos fluxos de comércio internacional dos produtos brasileiros, especialmente o café, foram fundamentais para reforçar esse sentido último de Universalismo. A abertura de novos mercados auxiliou a consolidar a dominação da elite agroexportadora também pela política externa, se transformando em um dos elementos primordiais de inserção internacional. Um dos caminhos para isso foi a participação em todos as conferências, congressos, seminários científicos e industriais possíveis, como meio de usar do prestígio desses eventos como motor propulsor do aumento das exportações.
A experiência global do período obrigava o Império, o Imperador e todos os formuladores de política externa de expandirem as relações em níveis até então inéditos, denotando claramente a vertente Universalista como sentido da condução dos assuntos externos. Isso vai ficar claro no uso ostensivo da esfera internacional para auxiliar em graves problemas internos, inclusive alguns deles responsáveis diretos pela queda do regime, como a Questão Religiosa e a Questão Servil; e na procura pelo prestígio externo, simbolizado nas viagens de D. Pedro II aos recantos mais civilizados do globo e das inúmeras arbitragens e mediações nos quais o Brasil foi convidado a participar. As duas tendências, portanto, foram fundamentais para dar inteligibilidade ao período e se apoiam com maior ou menor assertividade nos eventos mencionados do período.
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