2.2 Kaldonidene
2.2.4 Øverste dekkeserie
Na perspectiva de analisar a feira de Janduís, procuramos, por meio de uma revisão bibliográfica, identificar como esse fenômeno surgiu no Brasil e como ocorreu a sua expansão, uma vez que se trata de um fenômeno universal e, recorrentemente, descrito. Não há dúvida de que o maior desenvolvimento do comércio na transição entre o modo de produção feudal e produção capitalista na Europa tenha sido um dos elementos principais para o desenvolvimento dos mercados periódicos e das grandes feiras.
A primeira referência do estabelecimento de feira no Brasil data de 1548, de acordo com o professor e antropólogo Luis Mott (1975), que realizou uma pesquisa sobre feiras no Brasil, particularizando a Feira de Brejo Grande em Sergipe. Na sua tese de doutoramento, realizou pesquisas em feiras livres de Portugal, no Arquivo Histórico Ultramarino e Torre do Tombo, além de ter observado dezenas delas na região do Minho buscando a gênese e desenvolvimento das feiras na colônia. No Brasil, pesquisou em arquivos dos estados da Bahia e de Sergipe e na Biblioteca Nacional, cujo objetivo foi o de identificar até que ponto as matrizes organizacionais das feiras brasileiras eram oriundas das feiras portuguesas, especialmente para as feiras localizadas no norte de Minas Gerais até o sul do Maranhão.
De acordo com Mott (1975), há registros que sinalizam a existência de feiras em Portugal desde 1125, e até o século XV, já existiam 95 delas em todo o Reino. A reprodução desse modelo teria sido, portanto, um processo natural na expansão da ação colonizadora na América Portuguesa, uma vez que eles já estavam habituados aos suqs da África do Norte e às feiras dos sertões de Angola. Assim, justifica-se o fato de a reprodução daquele modelo de mercado na colônia ter sido tão eficiente, evidencia o autor. Não há, também, por que estranhar a existência prematura de uma instituição tão sofisticada como a feira, em uma região de povoamento tão inexpressivo e cujos habitantes nativos desconheciam o princípio de mercado. Desse modo, o surgimento das feiras livres no continente sul-americano foi uma instituição importada das metrópoles europeias. (MOTT, 1975).
Mesmo com a determinação da criação das feiras no Brasil, estas não foram instaladas, de imediato, na colônia, diferentemente das colônias do continente africano, e mesmo da Índia
e Ceilão, locais onde as feiras tinham a função de reunir a produção dos nativos (marfim, cera, metais) a fim de exportá-los para a metrópole, haja vista que no Brasil os produtos de maior importância, extraídos da colônia, eram o pau-brasil e o açúcar, os quais saíam diretamente (das matas e dos engenhos) para os portos de embarque, sem a necessidade de reuni-los em praça pública. É tanto que, em 1534, já havia ordens expressas do Rei Dom Manuel I proibindo a comercialização de produtos da colônia por parte dos colonos, pois essa deveria ser uma atividade exclusiva do Capitão Mor: “Todas as pessoas assim de meus reinos e senhorios [...] não poderão tratar, nem comprar, nem vender cousa alguma. [...] e quem ao contrário fizer, hei por bem que perca em dobro toda a mercadoria”.
Consideramos importante relatar que, ao ordenar, posteriormente, a instalação das feiras, essas não objetivavam tão somente o abastecimento dos moradores, também tinham a determinação do rei de reunir a produção dos nativos em um só lugar visando à sua exportação, além de ser a forma de controlar a produção e a cobrança dos impostos na colônia. Assim, os poucos registros sobre a instalação das feiras na colônia dão conta que, somente 40 anos depois do primeiro Regimento enviado ao Brasil, um segundo regimento foi enviado ao governador da Bahia, ordenando que se estabelecessem feiras nas povoações das capitanias para o abastecimento dos colonos (MOTT, 1975, p. 310). Desse modo, os registros sobre as feiras no Brasil referem-se àquele ano de 1548, como o da ordem de instalação da primeira feira, pelo Rei Dom João III, ao 1º Governador-Geral do Brasil:
Ordenareis que nas ditas vilas e povoações (da Bahia) se faça em um dia de cada semana, ou mais, se vos parecerem necessários, feira a que os gentios possam vir vender o que tiverem e quiserem, e comprar o que houverem mister. E não se fazendo as ditas feiras, ordenareis que se façam um dia ou mais cada semana. (MOTT, 1975, p. 309).
Mesmo com a ordem imperial que determinava que fossem instaladas feiras na colônia, não há registros ou mesmo relatos que informem sobre a primeira feira no Brasil naquele período. De acordo com Mott (1975, p. 313), a primeira referência é creditada a Felisbelo Freire, que comenta sobre a existência delas ainda no século XVI, e a Borges de Barros, que aponta o ano de 1641 como o ano do surgimento da primeira feira na colônia. Mesmo assim, segundo o autor, essas informações não foram comprovadas por documentos no decorrer das suas pesquisas. O que Mott aponta é que, em 1677, sob as ordens do Rei Dom Afonso IV, com o Regimento que trazia de Portugal, o Mestre de Campo General do Brasil veio também a ordem imperial para que se criassem feiras no continente e, assim, os gentios pudessem vender e se abastecer. (MOTT, 1975):
Nesta Capitania nunca se fizeram feiras para os gentios venderem o que trazem, ou comprarem o que lhes é necessário, e por isso não tem lugar à disposição deste capítulo, o que seria mais aplicado à Capitania do Pará, aonde há sem comparação muito maior número de índios.
A nova determinação imperial não fazia referência à existência de qualquer feira na Capitania da Bahia, até então, corroborados pelos relatos dos cronistas e viajantes que passaram pela Bahia nos séculos XVI e XVII, que também não faziam referência à existência delas. Essas teriam se consubstanciado somente com o crescimento populacional e econômico da colônia.
Há registros de que a primeira feira que houve na colônia foi na Região Nordeste, no Distrito de Santo Amaro de Ipitanga, no Sítio do Capoame, localidade situada no norte do Recôncavo Baiano, em 1732. (MOTT, 1975). Também foi nessa região, em que o empreendimento alcançou maior êxito no modelo como é mais conhecido; uma pequena feira local, como desdobramento da ocupação do território pelos colonizadores, principalmente da necessidade do abastecimento das grandes propriedades agrícolas que foram surgindo afastadas da costa. Fazia-se necessário suprir os colonos que haviam adentrado o sertão na conquista de novas terras, trazendo objetivos claros: expulsar os índios para fixação dos colonos nas terras, fundar povoações e vilas para garantir a posse do território e produzir riquezas para a coroa portuguesa. Assim, a atividade pecuária foi a que mais se adequou ao clima e ao solo da região semiárida do Nordeste.
Desse modo, a ocupação territorial vai, lentamente, acontecendo e, nesse caminho, também vão surgindo as vilas e povoados, além dos pequenos comércios que, pouco a pouco, vão se estabelecendo na região, cuja economia ia se organizando basicamente sobre dois polos principais: o primeiro, através dos inúmeros engenhos de cana-de-açúcar no litoral; e o segundo, seguindo o caminho do gado, fazendo surgir vilas e povoados na zona do sertão onde a atividade pecuária foi a mais adequada. Dessa atividade, novos caminhos entre o sertão e o litoral foram definindo um desenho na geografia e na economia da colônia de forma mais visível. De acordo com Cascudo (2002), as vilas surgiam em posições estratégicas na região, preferencialmente entre os caminhos em direção ao interior.
Assim, foi no sertão e no agreste nordestino que as feiras prosperaram e deram origem a inúmeras cidades, e ainda hoje se caracterizam como vetores de desenvolvimento e índice da evolução econômica, social e política da maioria das pequenas cidades nordestinas. Na região, merece destaque a Feira de Campina Grande, situada entre a zona do brejo e do sertão,
associada ao surgimento do mais antigo núcleo de população naquela região. (ANDRADE, 1997, p. 56-57).
A feira de Janduís, conforme a sua descrição tem a sua origem associada às motivações geográficas e econômicas, acontece às segundas-feiras, interagindo com outras feiras da Região do Médio Oeste, compondo um circuito regional de feiras: no sábado, a feira de Caraúbas, e no domingo a de Campo Grande e de Messias Targino, cidades de fronteiras geográficas com a cidade de Janduís:
Sua posição, no cruzamento de caminhos, ângulo de convergência e de fazendas de gado e de sítios agrícolas, determinou a povoação, casas alinhadas em rua, capela do padroeiro, amplo largo para a pequenina feira semanal que se foi avolumando, pelo interesse econômico circunjacente. (CASCUDO, 2002, p. 192).
3.2 A FEIRA DAS MEMÓRIAS: UM LUGAR DE REMEMORAÇÃO
Em Janduís, cidade do interior nordestino, a feira “instaurou” a cidade em 1926, além de definir o lugar da cidade. Pelas narrativas, também foi marcada por uma discórdia da qual não se menciona a origem, mas que imprimiu à cidade um apelido que atravessa gerações: São Bento do Bofete. Pelos comentários, era comum, na feira, ocorrerem episódios de brigas. Pelas lembranças dos sujeitos, ilustramos tal proposição, pelas narrativas de Seu Braz: “a feira daqui quando começou a mesma, a primeira feira, (referindo-a a primeira feira antes da sua suspensão) foi numa latada, aí foi uma briga de bufete, uma briga de bufete debaixo duma latada60, aí butaro o nome de São Bento do Bufete”. Desse modo, a feira do passado, referenciada pelas narrativas orais dos moradores mais velhos, revela o seu principal traço identitário, que lhe rendeu “fama” de cidade violenta na região, constituindo-se num elo entre as memórias individuais e coletivas do grupo, particularmente, “esse” texto narrativo. Seu Braz continua sua narrativa:
Aí adepois teve um dia de feira chegou um cabinha de fora, chegou e disse: me diga uma coisa: - como é o nome desse lugar? O caba foi disse assim: - É São Bento do Bufete. E o caba disse: - que hora vai começar o bufete? Aí o caba meteu-lhe o bufete. Apanhou que fez medo... (repetiu de modo engraçado). Que hora começa? Agora mesmo! É! Tenho que lembrar essas coisas, pois é! (Seu Braz, barbeiro, entrevista realizada no dia 22/03/2010).
60
Tratava-se de uma estrutura feita de troncos de carnaúba, com cobertura de palha para abrigar os feirantes e os fregueses.