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Et ønske om forandring

5. Hovedtendenser og de mest aktive brukerne

6.4 Et ønske om forandring

Os diversos estudos realizados no âmbito da língua gestual ajudaram à emergência de uma nova visão sobre a surdez. A visão médica que sempre tinha predominado “concebia a surdez como uma deficiência auditiva” (Afonso, 2007: 51), isto é, como sendo uma patologia e, portanto, um “desvio da norma” (Coelho, 2007). Com o novo estatuto atribuído à língua gestual, essa especificidade passa a ser encarada por alguns atores como uma diferença cultural, surgindo assim o paradigma sócio-antropológico da surdez.

Wieviorka (2002) afirma que existem duas lógicas de afirmação da diferença cultural. A primeira baseia-se na espessura histórica. É o caso de algumas civilizações que foram colonizadas por potências imperialistas. A cultura destes povos já existia antes da conquista pelos invasores. Os seus membros procuraram manter e defender as tradições, resistindo à assimilação. A segunda lógica é da ordem da invenção, ou seja, a diferença cultural é construída através

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dos discursos, de um outro olhar sobre uma mesma realidade. No caso da surdez, podemos afirmar que esta partilha das duas lógicas. Por um lado, existe a memória de um passado (século XVIII e XIX), em que a língua gestual era permitida nas escolas e os surdos floresciam na sua cultura (Sacks, 2002). O Congresso de Milão, realizado em 1880, veio mudar esta situação. Foi proibido o uso da língua gestual na educação e os professores surdos foram banidos das escolas (Delgado-Martins, 1986). É por essa razão que muitos autores (Lane, 1992; Wrigley, 1996; Roots, 1999) comparam a história das comunidades surdas à dos povos colonizados. Por outro lado, as orientações do Congresso de Milão, ao ancorarem-se numa perspetiva médica, tornaram o conceito de deficiência praticamente inquestionável quando aplicado aos surdos. São as diversas investigações no campo da língua gestual, a partir de 1960, que recuperam o debate e levam à reinvenção da surdez, através de um discurso antropológico e cultural (Skliar, 1997; Thoma & Lopes, 2005). Dá-se, então, aquilo a que Wieviorka (2002) chama a inversão do estigma, ou seja, “uma identidade até então escondida, recalcada, mais ou menos envergonhada (…) transforma [-se] em afirmação cultural visível e assumida” (ibidem: 39).

Skliar (1997) considera que esta nova visão se traduz pelos sentimentos de identidade grupal, o autorreconhecimento e identificação como surdo, pelos casamentos endogâmicos e pela utilização comum de uma língua. Segundo este autor, passa a existir um projeto surdo da surdez. A língua gestual “anula a deficiência e permite que os surdos constituam (…) uma comunidade linguística e minoritária diferente e não um desvio da normalidade” (Skliar, 1997: 144).

Dentro desta nova visão, ser surdo passa a ser “uma construção socialmente determinada e os critérios para um indivíduo ser considerado “surdo” passam a ser radicalmente diferentes para o mundo ouvinte ou surdo” (Reagan, 1990: 74). Os ouvintes usam designações como mudo, surdo-mudo, duro de ouvido e deficiente auditivo, enquanto que as comunidades surdas adotam os termos “surdo” e “Surdo”. O termo “surdo” em letra minúscula é usado para descrever um indíviduo em termos do seu grau de surdez. Refere-se a uma pessoa que é incapaz de usar os seus resíduos auditivos com o propósito de compreender a comunicação corrente do dia a dia, através de uma língua oral/ vocal. O mesmo termo em letra maiúscula dá conta de uma identificação do indivíduo com os

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conceitos de identidade e cultura surdas, bem como a adoção da língua gestual como sua primeira língua. Estas designações foram criadas pelo sociolinguista James Woodward (1972) e adotadas mundialmente pelas associações de surdos. Depreende-se destas novas construções, que não é Surdo quem não ouve, mas quem quer ser Surdo, ou seja, quem se considera membro de uma comunidade linguística e cultural diferente (Afonso, 2007). O grau de surdez pouco importa, o que é mais importante para se poder pertencer a uma comunidade surda é o uso da língua gestual (Wrigley, 1996). É esta língua que permite aos surdos afirmar a sua diferença.

Lado a lado, passam a coexistir dois discursos em permanente luta pela hegemonia: o discurso médico e o discurso antropológico e cultural. Cada um deles tenta impor a sua forma de interpretar e representar a surdez. Segundo Laclau e Mouffe (1985), quando uma determinada perspetiva consegue impor-se de forma consensual perante vários grupos, isso significa que alcançou ”hegemonia”, conceito que vão buscar a Gramsci (1971) e que remete para processos de negociação e de conflito entre diferentes atores dentro de determinados contextos sociais. Barret (1991) afirma que este termo remete para processos através dos quais formas subordinadas de consciência são construídas sem o recurso à violência ou à coerção. Uma das formas mais eficazes de exercer esse controlo é através do discurso. Exercerá mais poder quem conseguir impor a sua visão do mundo aos outros, quem conseguir “encerrar” determinados significados, pois,

a linguagem não é apenas um instrumento de comunicação ou até de conhecimento, mas também um instrumento de poder. Não procuramos apenas ser compreendidos, queremos também que acreditem em nós, que nos obedeçam, que nos respeitem e que nos distingam dos outros (Bourdieu, 1977: 648).

No entanto, para Laclau e Mouffe (1985) é quase impossível alcançar a hegemonia, porque todas as fixações de sentido são contingentes. No caso da surdez, é um facto que há surdos que se identificam com uma determinada perspetiva e outros com outra. Como mostrámos num trabalho anterior (Gomes, 2010), há surdos que assumem identidades legitimadoras, enquanto outros reivindicam identidades de projeto. Os primeiros aceitam a perspetiva da

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sociedade dominante, encarando a surdez como um défice que necessita de reabilitação. Os segundos proclamam uma identidade e cultura próprias, reivindicando uma cidadania que tenha em linha de conta a sua especificidade. Os surdos acabam assim por ser seres fronteiriços, divididos entre dois mundos (Maalouf, 2002), e, nesse sentido, sujeitos fragmentados (Laclau & Mouffe, 1985; Hall, 1998).

Sendo o sujeito descentrado de si próprio, tem a possibilidade de se identificar diferentemente, o que nos remete para uma perspetiva pós-cultural da surdez (Ohna, 2004). Os surdos podem escolher diferentes comunidades de pertença: surda, ouvinte ou ambas. Wieviorka (2002) considera que as identidades de hoje são, senão instáveis, pelo menos permanentemente suscetíveis de ser abandonadas pelos que a elas aderiram, de dar lugar a infinitos movimentos de fragmentação e de recomposição. Segundo este autor, a assunção do sujeito enquanto tal implica uma capacidade de distanciação das normas, sem excluir aquelas que começaram por ser escolhidas pelo próprio com a mais plena liberdade. Quanto mais uma identidade se institucionaliza, mais corre o risco de ver aqueles que dela se reclamam contestarem as suas normas.

Wieviorka (2002) afirma que há duas condições suscetíveis de determinar o arranque de um processo de afirmação coletiva. A primeira remete para a existência de uma situação inicial de dominação, exclusão e segregação:

Trata-se de afirmar a existência de uma ligação entre o social e o cultural e de lembrar que a construção de si, na modernidade contemporânea, pode transitar por escolhas identitárias suscetíveis de reporem em causa uma situação social ou, também, de a confortarem carregando-a de um lastro de significações culturais (Wieviorka, 2002: 150).

A segunda condição supõe que o processo de afirmação coletiva deve comportar princípios que permitam aos atores aceder a uma certa autoestima, representar- se de forma positiva invertendo as situações de estigma (ibidem). A emergência de uma identidade coletiva traduz a vontade de sair de uma situação constrangedora, que desqualifica o indivíduo, operando uma rutura que permita a autoafirmação. É por isso importante que a identidade emergente possua marcadores culturais e simbólicos, mais do que económicos, que permitam aos

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atores ter orgulho na sua diferença (ibidem). A língua gestual é o elemento simbólico que permite aos surdos combater o rótulo da deficiência.

É uma situação complexa para os atores, a de tentar conciliar na sua experiência pessoal os valores universais e os valores próprios do seu particularismo (Wieviorka, 2002). A sua consciência molda-se ao confrontar-se com este problema que opõe as duas lógicas do universal e do particular. Alguns escolhem fundir-se no universal, enquanto outros optam pelo seu particularismo, lutando pelos direitos cívicos e por uma cidadania plena e inteira, contra as discriminações (ibidem). Os discursos, que constituem cada uma das identidades são submetidos ao olhar dos outros. Como diz Wieviorka, a inversão do estigma só acontece “se for acompanhada pela capacidade por parte dos atores de se fazerem ouvir e pela capacidade, por parte da sociedade, de os escutar” (2002: 160).

Assim, podemos afirmar que as nossas sociedades não só acolhem e reproduzem diferenças, como também as inventam, cabendo a cada um proceder a opções quanto ao caminho que quer percorrer. O conceito de sujeito remete para uma condição de reflexividade, autonomia e liberdade, sendo por isso que Wieviorka (2002) afirma que as identidades coletivas são mais o produto de escolhas, do que de meras reproduções de heranças culturais. O sujeito opta pelos valores que considera mais relevantes para si. Pode num dado momento, identificar-se com uns e mais tarde com outros. É por essa razão que a fixação de sentidos é sempre temporária (Laclau, 1990).

Wieviorka (2002) afirma que só se constituem diferenças, porque existem fenómenos de exclusão, discriminação e segregação. A proibição da língua gestual nas escolas após o Congresso de Milão (1880) remeteu esta língua para a clandestinidade. Este foi sem dúvida um dos principais fatores para a formação de vários movimentos surdos. Gradualmente, estes grupos foram abandonando o seu papel defensivo e transformando-se em identidades de resistência face à tendência social dominante de valorização da língua oral e da cultura ouvinte (Gomes, 2010). À medida que diversos estudos foram mostrando as potencialidades da língua gestual e reconfigurando o seu estatuto, os surdos começaram a reivindicar o direito de a usar no acesso à informação, à educação, ao trabalho e aos serviços públicos em geral. O social apareceu, assim,

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interligado ao cultural, nas reivindicações destas comunidades. Influenciados por outros movimentos, os surdos rejeitaram o papel de objetos passivos, para se assumirem como sujeitos, isto é, como indivíduos com uma história pessoal, com um conjunto de experiências e vivências dotadas de um significado próprio (Touraine, 1995). Deste modo, transformaram-se em identidades de projeto, em defesa de fontes autónomas de significado (Gomes, 2010).