Para além da alteração das medidas de maneio da exploração poderá recorrer-se a medidas alternativas como o fornecimento de ácidos orgânicos, probióticos, pré-bióticos, enzimas e outros aditivos alimentares. Contudo, qualquer uma destas alternativas terá de garantir a prevenção e o controlo de doenças para que a sua aplicação seja economicamente viável (Dibner, 2005).
4.4.3.2.1. Ácidos Orgânicos
Os ácidos orgânicos são rotineiramente incluídos nas dietas de animais monogástricos na UE como conservantes e acidificantes, com o objetivo de substituição dos antibióticos enquanto APC e prevenção ou controlo de agentes patogénicos, uma vez que estas substâncias têm atividade antimicrobiana e produzem efeitos benéficos para a saúde, bem como para performance produtiva e zootécnica dos animais (Papatsiros, Christodoulopoulos & Filippopoulos, 2012).
Pesquisas recentes sobre os efeitos promotores de crescimento dos ácidos orgânicos em leitões pós-desmame indicam que estes melhoram, de uma maneira geral, a performance dos animais, pese embora a magnitude dos efeitos varie com a quantidade de ácido orgânico usada e outros componentes da dieta. Para além disso, os ácidos orgânicos estimulam a
secreção pancreática, o que aumenta a digestibilidade e absorção de proteína, aminoácidos e minerais na dieta (Doyle, 2001; Papatsiros, 2012).
Apesar da utilização dos ácidos orgânicos aditivados nas dietas ser essencialmente uma alternativa promissora aos antibióticos na fase pós-desmame (Braz, Costa, Berenchtein, Almeida & Miyada, 2011), existem evidências de que a acidificação da dieta pode ser benéfica também na fase de engorda, devido à aparente melhoria da digestibilidade proteica e de aminoácidos e da absorção de minerais nesta fase pela adição de ácidos orgânicos na ração (Suryanarayana, Suresh & Rajasekhar, 2012). Os efeitos benéficos desta utilização encontram-se descritos na tabela 6, dos quais se destaca a melhoria da performance produtiva, a redução da competição microbiana pelos nutrientes, a redução da resposta imune intestinal e a redução da produção de compostos bacterianos prejudiciais (Suryanarayana, 2012).
Tabela 6. Efeitos benéficos dos ácidos orgânicos a nível orgânico quando adicionados à ração como aditivo alimentar (Suryanarayana, 2012)
Efeitos benéficos dos ácidos orgânicos
1) Redução do pH gástrico 6) Promoção do crescimento da flora benéfica
2) Redução da capacidade tampão das dietas 7) Equilíbrio da população bacteriana 3) Aumento da atividade das enzimas
proteolíticas 8) Morte direta das bactérias
4) Estimulação da atividade das enzimas digestivas
9) Alterações no transporte e síntese de nutrientes entre bactérias
5) Aumento da digestibilidade dos nutrientes 10) Despolarização da membrana bacteriana
Os ácidos orgânicos têm assim efeitos antibacterianos, por exemplo, o ácido fórmico e o ácido propiónico têm atividades antimicrobianas amplas podendo ser eficazes contra bactérias (por exemplo coliformes, clostridia e salmonella), fungos e leveduras, enquanto o ácido lático apresenta uma ação mais consistente na redução do pH gástrico e retarda a multiplicação de
E. coli enterotoxinogénica, sendo aquele que se tem revelado mais eficiente na performance
produtiva dos suínos (Papatsiros, 2012; Suryanarayana, 2012). Estes benefícios contribuem não só para melhorar a performance mas também para reduzir a excreção de nitrogénio e fósforo, diminuindo a poluição ambiental (Suryanarayana, 2012).
Um estudo realizado por Braz et al. (2011) em suínos, mostra que nos primeiros 14 dias pós- desmame, dietas com ácido lático promovem maior GMD e IC, justificando esta evidência com o melhor aproveitamento proteico da dieta, com a ação antimicrobiana dos ácidos orgânicos, especialmente contra E. coli, responsável pela redução do crescimento e mortalidade dos animais nesta fase, para além da melhoria da palatibilidade das rações acidificadas que estimula um maior consumo. No entanto, outros estudos indicam que os dois principais problemas que ocorrem quando níveis elevados de ácidos orgânicos são utilizados, são a
diminuição da palatibilidade levando à recusa do alimento e o facto de que uma alimentação ácida se torna corrosiva para as instalações (Doyle, 2001)
A inibição da colonização por microrganismos prejudiciais, como consequência do recurso à adição de ácidos orgânicos, beneficia a mucosa intestinal, favorecendo a estrutura das vilosidades. Nesta fase há o aumento do trânsito intestinal inerente à diarreia pós-desmame, que além de ser agressivo para a mucosa, comprometendo a absorção, e consequentemente o desempenho produtivo do animal, remove quantidades massivas de bactérias colonizadoras, favorecendo a colonização por bactérias patogénicas (Freitas, 2006; Braz, 2011).
4.4.3.2.2. Probióticos
A necessidade de criação de formas cada vez mais engenhosas para restabelecer uma flora suscetível está patente nos dias que correm sendo que esta meta poderá teoricamente ser atingida através da utilização das próprias bactérias via formulações probióticas (Barbosa, 2000). Os probióticos não são mais que culturas vivas microbianas, as quais são aditivadas ao alimento dos animais para promover a saúde e crescimento, alterando o equilíbrio da flora microbiana (ex.: Lactobacillus, Bifidbacteria, Proprionibacteria) (Doyle, 2001; McEwen, 2002). Algumas destas culturas são administradas com o objetivo específico de exclusão competitiva, isto é, são administradas aos animais recém-nascidos com o intuito de estabelecer rapidamente uma flora intestinal que irá prevenir a colonização por bactérias patogénicas (Doyle, 2001).
Após o desmame, existe uma grande queda na população bacteriana produtora de ácido lático e um aumento de bactérias coliformes. A E. coli é a bactéria responsável pela grande maioria de casos de diarreia em leitões recém-desmamados e o seu aumento deve-se aparentemente à diminuição de bactérias produtoras de ácido lático. Daí a importância de fornecer ferramentas que auxiliem o leitão a contrariar estes efeitos, como por exemplo os probióticos que atuam essencialmente por adesão à mucosa intestinal, prevenindo a ligação de agentes patogénicos, produzindo compostos antimicrobianos tais como ácidos orgânicos ou bacteriocinas, competindo com os agentes patogénicos por nutrientes e estimulando a resposta imune intestinal. Adicionalmente estes compostos afetam a permeabilidade do intestino e aumentam a captação de nutrientes (Doyle, 2001).
Contudo, a utilização destes compostos na alimentação animal é limitada e os resultados obtidos têm sido variáveis (McEwen, 2002), não podendo negligenciar a possibilidade destes probióticos conterem eles próprios genes de resistência (Barbosa, 2000).
4.4.3.2.3. Pré-bióticos
Os prebióticos são descritos como substâncias alimentares não digeríveis que estimulam seletivamente o crescimento de espécies favoráveis de bactérias no intestino, beneficiando assim o hospedeiro. Estas substâncias são principalmente derivados oligossacáridos não
digeríveis, sendo que a oligofrutose, os frutooligossacarídeos e a inulina são exemplos que têm sido usados como pré-bióticos. No entanto, efeitos benéficos consistentes sobre o desempenho do crescimento de suínos após administração de pré-bióticos, estão ainda a ser demonstrados (Jacela, 2010).
Os pré-bióticos podem ser utilizados como estratégia para melhorar o equilíbrio entre as bactérias intestinais, diferindo da abordagem com probióticos, pelo facto de nestes as estirpes exógenas serem incluídas no alimento, atingindo, por fim, o trato gastrointestinal do indivíduo (Dominguez, Rodrigues, Lima & Teixeira, 2013). Uma vez que estes compostos não são digeridos e absorvidos pelos suínos, têm a capacidade de fornecer substratos prontamente disponíveis para as bactérias normais promovendo o crescimento (Jacela, 2010). Estes compostos estimulam seletivamente a proliferação e/ou a atividade de grupos benéficos das bactérias que existem na microbiota intestinal. Desta forma, estes compostos podem constituir uma maneira mais prática e eficiente de manipular a microbiota intestinal quando comparado com probióticos. Contudo, se por algum motivo, tal como doença, envelhecimento ou utilização de antibióticos, as espécies benéficas não se encontram presentes no intestino, os pré-bióticos têm uma baixa probabilidade de sucesso (Dominguez, 2013).
4.4.3.2.4. Enzimas
As enzimas são proteínas biologicamente ativas que quebram determinadas ligações químicas com o objetivo de libertar nutrientes para melhorar a sua digestão e absorção. As enzimas utilizadas na indústria alimentar são comummente produzidas por bactérias (ex.:
Bacillus subtilis), fungos (ex.: Aspergillus niger) ou leveduras (ex.: Saccharomyces cerevisiae)
(Thacker, 2013).
Os suínos têm uma variedade de enzimas digestivas que são adicionadas à digestão do alimento. Contudo, os leitões após o desmame podem produzir quantidades inadequadas de certas enzimas e, mesmo enquanto adultos não conseguem digerir alguns extratos vegetais contendo complexos de carbohidratos tais como celulose, xilano e β-glucano. Assim, a adição de enzimas ao alimento poderá ser uma estratégia útil para aumentar a digestibilidade deste tipo de compostos, suplementando a atividade enzimática do próprio animal e capacitando o suíno para utilizar a energia de carbohidratos complexos que normalmente passam sem alterações através do trato gastrointestinal (Doyle, 2001). Assim, as razões mais comuns para a suplementação da alimentação animal com enzimas, incluem a degradação dos componentes alimentares resistentes às enzimas endógenas (ex.: β-glucanase, xilanase, pectinase e galactosidase), a inativação de fatores antinutricionais (ex.: fitase) e a suplementação de enzimas endógenas que poderão estar presentes em pequenas quantidades (ex.: proteases, lipases e amilases) (Thacker, 2013).
Esta suplementação torna-se relevante porque as paredes celulares dos grãos de cereais, leguminosas e farinhas de oleaginosas são compostos de carbohidratos complexos comumente conhecidos como polissacárideos não-amiláceos, entre os quais se incluem,
entre outros, a celulose, hemicelulose, pectinas, β-glucanos e xilanos. Estes reduzem o valor nutricional dos constituintes alimentares através de diversos mecanismos, tais como: (1) não sendo digeríveis pelas enzimas dos mamíferos, o teor de energia e de nutrientes da alimentação, encontra-se diluído; (2) estes compostos apresentam o chamado "efeito gaiola" onde os nutrientes que são normalmente altamente digeríveis, tais como amido, gordura e proteína são aprisionadas num revestimento de polissacárideos não-amiláceos impedindo o acesso das enzimas endógenas a estes substratos; (3) alguns polissacarídeos não-amiláceos podem aumentar a viscosidade intestinal. Também tem sido sugerido que os carbohidratos permitem às populações microbianas a assimilação de uma grande porção dos nutrientes contidos nos alimentos para seu próprio proveito, reduzindo assim a disponibilidade destes nutrientes para o hospedeiro (Thacker, 2013).
Desta forma, percebem-se as vantagens da utilização de enzimas como suplemento alimentar, para além de que aqui não se aplica a problemática dos resíduos, não sendo necessário observar o cumprimento dos intervalos de segurança previamente ao abate dos animais. Acrescenta-se o facto de apenas serem necessárias pequenas quantidades de enzimas na formulação do alimento para obter os efeitos esperados (Thacker, 2013).
4.4.3.2.5. Outros aditivos alimentares
Existem uma série de outros compostos, que adicionados à alimentação poderão ter benefícios na saúde e performance produtiva dos suínos. Minerais como o zinco e o cobre quando adicionados à ração melhoram significativamente o GMD, a eficiência alimentar e o consumo de alimento (tabela 7). O zinco, não só melhora a performance dos animais como também reduz a incidência e severidade da diarreia nos leitões. O óxido de zinco apesar de não ser um antibiótico, tem propriedades antisséticas e anti-inflamatórias fundamentais à fase da recria principalmente após o desmame. Este composto tem mostrado ter efeito na rápida renovação celular fundamental à síntese proteica. Além disso, o óxido de zinco parece ter também um papel importante na estabilização de membranas celulares e modificação de funções membranares. Resumidamente, o impacto benéfico do zinco pode ser devido em parte ao papel de suporte e proteção das células epiteliais intestinais (Pluske, 2003). Contudo este composto tem preocupações ambientais associadas, o que promoveu a restrição de incorporação de zinco a 3000ppm no alimento, e com utilização preferencial nas duas primeiras semanas após o desmame quando o consumo de alimento é baixo e o benefício é maior (Pluske, 2003; Apifarma, 2014).
A vitamina E é outro exemplo de suplementação que embora não tenha efeitos zootécnicos reduz a diarreia pós-desmame (Doyle, 2001).
Tabela 7. Efeitos do óxido de zinco comparativamente aos antibióticos na performance de leitões pós-desmame (dia 0 a 28) (Thacker, 2013)
Controlo Antibiótico (tiamulina + clortetraciclina) Zinco (1500ppm) Zinco (2500ppm) GMD (g/d) 302 353 352 369 Consumo de alimento (g/d) 467 518 530 558 IC 1.55 1.47 1.50 1.52
Legenda: GMD- ganho médio diário; IC – índice de conversão alimentar
Os extratos vegetais são também vistos como uma alternativa uma vez que estes aumentam a digestibilidade e absorção de nutrientes, apresentam atividade antioxidante de modificação da microflora intestinal e algumas plantas têm ainda efeitos antibacterianos e imunomodeladores (Costa, Tse & Miyada, 2007; Oetting, Utiyama, Giani, Ruiz & Miyada, 2006). Para além disso os extratos vegetais aumentam a palatibilidade das rações e consequentemente aumentam o seu consumo (Doyle, 2001). Um estudo realizado com administração combinada de extratos vegetais em quantidades elevadas mostrou promover um desempenho muito próximo ao obtido com os antimicrobianos, demonstrando ser uma alternativa promissora (Costa, 2007).