Considerámos serem estes os mais adequados, uma vez que se solidarizam e se complementam. Estes encontram enquadramento na opção de adoção do método hipotético-dedutivo porque contribuem para o objetivo de explicar um fenómeno. Neste caso concreto, as explicações serão obtidas a partir das respostas dos entrevistados e das observações feitas junto dos mesmos durante o processo de recolha de informações e durante a sua análise, de acordo com os procedimentos alocados para dar soluções ao problema.
Como instrumento de recolha de dados, a entrevista é considerada um meio privilegiado nos estudos descritivos que pretendam seguir uma abordagem qualitativa (Reis, 2010). Os entrevistados não se limitaram a responder, mas também em determinados momentos demostravam sugestões as quais procuramos evidências corroborativas que não contrariassem os nossos objetivos. Para Reis (2010) refere que a entrevista é um instrumento privilegiado. Deste modo, forma-se um triângulo das três técnicas de coleta.
De acordo com Francisco (2010), o investigador pode optar pela entrevista individual quando o objetivo é recolher informação sobre o(s) entrevistado(s), não tendo de seguir uma estrutura rígida, ou pode optar por realizar uma entrevista de grupo quando objetivo é recolher informação de vários participantes que se enquadrem dentro de um determinado perfil sociolinguístico. Ainda segundo a mesma autora, a entrevista pode ser de caráter diretivo quando segue um guião, mais ou menos rígido, no qual é determinada a ordem das questões; pode ser de cariz semi-diretivo quando a ordem e a colocação das questões é livre, devendo o entrevistador conhecer aprofundadamente os temas e, por último, de caráter não diretivo quando se convida o entrevistado a discorrer sobre o determinado tema, sobre o qual o entrevistador intervém pontualmente.
Quanto à sua estrutura, a entrevista pode ser classificada como “estruturada” quando segue uma estrutura previamente estabelecida pelo investigador; “semi-estruturada” quando se pretende compilar dados que são obtidos junto de diferentes entrevistados mas “passíveis de comparar” e “não estruturada” quando as questões vão sendo apresentadas sem uma ordem previamente estabelecida ao longo de uma conversa (Francisco, 2010).
Como podemos constatar, há entrevistas que não exigem que se siga um guião rígido, contudo, para o investigador, é importante que haja um suporte estruturado e lógico para a condução de uma entrevista, potenciado que a recolha de dados vá ao encontro dos objetivos propostos para o trabalho de investigação. Na construção de um guião, ou ferramenta de estruturação, devem ser considerados os seguintes aspetos: o perfil sociolinguístico dos entrevistados, qual a amostra sob investigação, definir inequivocamente o tema e os objetivos
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da entrevista e, por fim, determinar o meio de comunicação (se será oral ou escrito), onde decorrerá e o tempo que ocupará (Francisco, 2010).O presente trabalho de investigação tem por base entrevistas não estruturadas, contudo foi elaborado um guião de conversação, de forma a garantir que se cumpria o critério “tempo” (ver anexo 5). As entrevistas foram registadas em formato áudio e foi procurado um tema de conversação familiar a todos os informantes, sendo as questões abordadas com simplicidade, contribuindo para a descontração dos participantes, o que garantiria, à partida, um uso mais espontâneo da língua portuguesa, num registo informal de contacto direto com colegas e/ou amigos e com referências a programas televisivos e radiofónicos.
O tema previamente selecionado para a conversação foi o das “Exonerações”, assunto partilhado por todos os entrevistados. A escolha do tema justifica-se pelo facto de, à data do recolha dos dados, ser um assunto atual no contexto político-social angolano, reforçado por, em 2017, a palavra “exoneração” ter sido eleita como como a palavra do ano numa iniciativa promovida pela Plural Editores alcançando mais de 40% dos votos dos participantes num inquérito elaborado com o objetivo de captar a criatividade lexical30.
A realização de entrevistas permitiu fazer o levantamento das caraterísticas fónicas para aferição do domínio distintivo. Não descurámos a procura de informações a respeito do léxico regional, no plano da fala, permitindo uma análise que atendesse a fatores etnolinguísticos.
Como foi referido anteriormente, a observação constituiu um importante instrumento de investigação, tendo sido igualmente essencial para a formulação do problema. A técnica da observação e a entrevista não estruturada foram conjugadas para a obtenção dos dados que permitiram formular o corpus em análise.
Neste caso em concreto, foi utilizada a observação simples. Gil (2007) aponta que, embora a observação simples possa ser caraterizada como espontânea, informal e não planificada, coloca-se num plano científico, pois vai além da simples constatação dos factos. A opção por esta técnica corresponde ao ensejo de demostrar a intenção do presente estudo, uma vez que todos os dados foram coletados em Portugal e em causa esteve a carência de meios financeiros que nos permitissem deslocar a Angola para cumprir a tarefa de coletar mais dados sobre as variações linguísticas regionais.
Por outro lado, foi a partir das observações que se fizeram as várias anotações dos registos orais, o que chamou a nossa atenção para os diversos fenómenos linguísticos que constam no corpus. Amália Mendes (2016) refere que a anotação de fenómenos linguísticos sobre o corpus permite uma rápida identificação e extração de contextos de uma categoria ou estruturas específicas31. Por sua vez, a anotação trata-se de uma técnica muito usual na
30 Este inquérito encontra-se disponível na página www.palavradoano.co.ao .
31 Corpus em linguística conta com vários modelos baseados em estudos de ocorrências da língua. Podem
ser encontrados textos transcritos de registos orais. Foi o que nos ajudou a fundamentar determinadas análises de variações linguísticas regionais e também permitiu ver que determinadas análises linguísticas possibilitam determinar a frequências de um fenómeno na língua para, posteriormente, passar para uma análise (Amália Mendes, 2016, p. 235-236).
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construção de um corpus. Esta técnica foi levada a cabo ao longo das observações de forma automática e manual, e registaram-se sobretudo os erros e as categorias fonológicas que mais interessavam, garantindo que estes dados não se perdiam.A pertinência do tema de investigação levou a que se fizesse o tratamento de toda a informação com o rigor necessário, exigido na recolha de dados e posterior manusear destes mesmos, visando comprovar ou verificar as hipóteses.