Utilizaremos o modelo de Ciclo Vital da Família (CERVENY; BERTHOUD, 1997, [2002]2007) para compreender as etapas vivenciadas pelo indivíduo em seu núcleo familiar. Daremos ênfase àquelas etapas que possam ser consideradas críticas devido a crises evolutivas, que podem aumentar a vulnerabilidade da relação conjugal. Como visto nas pesquisas anteriores sobre infidelidade, a presença de insatisfação, pouco investimento e baixo comprometimento, além dos estilos de apego de cada cônjuge, pode ser preditora da ocorrência de infidelidade. Nossa ótica será ampliada pelas questões observadas na clínica com casais, nas diferentes etapas do Ciclo Vital.
● Fase de aquisição
Inicia-se com a união do casal, a chegada dos filhos e a vida com filhos pequenos. Característica da conjugalidade – criação do vínculo amoroso.
A construção da conjugalidade exige compromisso e investimento, mas nesse momento estão presentes os sentimentos de ambivalência em relação a depender ou independer do vínculo amoroso e do parceiro. A quantidade de alternativas, fora da relação, pode ser mais atraente do que o investimento requerido pela união.
Esta etapa requer a negociação das heranças trazidas das famílias de origem por cada membro. Como dito acima, as repetições intergeracionais podem muitas vezes não ser tão explícitas, tornando as vivências particulares e conjugais em espaço de conflitos. Os estilos de vida diferentes necessitam ser negociados, assim como as metas e projetos conjuntos. Apesar de ser um momento de muitos impasses, ainda assim espera-se que o
outro se adapte ou tenta-se mudar as questões que são mais visíveis e que mais incomodam.
A cumplicidade e a intimidade emocional esperadas nesta fase podem representar dificuldades para aqueles que têm o estilo de apego evitativo, pois possuem baixo nível de intimidade e apresentam a tendência de fugir dos relacionamentos, como dito acima.
No momento da parentalidade, que se inaugura com a chegada do filho, o casal necessita assumir novos papéis, retorna os modelos vivenciados com os próprios pais e incorpora os significados do que é ser mãe e pai. Muitas vezes a chegada do filho interfere na díade conjugal, e podem surgir ciúmes e sentimentos de abandono por um dos cônjuges, o que pode ocasionar um afastamento do casal.
Buss & Shackelford (1997) estudaram a susceptibilidade para a infidelidade no primeiro ano de casamento; dos 107 casais avaliados, somente 4% possuíam filhos. Os autores compararam aspectos de personalidade e características do relacionamento como preditores da infidelidade e perceberam como bons indicadores para a ocorrência da infidelidade, em ambos os sexos: as características de personalidade narcisista, a impulsividade e a capacidade em adiar a satisfação, assim como o contexto do relacionamento onde aparecem conflitos, a insatisfação conjugal com o sexo marital e a falta de carinho e amor no casamento.
● Fase Adolescente
Ocorrem dois fenômenos simultâneos: os filhos passam da infância para a adolescência e os pais passam de adultos jovens a adultos maduros.
Características da conjugalidade – o casal tem que reajustar as lentes frente à adolescência dos filhos e às suas próprias demandas.
Momento de intensa mudança exigida pela adolescência dos filhos, necessidade de coesão dos pais que também se encontram em processo de mudança, adultescência dos pais que desejam permanecer sempre jovens. Competição com a jovialidade dos filhos. Necessidade de se sentir atraente; não há a aceitação das perdas decorrentes da maturidade física.
Os conflitos tornam-se recorrentes, as crises individuais esbarram nas dificuldades dos pais ao lidarem com os limites e novos posicionamentos dos filhos, os cônjuges se afastam.
A fase adolescente promove uma reviravolta nas certezas do casal, as expectativas de “mudar” o outro se diluem, as divergências podem se tornar irreversíveis provocando a separação.
Anton (2002, p.100) nos fornece um exemplo de quando se entrelaçam as vivências do antigo ao novo na adolescência:
Um homem ‘madurão’ instiga seu filho adolescente a fazer com ele ‘programas sexuais’ pela internet, mas castiga violentamente a filha mais velha quando a surpreende ‘navegando’ por sites de erotismo e pornografia.
O início da sexualidade dos filhos esbarra nas questões que não estão muito bem resolvidas entre os cônjuges; alternam-se posicionamentos de repressão e de liberalidade sexual. Emergem as insatisfações que muitas vezes ficam encobertas pelas crises do adolescente na família.
● Fase Madura
Corresponde à fase mais longa do ciclo vital, compreendendo a saída dos filhos de casa; agregam-se noras, genros e netos. Ocorre a perda de entes queridos.
Características da conjugalidade – transformação da dinâmica conjugal, busca de novos significados.
Os cônjuges novamente se veem como casal, ocorre a reflexão e a avaliação do casamento. Podem romper ou renovar o laço conjugal, com a transformação do ideal romântico em uma relação baseada em cumplicidade, companheirismo, aceitação e respeito mútuo.
As insatisfações da fase anterior necessitam ser renegociadas para que novas formas de interação conjugal estejam alinhadas e possam trazer gratificação afetiva e sexual ao casal.
Ocorrem os desafios da longevidade ligados à saúde, à sexualidade, à aposentadoria, à perda dos pais.
Como esta fase exige uma demanda de muita atenção e cuidado com os pais idosos, o cônjuge pode ressentir-se do afastamento do parceiro e se isolar. Novamente apresenta- se como mais comum o afastamento do homem já que a mulher assume o papel de cuidadora, socialmente esperado. É uma fase em que ambos necessitam apoiar-se, pois o cuidador sente-se desgastado e sem condições de atender às necessidades do parceiro, que se sente abandonado.
● Fase Última
Retrospectiva de tudo o que foi vivido em família.
Características da conjugalidade – avaliação do que foi vivido pelo casal.
Enfrentamento de dificuldades financeiras, doenças, solidão. A parentalidade ocupa destaque no cuidado com os netos. O papel de avós contribui para a satisfação pessoal e familiar, e muitas vezes este papel continua sendo o de provedor financeiro da família.
O relacionamento conjugal passa pelos descompassos da sexualidade, que deve ser reinventada saindo da primeira linguagem sexual (o modelo genital) para a segunda linguagem sexual, baseada no erótico, no prazer e no afeto.
Ocorre a perda do cônjuge.
Para Campbell32 (apud WELSTEAD, 2007), o Ciclo de Vida do Sistema Conjugal pode ser descrito por estágios:
● Estágio 1 – Romance:
O casal está imbuído em idealizações, pauta-se pelo que “deve ser” e não pelo que o outro é realmente. Há a ilusão de unidade e negam-se as diferenças.
Quando a realidade se impõe e surgem as diferenças de interesses, o casal pode migrar para a fase seguinte pela negociação das diferenças ou encerrar o relacionamento por não superar a visão idealizada.
● Estágio 2 – As lutas de poder:
Ocorre o reconhecimento de que “você não é quem eu pensei que fosse”. A ilusão de unidade é substituída pelo desencanto da desunião.
A luta pelo poder pode transformar-se em uma tentativa de moldar o outro; o obstáculo a ser superado é a ilusão do poder. A luta chega ao fim quando deixamos de colocar no outro nossas expectativas e desejos e passamos a viver a vida a dois pautada na realidade.
● Estágio 3 – Estabilidade:
Momento de assumir suas próprias falhas e permitir ao outro ter fraquezas e cometer erros. O outro não é mais o centro da vida do parceiro, havendo espaço para a vivência das
32
- Material adaptado por Welstead – pelo Counselling Services da University de Guelf (2007), do livro The Couple’s Journey: Intimacy as a Path to Wholeness de Susan M. Campbell, 1987. Disponível em: <http://www.suzannewelstead.com/resources/CouplesJourney.pdf>. Acesso em: 19 dez. 2013.
individualidades. Nesta fase, o obstáculo é superar a ilusão de paz, apego e estabilidade em busca de novas mudanças, sabendo que a vida envolve instabilidade e riscos.
● Estágio 4 – Compromisso:
A aceitação de que o outro possui facetas que são amadas e outras nem tanto possibilita gerenciar opostos e discordar sem entrar em lutas pelo poder, permitindo liberdade de escolha e autonomia para estar com o outro pelo compromisso assumido e escolhido.
● Estágio 5 – Cocriação:
O casal integra o aprendido nas fases anteriores e participa ativamente do mundo externo, geralmente em projetos comuns. O obstáculo é direcionar-se para o externo, esquecendo o investimento interno.
Os estágios propostos por Campbell (apud WELSTEAD, 2007) são relativamente previsíveis, mas não parecem coincidir com as etapas do ciclo vital familiar (CERVENY; BERTHOUD, [2002]2007), pois com a chegada dos filhos (assim como a sua saída), o papel das famílias de origem e o cuidado com as gerações anteriores implicaria em mudanças sérias no sistema conjugal, como visto acima.
No entanto, é inegável que esses estágios são percebidos no envolvimento amoroso dos indivíduos. Cerveny & Berthoud ([2002]2007) preconizam que a cada recasamento reinicia-se o processo do Ciclo Vital, muitas vezes com vários subsistemas dentro das novas configurações familiares. Por exemplo, um novo casal (fase de aquisição), em que a esposa tem um filho adolescente (do casamento anterior) e o marido é pai de jovens adultos (de seu casamento anterior) – ciclos que se inter-relacionam em uma mesma família.
Novas pesquisas integrando estas visões seriam interessantes para o trabalho de famílias e casais.
3 AS TECNOLOGIAS DE INFORMAÇÃO (TI)
As novas tecnologias de informação provocaram profundas mudanças no comportamento dos indivíduos. A transmissão de sons e imagens instantâneas esfacelou as noções de tempo e espaço anteriormente concebidas e nos transportou para uma sociedade dotada de novos sentidos e significados.
Para o sociólogo Castells (2013), a principal fonte de produção social de significados é o processo de informação socializada. A transformação contínua da TI redimensiona o papel da comunicação interpessoal pela ampliação dos domínios da vida social, em uma rede global e local, genérica e personalizada.
O autor denomina autocomunicação o uso da internet e redes sem fio como plataformas da comunicação digital, ressaltando que esta foi a grande mudança significativa no domínio das comunicações. Castells considera como comunicação o processo de compartilhar significados e define autocomunicação como aquilo – mensagens, imagens ou ícones – que o remetente decide compartilhar, de forma autônoma, alcançando uma multiplicidade de receptores e conectando-se a um número infindável de redes que os transmitem pelo mundo.
Nessa perspectiva, ao remetente da mensagem pouco resta de controle ou autoria após o seu envio, porém cabe-lhe extenso poder já que influencia seus receptores.
Para Castells, este seria o papel das redes de comunicação. Elas atuariam como fontes decisivas na construção do poder. Nesse contexto, compreende-se então a relação que empresas, instituições e governos passam a ter sobre o controle da informação.
No que tange ao âmbito da vida cotidiana, as repercussões dessas novas dimensões adquiridas pela TI perpassam as relações interpessoais.
A presença da telefonia celular instaura, de acordo com Nicolaci-da-Costa (2009), a fluidificação do espaço físico entre as pessoas, com a presença de espaços virtuais privados. Assim sendo, os espaços contemporâneos se tornam muitos e compreendem: “[...] o espaço físico pelo qual circulamos, os espaços gerados pela internet que frequentamos e os espaços gerados pela telefonia celular aos quais nos conectamos” (p. 460).