Quando idealizamos este trabalho imaginávamos que, na coleta de dados, poderíamos obter informações que nos permitissem analisar elementos relacionados à história de vida dos participantes de um site de infidelidade. Nosso questionário inicial70 propunha questões que nos permitiriam pensar a infidelidade como parte de um processo intergeracional, familiar, conjugal e pessoal.
Mesmo com a impossibilidade de contatar os usuários do site, ainda assim compreendemos que o desejo pela infidelidade principia muito antes da inscrição em um site de infidelidade. A simples inscrição pode provocar sentimentos dolorosos no cônjuge, pois aspira-se buscar outro, desejar outro que não o parceiro; abre-se uma disposição para eventualmente substituir o outro na relação.
A infidelidade virtual é ampliada pela facilidade do espaço virtual, onde os riscos da interação e da rejeição pelo outro são amenizados pelo anonimato garantido. Nas relações virtuais os limites definidos são decorrentes do que consideramos desejado e idealizado na relação com o outro; portanto, a demora na resposta, a palavra dúbia ou a não demonstração do interesse esperado podem simplesmente antecipar o desfecho de uma história. Como as possibilidades existentes são muitas, o desfecho de uma história passa a não ser significativo e amplia a sensação de poder – posso entrar e sair de relações sem envolvimento e sem sofrimento –, uma forma de apego que parece ser o retrato da “liquidez” das relações que vivemos.
Como pudemos notar na história da infidelidade no Brasil, a distinção entre as classes: brancos, negros e índios e a falta de mulheres brancas; o papel da igreja em definir famílias legítimas e não famílias, com a importância do batismo para legalizar os herdeiros; e a necessidade do Estado em povoar as terras; são aspectos que poderiam estar indiretamente associados a motivadores da infidelidade.
Historicamente, poderíamos associar a infidelidade à Revolução Sexual e à ruptura dos modelos patriarcais, um caminho para a liberalização necessária para o amor livre, a amizade colorida ou o atual poliamor. Estes poderiam se tornar modelos normativos conjugais, no lugar da monogamia declarada como responsável pelas InfidelidadeS.
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Percebemos a dificuldade em definir o termo infidelidade frente à multiplicidade de contratos existentes nas conjugalidades e por questões que decorrem de elementos relacionados à família de origem, intergeracionalidade e modelos aprendidos. De maior relevância é o significado que cada indivíduo atribui à infidelidade em cada relação de intimidade que estabelece no decorrer de sua história. Preferimos o termo InfidelidadeS frente à gama de possibilidades alçadas por cada relação e pelos indivíduos.
Compreendemos que a não escolha das mulheres, no perfil inicial, pode denunciar a dupla moral em que estamos inseridos: socialmente o desejo da mulher ainda é visto como proibido, e ao unirmos a não escolha (presente nos gráficos de atração e intimidade) à expressiva exposição de fotos, podemos relacionar o não desejar com a expectativa em ser desejada: apresento os melhores atributos no intuito que o outro me deseje. O que se confirma no DSC das mulheres são narrativas que correspondem ao antigo discurso da década de 60, antes da Revolução Sexual.
Os usuários dos sites podem ser compreendidos em duas grandes esferas: aqueles que buscam a infidelidade para satisfação pessoal, onde o outro não é importante; e aqueles que procuram por uma necessidade relacional, em que a busca é por alguém específico que traga a satisfação plena. Embora distintas, ambas estão inseridas, mescladas, envolvidas e denominadas como sujeitos em busca da infidelidade.
Perguntas que expressam alguns sentidos da fidelidade seriam: - Fiel a quem? A si mesmo, ao outro, à família de origem?
- Fiel a quê? Ao pacto implícito ou explícito? À manutenção familiar? Ao amor prometido? À repetição familiar?
Os integrantes da primeira esfera consideram que ser fiel a si mesmo é ser fiel ao próprio desejo, pretendendo somente a satisfação da própria necessidade, independente do outro. Os que pertencem à segunda esfera buscam pela necessidade relacional e esperam características idealizadas do parceiro, portando desejos mais complexos.
Ao nos deparamos com a concepção de “amor líquido” em um “mundo líquido moderno” é que passamos a nos apropriar das facetas permeáveis da conjugalidade e a compreender a multiplicidade de contratos entre os parceiros.
A fragilidade dos laços humanos alinhavada com a ambivalência presente nos indivíduos, modelados por uma atenção pulsante que a cada instante investe em um novo prisma, promovem o cenário adequado para que o privado e o público se tornem uno.
Ao individual, pouco resta que lhe seja próprio e autêntico. Nascido com legados familiares intergeracionais, embalado nas redes do apego que colaboram no estilo de apego envergado, desloca-se para a vida amorosa onde ainda poderá ser reeditado.
Dentre todos os matizes escolhidos para a construção de nosso “eu amoroso”, a sustentação de nossa ambivalência nos torna vulneráveis pela existência destes dois sentimentos antagônicos: a necessidade de segurança em um relacionamento e a excitação de uma nova conquista.
Ancorados no que acreditávamos ser uma antiga visão de amor romântico, deparamo-nos com sua reedição: a busca pelo relacionamento pleno, satisfatório e idealizado, constatado no desejo dos usuários do site que, para ser perfeito, deveria estar enlaçado somente à excitação da paixão.
Poderíamos nos pautar pelas pesquisas que mostram a prevalência de infidelidade quando somos filhos de pais infiéis (de avós, nem se fala); e quando possuímos estilos de apego inseguro evitativo ou não nos comprometemos com o outro na relação e deixamos de investir na satisfação mútua. Também podemos acreditar que os impasses inerentes a cada fase do ciclo vital nos exponham e impulsionem rumo à infidelidade.
Levando em conta que todas essas possibilidades são reais, acreditamos que as lentes utilizadas nesta pesquisa nos permitam perceber ainda mais as inúmeras vulnerabilidades que são alimentadas pela ambivalência. São muitas as vulnerabilidades que atingem pessoas e relacionamentos, e outras tantas as ambivalências que sustentam vulnerabilidades.
A infidelidade é uma ambivalência em si: ao mesmo tempo em que magoa e destrói a autoestima e confiança do parceiro, proporciona um inegável prazer vivido na relação extraconjugal.
Um modelo de ambivalência que se instala na relação ocorre quando a consideramos provisória. Não há investimento no provisório. Essa forma nos parece muito coloquial atualmente: não existe investimento sem que se tenha “certeza” de que o outro é,
e será, a pessoa certa. Não havendo essa certeza, teremos uma relação provisória. A visão idílica promove o distanciamento da realidade; a garantia esperada e desejada não acontece... Quedaremos, assim, perpétuos à espera de garantias nas relações amorosas e eternos na ambivalência.
É na ambivalência que percebemos o sucesso dos sites de infidelidade. Enfatizando a manutenção da relação assentam-se no hiato entre a segurança do casamento e a possibilidade de novas e intensas emoções. Asseguram o contato sem compromisso, garantem a discrição e o sigilo71, expõem depoimentos de sucesso e possuem facilidade de acesso, além de fomentar o fascínio de infinitas possibilidades de prazer.
Proporcionam excitação, promovendo e enaltecendo a manutenção das relações formais e fornecendo um escape para a insatisfação, que muitas vezes baseia-se na excitação extra. Prevalece a dupla moral, o que nos lembra a velha pornochanchada pelo papel que desempenham: excitam pela fantasia, tendo sido repaginados para a linguagem virtual. A excitação promovida pela transgressão assegura a manutenção da norma – encontrar a plena satisfação no outro.
Ao usuário permite-se a singularidade, a criação e recriação de perfis, um exercício de conhecimento sobre si mesmo que, após várias tentativas e diferentes narrativas, proclama que poderá se tornar o que o outro deseja; basta que lhe sejam fornecidos maiores detalhes de como proceder (no perfil) para isso. Encarna-se o desejo do outro.
As características escolhidas favorecem o investimento da sedução, portanto escreve-se somente o que se deseja que o outro saiba a seu respeito, enaltecem-se as qualidades, ocultam-se os defeitos e idealiza-se o ser buscado.
A imagem construída dialoga com o que se percebe como necessidade do parceiro; atende aos seus desejos e portanto traz a satisfação almejada; a satisfação que faltava, o desejo por uma ligação emocional e sexual plena. A isto agregamos intensivas formas de valorizar e enaltecer o parceiro fazendo com que se sinta desejado – uma “piscadela”, uma “flor” e outros variantes virtuais fornecidos por cada site.
Todos queremos ser qualificados por nós, e todos queremos ser desejados. A sexualidade apresenta-se como uma forma de cuidar, de investir na proximidade e na
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intimidade. Demonstrar desejo pelo parceiro expressa o valor que este tem e o apreço que ele desperta.
A intimidade construída sobre a base da idealização, mediada pelos perfis, é suficiente para desfocar a realidade: o que passa a valer é a imagem que o outro tem a meu respeito, e a imagem que recebo do outro deverá se encaixar no desejo idealizado.
A imagem criada não necessita de privacidade, ela se transforma a cada interação, é parte daquela relação. Anonimato, confidencialidade, autonomia e privacidade são preocupações para os pesquisadores.
Ao finalizar este trabalho percebemos que o papel representado pelos sites de infidelidade “colabora” na manutenção dos antigos códigos conjugais quando investe romanticamente na manutenção da relação estável, proporcionando emoções prazerosas e excitantes instantâneas.
Afinal, o que buscam os usuários dos sites de infidelidade?
Buscam: atençãodiscriçãoafetosigilosexocompanhiaamizadeamorcompromissolealdadecumplicidadee moçãoaventuraprazercuidadocoesãoproximidaderespeitocarátercompanheirismocumplicidad eéticasexovirtualexcitaçãorelacionamentoduradouroboahigienepessoalelegânciaestilosenso dehumorromantismocriatividadeimaginaçãoumninhodeamorsecretoprofissionalbemvestidoqu emnãousadrogassaúderotinanãorotinabomouvintesabesecomunicarpessoacommuitotesãose xooralbeijonabocacarinhoseabraçoscompartilharfantasiasbanheiracomespumaparadoisnãop ossessivoconfiançameninolevadopessoasimplesgatoagressivopessoatranquiladetratofácilca belocurtopiercingcabelocompridoaltobaixomusculosogordinhobaixinhojovemmaisvelhotatuag emcasuallongaspreliminaressafadosdecididosbemhumoradosinteligente$$educaçãocarinhog entilezasexysériospessoaboadebemcomavidanormalcavalheiroaprecievinhotratebemasmulh eressorrisobonitobomperfumenãofumarcomprometidosexoanalnoitecasualgozopaixãoentusi asmoconversaspicantesexplorarcoisasnovasfantasiaspreliminaresbrincarpalavrascalientesO CARAtamanhopaparicosamantefixodesejoacabarcomasolidãoandardebicicletainteressesma durosensualidadeatraçãoatitudepularacercabelezaloiraruivamorenanegramagrahorasdesexo tesãofotoswebcamswingfetichesconteúdosemcobrançascuriosobompapohumorsarcásticoes pecialamantehonestidadereciprocidadefazeramortransarfelicidadecuecaboxsabercozinharafr odescendenteorientalescravosexualproteçãocasorápidocurtirtomarbanhojuntospaixãoinsaciá
velserdesejadaserfilmadasexoemlugarespúblicosproibidorevivermomentosroupassensuaislin geriefantasiasdedominaçãoagressividadesubmissãobondagefetichespalmadasolhosvendado sfazerdecontasexotântricocócegaseróticasclasseviajadasterluzprópriadesinibiçãosemvulgari dadegostardeconversartarada(o)desestressarrelaxarcinturafinahigiênicaamanteinsaciáveldar ascartasváriostiposdesexosexosemlimitesfugirdarotinaliberardesejosreprimidossempromess asmentirassincerasdescontrairemoçõesaflordapeleaffairconquistarcaríciasexperiênciaúnicar egrasclarassinceridadeoquefaltaoquecompletagenerosidadesensibilidadeequilíbriobrinquedo seróticosmassagementendaasmulheresameasmulheresabertoàcoisasnovasménageàtroisbo musodasmãosensinaraprendernãoseremmagoadosfalepoucosemfilhosdisponibilidadedehorá riosencontroscheirosa(o)executivoempresárioZonaSullongahistóriaentregaalguémqueconsig aesaibafazeramorapimentarminhavidaparperfeitodeixarrolar“finalmente”transarnafrentedoma ridonãoseapaixonarrealidadetrocasvivênciascompartilhadasenvolvimentosertratadacomorain hajantaresromânticosgestosdeamorseramadaamorverdadeirofotossemneurasaudaciosadeci didadiscretíssimaobjetividadeclarezanãosecompliquequeconquistecomoolharsersurpreendid oaventuraexcitanteestejabemfisicamenteirdevagarexibicionismosexoselvagemsexovorazsem pudorsempreconceitoencontrossecretosliteraturaeróticastrippokerdegustarvinhosfazeroestilo paizãodançarnadarsemroupaassistirjogosviagenscomprarlingeriepiqueniqueteatroóperacine macalcinhavestidosemcalcinhafalaroquequisernãoserjulgadosemmedoobservarcafunéalgué mquemeintegrequemecomplementecolomimoacabarcomasolidãokaraokêiràacademiaeginast icajantarfinoaluzdevelasnovidadesafirmaçãoplenitudeautodescobertarecuperarpartesperdida svitalidadeindividuaçãoneutralizaradecepçãopodertudo.
Buscam um “amontoado” de idealizações, repleto de significados e sentidos.
Buscam uma forma de apaziguar a ambivalência entre amor e desejo, entre familiaridade e novidade, entre segurança e liberdade.
Buscam a satisfação prometida pelo amor romântico, onde o outro completa todas as necessidades e onde o prazer do outro está investido totalmente no parceiro. Não existem divergências, dissabores ou diferenças, não há espaço para a dialética ou para a dicotomia, não há discordância, discórdias, discussões. Não existem divisas entre os parceiros, não há distinção entre os sentidos, não há dissonância entre os desejos, não existe discriminação que os distingue, não há diferenciação e portanto não existe díade72, somente o uno73 com satisfação eterna. Esta é a busca.
72 Di
– do latim, prefixo que significa duplicidade ou divisão por dois (MICHAELIS Dicionário da Língua Portuguesa. 1998. Melhoramentos, 1998).
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Acreditamos ter alcançado nosso objetivo em compreender o que buscam os usuários de um site de infidelidade: acima de tudo, buscam ser vistos como especiais e únicos pelo parceiro, e encontrar a parte que lhes falta – a conexão única, desejarem e serem desejados para sempre.
Até iniciarem uma nova relação amorosa e se depararem com as mesmas antigas/ novas ambivalências...