5 Empirical Findings
5.6 Responses to individual semi-‐structured interviews
5.6.2 Çabrati Head of the Waste Management Department (Abdullah Babalija)
O intuito foi observarmos a dinâmica das aulas de Física e como a linguagem LaTeX poderia contribuir com o processo de inclusão dos alunos com deficiência visual em sala de aula. As observações abrangeram: A postura da professora ao lidar com alunos com e sem deficiência visual; relação entre os alunos com deficiência visual e os demais alunos da turma e; Dinâmica das atividades avaliativas em sala de aula.
O planejamento da professora para ambas as turmas (do Gustavo e da Luana) foi baseado no livro didático adotado pela escola, levando-se em consideração uma carga de três aulas semanais, que foram distribuídas em dias diferentes, com 50 min cada, em ambas as turmas. Dessas o doutorando observou em média uma aula por semana em cada uma das turmas. Devido a sua inexperiência demonstrada pela professora em lidar com uma turma que contemplasse alunos com deficiência visual, alguns saberes docentes necessários à inclusão desses alunos, de acordo com Camargo (2012), se mostraram ausentes, como o “saber construir de forma sobreposta registros táteis e visuais de comportamento/ fenômenos físicos de significados vinculados às representações visuais”, de acordo com Camargo (2012, p. 259), porém pudemos perceber outros em termos de saberes latentes, por sua vontade em contribuir, mas não saber muitas vezes como. Em suas exposições procurava sempre envolver tanto o Gustavo quanto a Luana, porém obtinha mais retorno da aluna Luana, pelo fato de o Gustavo ser mais introspectivo. Ao explicar conceitos ou resolver algum problema na lousa, primeiramente fazia a leitura do enunciado e depois começava a resolver, falando enquanto escrevia. Neste caso podemos destacar dois saberes, “saber trabalhar com linguagem matemática” e “saber explorar as potencialidades comunicacionais das linguagens constituídas de estruturas empíricas de acesso visualmente independente”, no caso a estrutura “fundamental auditiva e auditiva e visual independentes” (CAMARGO, 2012, p. 260 e 261).
Ao observar o comportamento dos alunos em sala de aula, o doutorando pode perceber que o aluno Gustavo se sentava geralmente no canto da sala, em uma carteira que ficava em frente a mesa da professora e ali permanecia até o término do turno, não se levantando nem mesmo no período do intervalo, para ir ao banheiro ou beber água, por exemplo. Só participava das aulas quando a professora fazia alguma pergunta diretamente para ele e mesmo assim suas respostas na maioria das vezes eram monossilábicas, “sim”, “não”, “talvez” ou expressões do tipo “mais ou menos”, nem ao menos respondia a chamada. Isso dificultava inclusive a aproximação dos demais alunos, não por observarmos qualquer tipo de preconceito, mas pelo fato de o aluno Gustavo não dar muita abertura, se soltando somente com
o doutorando, durante os atendimentos. Certa vez, quando observava a aluna Luana em sala de aula, pude ouvir uma amiga dela comentar sobre o Gustavo:
Luana vamos conversar com o Gustavo amanhã ou quando ele vier? Me lembra de perguntar para ele – E aí Gustavo como foi seu dia ontem? - Porque se você perguntar como ele está hoje, ele responde – Talvez – sempre responde a mesma coisa – talvez [...] Esses dias ele respondeu sem eu ter perguntado nada... é, ele me surpreendeu.
[Transcrição da fala de uma amiga de Luana, durante observação de 07 de outubro de 2013]
Ao contrário do aluno Gustavo, a aluna Luana era bastante comunicativa, se relacionava bem com os alunos de sua turma e em especial tinha uma amiga em sala que estava sempre ao seu lado e fazia as atividades com ela. Segundo a aluna Luana, ao ser questionada sobre como tinha sido seu ensino fundamental e como estava sendo seu ensino médio e o convívio com a deficiência visual, “o mais importante tem sido as amizades que fiz”, pois eram eles que davam apoio e minizavam sua falta de visão. Durante as explanações da professora, era bastante atenta e participava espontaneamente, como podemos acompanhar no trecho a seguir:
Nota de campo 5.5 – 07 de outubro, de 2013 [Turma de Luana]
10:25 - A professora começa a explicar os conceitos na lousa. Ela perguntou para a turma qual era o parâmetro constante.
[Luana] – Isotérmico, não foi? [Professora] – O que é constante? [Luana] – Temperatura ué!
- A professora começa a colocar as expressões correspondentes às transformações, na lousa.
Com relação às atividades avaliativas, nossa ideia inicial foi diversificar nossas observações e acompanhar a introdução do computador associado a um ledor de tela e a utilização da linguagem LaTeX em diferentes situações de sala de aula. A primeira experiência do doutorando ocorreu aos dezoito dias do mês de março de 2013. Ao acompanhar a turma do aluno Gustavo, a professora solicitou que os alunos resolvessem uma lista de exercícios extraídas do livro-texto, a ser feita em dupla. Por se tratar de uma atividade planejada pela professora, juntamente com o doutorando, a mesma havia sido previamente digitalizada e adaptada para a linguagem LaTeX, para ser trabalhada com o aluno Gustavo. Assim, o doutorando sentou-se ao seu lado para conduzi-lo nesta atividade. Como a escola não havia recebido ainda os notebooks que havia sido solicitado para uso exclusivo dos alunos Gustavo e Luana, o doutorando disponibilizou seu notebook particular, o mesmo utilizado na etapa 1 da pesquisa.
Ao iniciarmos a resolução da lista de exercícios, nos deparamos com dois problemas. O primeiro referiu-se ao fato de a classe de Gustavo não parecer adequada para receber um aluno com deficiência visual. Além de superlotada, com cerca de 35 alunos, tratava-se de uma turma indisciplinada, barulhenta, fazendo com que a professora precisasse interromper com frequência suas aulas para chamar a atenção da turma, prejudicando qualquer aluno interessado minimamente em estudar, aprender, e produzir em sala de aula, principalmente um aluno com deficiência visual. Em comparação, se por um lado o uso de uma máquina Braille em sala de aula traz o inconveniente do barulho das teclas aos demais alunos, o uso de um computador associado a um ledor de tela por um aluno com deficiência visual exige uma maior concentração por parte dele, o que demanda maior colaboração por parte dos demais alunos. O segundo problema foi o tempo insuficiente, ou seja, dos 50 min de aula, descontando o tempo para a realização da chamada, recados, mais as vezes que a professora teve que chamar a atenção dos alunos, sobrou menos de 30 min para a realização da atividade. O resultado foi que de quatro exercícios da lista, conseguimos fazer apenas um, destacado a seguir.
1. Em uma estrada, o limite de velocidade é de 100km/h. Pode ser multado um carro que esteja viajando a 30m/s?
100km/h=100/3,6=27,8m/s
Se a velocidade mazma permitida e de 27,8m/s, então o carro viajando a 30 m/s pode ser multado .
O restante da lista, a pedido da professora, foi resolvido na aula seguinte, não em sala de aula, mas na sala da coordenação de AEE.
Ainda no primeiro bimestre ficou acordado com a professora que o doutorando acompanharia a aplicação de uma prova em cada uma das turmas. Aos três dias do mês de abril o doutorando dirigiu-se à sala de Luana para acompanhar sua avaliação bimestral. No entanto, o doutorando descobriu que a professora não havia adaptado a prova de Luana, alegando falta de tempo para preparar. Neste caso, apesar de a prova ter sido individual e com consulta, Luana foi colocada juntamente com sua amiga para resolverem em dupla. Como desde o início do ano letivo a aluna Luana estava sem sua máquina Braille, em manutenção, não tinha nenhum material de consulta, dependendo somente das notas de aula da amiga. Assim, a amiga lia o enunciado da questão, discutia com Luana como a resolveriam e quando tinham alguma dúvida, Luana aguardava pacientemente enquanto sua amiga consultava seu caderno. Ao final da aula, um diálogo entre as duas nos revelou uma prática comum na escola:
[Amiga] – Na Química tivemos mais sorte... [Luana] – sorte...
[Amiga] – sorte!, Sabíamos mais de Química do que de Física
Percebam que a aluna Luana geralmente fazia suas atividades avaliativas em dupla. Uma das explicações pode ser o fato de a escola ainda não possuir uma impressora Braille para disponibilizar materiais e avaliações de forma que os alunos possam resolver suas próprias atividades.
A avaliação do aluno Gustavo que ocorreria no dia 8 de abril de 2013, teve que ser alterada, não podendo ser acompanhada pelo doutorando. Ao final do 1º bimestre a professora precisou entrar de licença maternidade, retornando somente no 4º bimestre. Na dificuldade de se encontrar professores de Física para substituir a professora de Licença, as turmas ficaram quase o 2º bimestre inteiro sem professor. Quando a escola conseguiu uma professora substituta, no final do 2º bimestre, a mesma não deu continuidade ao planejamento da outra professora, optando por revisar o que havia sido visto no 1º bimestre, sendo as avaliações feitas na forma de listas de exercício e trabalhos de pesquisa. Mesmo com o retorno da professora da turma do Gustavo e Luana, como já havia iniciado o 4º bimestre, não teve tempo hábil de organizar qualquer atividade avaliativa em sala de aula, somente extraclasse. Neste contexto, não sendo possível expandir suas observações com relação ao uso do computador em sala de aula, o doutorando teve de voltar suas atenções aos atendimentos extraclasse, na forma de AEE.