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2. Teoretiske referanseramme

2.1 Årsregnskapets formål og immaterielle eiendeler

Tendo sido um gatekeeper em seu tempo, a leitura da obra de Claparède revela sua erudição e seu grande conhecimento dos trabalhos mais recentes dos seus contemporâneos. Dessa forma, não é difícil identificarmos que essa maneira dinâmica e funcional de entender o interesse é construída por Claparède a partir do seu próprio entendimento do assunto, como também de apropriações que ele pôde fazer dos trabalhos de outros teóricos. Contudo, há algo de originalidade na forma como Claparède delineia sua teoria, pois, como vimos no Capítulo 5, os autores citados por ele apenas falavam de características parciais do interesse, abordando aspectos isolados desse conceito. Ao contrário disso, Claparède elabora uma síntese mais complexa, em que o interesse é inserido na vida humana como uma função psíquica central na constituição e manutenção do indivíduo. Tendo essa centralidade, o interesse vincula-se às outras funções psíquicas de forma a conduzi-las para o mesmo caminho, qual seja, aquele que melhor proporciona o equilíbrio do organismo.

Em uma linha do tempo, então, encontraríamos no pensamento de Claparède, primeiramente, John Locke. Claparède identificou características importantes nesse filósofo tais como o empirismo, a indicação da existência da necessidade, a concordância de que, a cada momento, o organismo age segundo o seu maior interesse e a tendência à concepção funcional.

Depois, viria J.J.Rousseau, o qual considerou o interesse como o móvel, o condutor das nossas ações e definiu alguns estágios de desenvolvimento para o mesmo. Além disso, Rousseau propôs de forma enfática a relação que a educação deveria buscar com o interesse da criança. Esses três pontos são retomados e aperfeiçoados por Claparède ao longo da sua obra.

Na seqüência, Herbert Spencer é considerado por Claparède como um membro da família funcionalista, pois defende que a educação deve ajustar-se à marcha natural da evolução mental e que é importante tornar o estudo agradável, obedecendo-se o que interessa a cada idade. Contudo, a importância maior de

Spencer na linha de pensamento de Claparède talvez seja simplesmente a influência que ele exerceu sobre William James.

Esse, podemos considerá-lo o mais importante personagem na linha genealógica do pensamento de Claparède, ao lado de Rousseau. Isso ocorre, na medida em que James é tido como o fundador da Psicologia Funcional, tendo aplicado à Psicologia tanto o ponto de vista biológico quanto o pragmático, segundo o qual o que importa é o que é útil e eficaz na manutenção da vida, enfatizando, como Claparède, as funções adaptativas da conduta. James apresenta a criança como um organismo que age para se adaptar e a consciência como destinada a preparar a conduta, tal como vemos em Claparède. Como James, Claparède acreditava que o educador lucraria em aliar-se ao interesse da criança. O gosto de Claparède pela proposta pragmatista é compreensível, quando entendemos que ele se apropriou de importantes aspectos da teoria de James, uma vez que ambos buscavam uma alternativa às correntes empirista e racionalista e pensavam que o funcionalismo poderia fornecer essa alternativa, por sua abordagem dinâmica da vida mental. A falha apontada ao trabalho de James refere-se ao fato de ele não ter explorado as aplicações práticas da Psicologia, questão essa tão cara a Claparède.

Tal falha parece ter sido solucionada, no pensamento de Claparède, através de John Dewey que, segundo aquele, marca uma data no desenvolvimento da Psicologia Funcional na América. Dewey já apontava para o que Claparède também desenvolveria, isto é, a unidade primordial na conduta, ou seja, o ato adaptado. Para Dewey é psicologicamente impossível provocar uma atividade sem algum interesse, o qual é tido como o motor principal, o ponto de partida, a potência do desenvolvimento espontâneo (CLAPARÈDE, 1905/1934). Outra questão relevante para o pensamento de Claparède, foi a importância que Dewey atribuiu à necessidade de a escola priorizar o interesse da criança em direção ao desenvolvimento global da personalidade.

Karl Groos, por sua vez, foi outro teórico relevante para o desenvolvimento do pensamento de Claparède, por ter evidenciado que o jogo tem uma utilidade

funcional, ao que Claparède chamou de concepção genético-funcional do jogo. Ele foi o primeiro, então, a compreender que se devia partir do ponto de vista biológico para resolver o problema do jogo, complementando a teoria de Rousseau que, segundo Claparède, apesar de ter atribuído a importância que a infância merecia, não teria provas, as quais seriam dadas por Groos. Além do jogo, Claparède parece ter utilizado as diferentes categorias propostas por Groos sobre fatores que concorrem para o desenvolvimento mental, quais sejam, a “hereditariedade” e o “meio”, validando nosso entendimento sobre a teoria interacionista de Claparède, pois, a partir disso, ele salientou que o desenvolvimento é “o resultado do concurso da hereditariedade e do meio (ou educação)” (CLAPARÈDE, 1905 / 1934, p.113). O mais importante parece ser que, se para Claparède (1925a, p.47) “o jogo responde a uma necessidade, a mais profunda, é por excelência o meio de captar seu interesse”, então, a teoria do jogo de Groos viria auxiliar justamente nesse grande objetivo da didática, qual seja, o de captar o interesse das crianças.

Conforme a ilustração acima, vemos que Locke, Rousseau, Spencer, James, Dewey e Groos aparecem na obra de Claparède como os seis teóricos a quem ele mais recorreu para esclarecer seu pensamento e construir a sua própria teoria. Mas, como vimos, cada um deles traz apenas um recorte do que será o pensamento de Claparède. Este parece ter se apropriado de parte do pensamento dos referidos teóricos, relacionando-os dinamicamente e acrescentando o seu próprio raciocínio. Metaforicamente, é como se Claparède tivesse selecionado os melhores ingredientes (empirismo, pragmatismo,

J. Locke J.-J.Rousseau H. Spencer W. James J. Dewey K. Gross (1632-1704) (1712-1778) (1820-1903) (1842-1910) (1859-1952) (1861-1946)

funcionalismo, necessidade, interesse, criança, educação, jogo) – os quais não poderiam formar um bolo isoladamente – para juntá-los em uma receita extraordinariamente saborosa!

A partir de todo esse contexto intelectual em que Claparède viveu, que lhe permitiu estabelecer contato com os pensamentos dos teóricos relacionados acima e, logicamente de outros, compreendemos que sua procura foi pelo significado dos processos mentais no conjunto da vida de um indivíduo, dada sua necessidade de se adaptar biologicamente ao meio. Fica claro, com isso, que o interesse foi visto como a chave psicobiológica dos processos mentais e, como tal, serve para nos mover na direção da sobrevivência biológica, sendo acionado internamente pelas necessidades do organismo e acionando em cadeia outros processos cognitivos, como a inteligência e a afetividade, nessa empreitada. Externamente, o interesse é também acionado pelas demandas do meio e, nesse sentido, faz o caminho inverso, acionando a necessidade, a inteligência e a afetividade.