Como se sabe, o rugby nasceu no Colégio da localidade inglesa com o mesmo nome, constituindo uma variante do futebol da época e que foi supostamente criada por Wiliam Webb Ellis, entre os anos Trinta e Quarenta do século XIX . Segundo rezam as crónicas, Ellis terá, em plena partida, pegado na bola com as mãos, lançando-se numa corrida desenfreada pelo território adversário . Pouco importa neste contexto averiguar a exactidão histórica (Garcia, 2004: 83) deste acontecimento original que adquiriu, para os habitantes do «planeta oval» (Dhermain, 2007: 15), um estatuto que se diria mítico e que representa a separação definitiva com o futebol, que, de resto, nem sempre é visto com bons olhos pela comunidade rugbística, onde muitas se ouve dizer o seguinte: «o rugby é um desporto de brutos jogado por cavalheiros, ao passo que futebol é um desporto de cavalheiros jogado por… brutos!» .
Do que não parece haver dúvidas é que Pierre Coubertin visitou a Inglaterra e teve em Thomas Arnold, director do Colégio de Rugby entre 1828 e 1841, uma das suas principais fontes de inspiração pedagógica e desportiva . «O que é admirável, no rugby, é a harmonia permanente entre o indivíduo e a disciplina, a necessidade de cada jogador pensar, antecipar, tomar uma decisão e, ao mesmo tempo, subordinar cada raciocínio, cada pensamento e cada decisão à vontade do capitão . E mesmo o facto de o apito do árbitro parar a acção de um jogador, por causa de uma falta que um companheiro de equipa fez e que ele não viu, testa seu carácter e paciência . Por tudo isso, o futebol é realmente o reflexo da vida, uma experiência vivida do mundo real, uma ferramenta educativa da maior importância» (Coubertin, 1896)
Não espanta, por isso, que Coubertin tenha sido um dos principais impulsionadores da prática do football rugby em França, tendo sido mesmo o árbitro da primeira final do Campeonato francês, num jogo disputado em 20 de Março de 1892 em pleno Bois de Boulogne em Paris, opondo as equipas do Racing Club de France e o Stade Français. Num dia magnífico, «os jogadores do Stade Français deslocaram-se para o jogo individualmente enquanto o Racing chegou em transporte especialmente preparado para o efeito» (Garcia, 2004: 140) . Perante numerosos fotógrafos e cerca de dois mil espectadores, o Racing vence a final por 4 pontos a 3, resultado que hoje seria impossível, mas que, de acordo com as regras da época usadas
uma das equipas e a um “tenu” feito por Frantz Reichel, médio da equipa vencedora (Garcia, 2004: 142) . Em que consiste esse “tenu”? Um jogador transporta a bola (neste caso o médio do Stade Français que dava pelo nome de Amand) e é placado pelo adversário, que o impede quer de passar essa mesma bola, quer de tocar com ela no solo . Se, no actual rugby de XV, essa situação se verificar, o árbitro assinala uma penalidade a favor da equipa do jogador que placou e portanto contra a equipa do jogador que ficou agarrado à bola . De acordo com as regras seguidas naquele tempo em França, o “tenu” assinalado pelo árbitro Mr. Coubertin significava um ponto para a equipa do jogador placador, ponto, esse, que foi decisivo para a vitória do Racing, que assim se tornou o primeiro clube campeão de França em rugby .
Pierre de Coubertin terá sido assim um dos principais entusiastas do desenvolvimento do rugby em França e, por conseguinte, da sua inclusão no calendário dos Jogos de Paris, realizados em 1900 . Nessa edição, a França conquistou a medalha de ouro, vencendo uma sui generis competição triangular com a Alemanha (prata) e a Grã-Bretanha…, ou melhor, a equipa dos Moseley Wanderers (bronze), derrotados no jogo decisivo pelos anfitriões por 27-8! Na equipa francesa destacava-se um jogador de que atrás já se falou: Frantz Reichel, o médio do Racing autor da placagem decisiva da final do Campeonato francês de 1892 e que, entretanto, venceria as edições dessa prova de 1893 e nesse mesmo ano de 1900 .
Não se tendo realizado prova de rugby nos Jogos Olímpicos de St . Louis, em Londres (1908), um misto de jogadores da Austrália e da Nova Zelândia, na altura a fazer uma digressão pelo Reino Unido, defrontou num único jogo uma selecção britânica, vencendo por 32-3 . Em rigor, não se pode dizer que se tratou de uma competição, mas a verdade é que os jogadores desta selecção do Hemisfério Sul acabaram por receber as respectivas medalhas de ouro . Entre esses destacou-se o ponta australiano Daniel Carroll que, só à sua conta, obteve dois ensaios .
Nova ausência do rugby se verifica nos Jogos de Estocolmo (1912) e quando, após a Primeira Guerra Mundial, regressam as Olimpíadas em Antuérpia (1920), o rugby faz também o seu reaparecimento, através de um processo que hoje poderíamos considerar no mínimo estranho, mas que, por outro lado, dá conta do modo como funcionavam as actividades
olímpicas naquele período . Se não, vejamos . «Com o regresso dos Jogos em Antuérpia, [os Americanos], convencidos que um desporto que apaixona tanto os Britânicos como os Franceses teria de figurar no calendário olímpico, desembarcam aparentemente sem avisar ninguém em Antuérpia . Os organizadores belgas ficam perplexos e, não tendo adversário para defrontar os EUA, convidam os Franceses a fazer um único jogo, para que a travessia do Atlântico pelos yankees não tenha sido em vão» (Garcia, 2004: 255) . É natural que a versão dos acontecimentos mude em função dos intervenientes e, claro, dos resultados obtidos pelas respectivas selecções . Ora, Frantz Reichel (sim, o mesmo Reichel que venceu o primeiro Campeonato francês e a primeira competição de rugby dos Jogos), que era, em 1922, o secretário-geral do Comité Olímpico Francês, descreve nestes termos a sua perspectiva sobre o sucedido: «A verdade é que, em rigor, não se tratou de um torneio olímpico, pois não havia equipas que quisessem competir . Apenas a equipa dos EUA pensou que o rugby estaria presente em Antuérpia e, por isso, tinha enviado à Europa a sua melhor selecção, tendo de resto gasto uma quantia considerável . (…) Por cortesia, a França aceitou resolver esta situação delicada e defrontou os Californianos, apesar de, na época, não ser nada fácil arranjar uma equipa de modo quase instantâneo» (Garcia, 2004: 255-256) .
Os americanos vêem esses Jogos de uma forma algo diversa . «Nos últimos dois Jogos Olímpicos em que houve rugby, os Estados Unidos conquistaram medalhas de ouro . Em 1920, os Estados Unidos e a França foram os únicos países que participaram . Numa competição de um só jogo, os EUA chocaram a Europa, ao derrotar os franceses por 8-0 . Nos Jogos Olímpicos de 1924, França esperavam a desforra frente aos EUA que conquistaram de novo a sua medalha de ouro . A história da equipa americana de rugby em França merece ser recordada e mostra a perseverança dos atletas olímpicos» (Read: 1999) .
Independentemente das interpretações que se possam fazer desta peculiar competição, a verdade é que ninguém contesta o facto de que, aos cinco dias de Setembro, no Stadium de Antuérpia, perante vinte mil espectadores, se jogou a final de rugby dos Jogos de 1920, com a vitória dos Estados Unidos por 8-0 . Ora, entre os americanos, destacava-se um jogador com o nome de… Daniel Carroll! Quem?! Daniel Carroll, o veloz
perante aquele que é, sem dúvida, o melhor jogador rugby olímpico de todos os tempos (pelo menos até aos Jogos de 2016…) . Com efeito, «Em 1912, Carroll partiu em digressão pela Califórnia com os Wallabies... e ficou a estudar Geologia em Standford, onde se formou em 1920, aos 32 anos dado que serviu no Exército dos EUA durante a 1 ª Guerra Mundial… Em Stanford, ele jogou e treinou rugby . Por causa do seu excelente passado no rugby, foi escolhido como jogador e treinador da selecção olímpica de rugby para os Jogos de 1920 em Antuérpia, tendo ganho uma segunda medalha de ouro, representando os EUA» (Humbert: 2009) .
Quatro anos depois, nos Jogos de Paris, organiza-se a última competição olímpica de rugby na qual participam apenas três países: França, Estados Unidos e Roménia! A França começou por derrotar a Roménia 61-3 . Embora haja documentos que digam que o resultado exacto foi 59-3 (Quinn: 1991, 211), a verdade é que a superioridade gaulesa não esteve em questão . Dias depois os romenos foram vencidos pelos E .U .A . por 37-0 e ficaram assim em último lugar na competição. No entanto, como só participaram três países, a Roménia ganhou através da sua selecção de rugby a sua primeira medalha olímpica . Quase cinquenta anos antes de Nadia Comaneci, os jogadores de rugby foram sem dúvida os heróis olímpicos da Roménia. A final entre franceses e americanos (uma desforra muito ansiada pelos europeus, quatro anos depois de Antuérpia) realizou-se a 18 de Maio de 1924 no Stade de Colombes, perante 20 000 espectadores (Scott Read fala em perto do dobro dos assistentes) e sob arbitragem do senhor Freethy, do País de Gales . Foi o último match de rugby dos Jogos e os Estados Unidos revelaram uma supremacia tão surpreendente quanto indiscutível, marcando quatro ensaios (na época um ensaio valia três pontos) por Farrish (dois), Patrick, Roger e Manelli . O defesa Doe transformou um dos ensaios (cada transformação valia, como ainda hoje sucede, dois pontos) . Por sua vez a França apenas conseguiu um ensaio pelo médio de formação Gallau . Como esse ensaio não foi transformado, o resultado final foi 17-3 para os americanos .
Durante a cerimónia de entrega das medalhas, o Hino norte- americano foi assobiado. Não era este o fim desejado certamente por Pierre de Coubertin . E não espantou muito que em 1928 o COI tenha decidido
retirar o rugby do calendário olímpico até Outubro de … 2009, quando o Comité Olímpico Internacional decidiu aceitar a candidatura do rugby de sevens (masculinos e femininos) para integrar os Jogos do Rio em 2016 . Por isso, talvez valha a pena concluir esta comunicação centrando a nossa atenção nas duas últimas questões enunciadas no início .
a) Por que motivo tem o rugby vivido, desde 1924 até hoje, à margem
do movimento olímpico internacional?
b) Será a variante de rugby de sevens a modalidade perfeita para
os Jogos?
Em relação a a), julgamos que os valores do rugby encarnam de uma forma especialmente feliz o ideário olímpico . Mais: este bebeu muito da sua inspiração filosófica no rugby, como o próprio Coubertin escreveu e, sobretudo, pôde testemunhar e aplicar em França . Na verdade, o rugby é um extraordinário meio educativo. No dizer do filósofo Thierry Tahon, «A força é o resultado obtido pelo rugby . Muitos jogadores têm esta dívida em relação ao rugby: tinham uma tendência para a violência e o rugby tornou- os mais fortes» (Tahon: 2011, 91) . Mas rugbistas há que sublinham também a riqueza por assim dizer espiritual do seu jogo . É o caso do antigo ponta francês Christophe Dominici para quem «o rugby é um desporto paradoxal: é preciso avançar fazendo passes para trás; é apresentado como muito viril, mas, ao mesmo tempo, tocamo-nos, agarramo-nos» (Kintzler e Dominici, 2007: 36) .
Se assim é, então a pergunta impõe-se: por que motivo esteve, durante estes anos todos, o rugby afastado dos Jogos? Antes de mais, porque o rugby assim o quis, pelo menos quase sempre… já que em 1980, por intermédio da então União Soviética (Jogos de Moscovo) e em 1998 (Jogos de Seul), houve tentativas de fazer regressar o rugby ao calendário olímpico . Esses esforços não resultaram, contudo . Porquê? Também porque, é preciso dizê-lo, o rugby não é (ainda?!) um desporto planetário ou universal . No entanto, as coisas parecem estar a mudar, sobretudo através da popularização de novas variantes do clássico rugby union, como o beach rugby, o rugby feminino ou os sevens .
Na verdade a variante de rugby sevens tem um conjunto de especificidades que a tornam mais adaptável aos Jogos Olímpicos dos nossos dias . Assim, importa realçar o seguinte:
mais curta permite integrá-los com mais facilidade nas escassas semanas em que decorrem os Jogos .