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Å være forelska – et utsatt tomrom

6 Så vakker du er

6.3 Å være forelska – et utsatt tomrom

A vitória final das forças do bloco beócio-peloponésico na batalha de Egospótamo, em 405, colocou termo ao «maior movimento de sempre que galvanizou os Helenos, e determinada parte dos Bárbaros e, por assim dizer, parte significativa da humanidade» (Tuc. 1.1.2). Cercada por terra e por mar, a capitulação de Atenas no ano subsequente1, e ao fim de vinte e sete anos de intensos conflitos, apenas confirmou a desagregação da posição proeminente que tinha vindo a edificar desde as invasões pérsicas, articulada à actividade da simaquia de Delos e em paralelo com a evolução do próprio regime democrático. Mas o despertar do século IV trouxe uma nova orgânica na disposição do tecido político helénico, em que Esparta saiu com poder reforçado com o armistício de 404. Fundada sobre os alicerces da antiga talassocracia ateniense, as directrizes da renovada arche lacónica começaram a ser delineadas durante a derradeira fase da Guerra do Peloponeso, a partir do fortificado de Deceleia em concertação com a navarquia egeia. Com efeito, a chegada de Lisandro ao teatro de operações marítimas foi crucial para o arrancar do processo de estruturação da preponderância lacedemónica, contribuindo, grosso modo, para a exterminação dos focos de “aticismo” ainda em vigor e no isolamento gradual de Atenas. Em conformidade com estes procedimentos, observa-mos a imposição do “laconismo”. A difusão do sistema de dekadarkhiai e na nomeação de harmostai em múltiplas células soberanas do território helénico, foram as pedras basilares para consolidação e cultivo dessa soberania além-Peloponeso e que se estendeu pela bacia do Egeu2.

1 Existem discrepâncias quanto ao mês da rendição oficial dos Atenienses (que coincidiu com a tomada

de posse do governo d’Os Trinta), se em Março ou Abril. Plutarco localiza o acontecimento no décimo sexto dia do mês Muníquion, do calendário ático, que se ajusta, portanto, ao mês de Abril com as festividades de Muníquia, em honra de Apolo, dando um certo simbolismo à data.

2 Parke salienta precisamente o oportunismo de Lisandro em construir e gerir uma vasta rede clientelar,

tendo em Ciro o mais poderoso partidário. De facto, a aliança particular fomentada entre Lisandro e o príncipe aqueménida revelou-se auspiciosamente frutífera, uma vez que permitiu subsidiar todas as

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A par desta evolução política no quadro helénico, assistimos à ascensão de outras poleis, enquanto potências emergentes que alinharam ao lado de Esparta. Tebas granjeou particular protagonismo nesse rol de vencedores que, como analisado no capítulo anterior, preservou uma política analogamente contígua e harmoniosa com as autoridades lacónicas; um músculo preponderante na cooperação bélica com Esparta, na guerra contra a cidade de Palas, contribuindo extensivamente com recursos materiais e humanos3. Porém, a lua-de-mel entre os blocos beócio e peloponésico chegou abruptamente ao fim, surgindo sinais evidentes de modificações estruturais na estratégia tebana, que conduziram ao resfriar de relações e ao seu gradual afastamento dos compromissos para com o aliado lacedemónico.

O Sinédrio dos Aliados, realizado no Inverno de 405/404, retratou, sem dúvida, o ponto de ruptura das conformidades entre Tebas e Esparta, ocasionado pelas crispações diplomáticas daí resultantes4. A fim de ajustarem os termos da rendição, os Atenienses delegaram um corpo diplomático plenipotenciário rumo à Lacónia e cujo episódio é narrado por Xenofonte:

Quando chegaram [os delegados Atenienses], celebrou-se uma assembleia (ekklésia), em que Coríntios e Tebanos, principalmente, mas também muito dos demais Helenos, propunham aniquilar os Atenienses e não realizar pactos com eles. Os Lacedemónios, porém, disseram que não submeteriam à escravatura uma polis helénica que havia actuado positivamente nos momentos de maior perigo que a Hélade havia tido, mas que fariam a paz à condição de que, desmantelariam as Grandes Muralhas e o Pireu, entregariam todas as trirremes, excepto doze, acolherem os exilados e compartilharem os mesmos amigos e inimigos dos Lacedemónios e que os seguiriam por terra e por mar a onde os conduzissem (Hell. 2.2.19-20).

A moção dos Tebanos e Coríntios para a destruição da polis ateniense, cuja autoria é atribuída ao tebano Erianto5, obtivera forte acolhimento e aceitação, sendo

acções lacedemónicas no Egeu (vide supra 1.4); vide Parke (1930) 50-51; cf. Plut. Lys. 4.3-4; 9.1; Xen.

Hell. 2.1.13-14. 3 Vide Cook (1988) 27. 4 Vide Buck (1994) 24-25.

5 Cf. Plut. Lis. 15.2; Conforme notifica Buck, este Erianto surge em algumas fontes sob várias

denominações: Eriates, Eriâncio, etc. Independentemente disso, o historiador reforça que este Erianto seria Ariântides, filho de Lisimáquides, beotarcha em funções durante a batalha de Délio, identificado por Tucídides (4.91), e navarco da frota beócia em Egospótamos. É provável que fosse membro da elite dirigente de Tebas; cf. Buck (1994) 23 (e respectiva n.65); De encontro a esta perspectiva, Bostford salienta que os beotarchai eram os representantes dos Beócios nas relações externas, mas dependentes das decisões da boule dos Beócios; vide Bostford (1910) 288.

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reflexo do sentimento massivo dos restantes Helenos que ostentavam o desejo de vingança pela atitude despótica que Atenas exercera ao longo da Guerra do Peloponeso6. A proposta era inflamável e inerente às rivalidades hereditárias que consumiam ambas as poleis. Erianto tinha mesmo sugerido o extermínio dos Atenienses e abandonar a Ática a fins pastorícios (Plut. Lys. 15.2; D.S. 15.63.1; Isoc. 14.31). Todavia, e tendo em consideração a proximidade geográfica, é verosímil que as intenções tebanas se mobilizassem para objectivos mais latos e concretos que servissem os seus próprios interesses a curto e/ou médio prazo. A ausência de um poder na península ática não só permitiria acabar com as disputas fronteiriças, como também possibilitaria a Tebas ampliar as suas fronteiras (ou área de influência) para o sul e eventualmente retirar dividendos das aliciantes minas de Láurion, situadas no Cabo Súnio.

Os Lacedemónios, porém, recusaram a “selvagem” moção levantada por Erianto, provavelmente decifrando os desígnios tebanos, e assumiram a condução das negociações7. Mas, as autoridades lacónicas não se limitaram a vetar a proposta tebana. O uso de argumentos alusivos à conjuntura das Guerras Pérsicas8 era humilhante e depreciativo para a delegação beócia presente no Sinédrio dos Aliados, ridicularizando- a perante os outros Helenos. Ainda que Esparta tenha tocado numa velha cicatriz que ficaria para sempre correlacionada com os Tebanos, as suas alegações estariam canalizadas para os novos projectos dirigidos para oriente e que se traçavam no horizonte lacedemónico9.

6 Vários são os exemplos: Eginetas, em 431 (cf. Tuc. 2.27); Mélios em 415 (cf. Tuc. 5.16.2-3); entre

outros exemplos; Cf. Xen. Hel.2.2.3.

7 Cf. Xen. Hell. 2.2.20; Plut. Lis. 14.4-5; cf. D.S. 13.107.4; Michael Sage terá razão em apontar: «“Sparta

would be better served by a weakened and subservient Athens that could serve as a buffer against future Theban ambition”», e na qual refutamos a premissa de Buck («“Probably the real reason for the Spartan action was to curb the agressiveness of the Boiotians”»). Para as duas perspectivas referidas, vide Sage (1996) 133-134; Buck (1994) 25; Cook (1988) 83.

8 «“Os Lacedemónios, porém, disseram que não submeteriam à escravatura uma polis helena que havia

actuado positivamente nos momentos de maior perigo que a Hélade havia tido…”» (Xen. Hell. 2.2.20); Durante a Segunda Invasão Persa à Hélade (480-479), a maior parte dos Beócios, incluindo os Tebanos, optaram por medizar, ou seja, compactuar com o invasor oriental (cf. Hdt. 7.132.1). Por outro lado, e não obstante a legitimidade encerrada nas alegações lacedemónicas, estas não deixaram de ser contraditórias à luz do desfecho que determinaram para Plateias (vide supra 1.1.1.)

9 D.W. Lewis sublinha o reemergir do sentimento pan-helénico e anti-persa, e o despertar das ancestrais

dicotomias de ocidente versus oriente, tão usuais em Heródoto. A morte do basileus persa, Dario II, em 404, representaria o findar de relações protocolares, entre Gregos e Bárbaros, e a sucessão de Artaxerxes II ao trono imperial, não amputaria os eventuais perigos que advinham do traçar de políticas de afirmação do novo monarca que poderiam colidir com as comunidades jónicas sediadas na embocadura do império persa; vide Lewis (2006) 27-28.

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Relativamente à rectificação da rendição ateniense, as cláusulas promulgadas permitem antever, com alguma clarividência, as reais intensões lacedemónicas quanto ao destino final da cidade de Palas. Além das exigências em torno da supressão das únicas insígnias que restavam da sua soberania – o Pireu e as Grandes Muralhas – de limitar quantitativamente, mas de forma substancial, a sua frota e de reconhecer a supremacia lacedemónica10, o aditamento referente ao retorno dos ostracizados era, certamente, o tópico mais delicado11. Segundo o tratado aristotélico, estes exilados eram aristocratas de orientação oligárquica que pretendiam destronar a democracia e estabelecer o regime dos melhores (kalagathoi), administrado com base na «constituição ancestral» (patrios politeia

) e

que garantia o aval de Esparta12. Desta forma, a fixação de um governo fantoche filo-lacónico em Atenas, permitiria aos Lacedemónios vigiar e controlar de forma eficiente as actividades na Beócia, confinando-a às suas fronteiras e enfaixando-a em dois pólos de influência de Esparta – a Tessália e a Ática. Com efeito, a região ática serviria os interesses da política externa lacedemónica, centrada em três grandes teatros de operações articulados entre si – as áreas setentrionais da Hélade, a Ásia Menor e o Egeu – militarmente estratégicos e cruciais no desenrolar do seu novo papel hegemónico que garantiriam a continuidade do projecto arquitectado por Lisandro13.

Mas foi sob o coro de vozes discordantes dos alinhados que os Lacedemónios prosseguiram os seus intentos, celebrando uma aliança particular com os Atenienses e impondo-lhes um modelo de gestão política que seguiu a linha de interesses de Esparta, elegendo um corpus governativo em Atenas, denominado por Os Trinta (Triaconta). A diplomacia tebana lambia as feridas amargas do fracasso. Porém, a sorte benevolente que recaiu sobre a cidade de Palas, ditada pelo voto único de Esparta, provocou o

10 Cf. D.S. 13.107.4; existem oscilações em algumas autoridades quanto ao número de trirremes que eram

permitidas aos Atenienses. Diodoro (13.107.4) aponta para dez trirremes, enquanto Xenofonte, conforme é referido no passo transcrito, discrimina doze embarcações, assim como Andócides (3.12). Já Plutarco (cf. Lys.14.4-5) deixa a questão em aberto.

11 Esta medida era distinta da que Lisandro adoptara ao ordenar o regresso a Atenas das guarnições

atenienses dispersas pelo Egeu, para esgotarem mais rapidamente os recursos internos da cidade. (cf. Xen.

Hell. 2.2.2).

12 Cf. Arist. Const. Aten. 34.3; e. g. Pitodoro (Junta dos Quatrocentos e eleito arconte em 404, durante o

governo d’Os Trinta); vide Lewis (2006) 30.

13 Por áreas setentrionais da Hélade entenda-se a região tessálica e toda a faixa, essencialmente, costeira

da Trácia até Bizâncio. Numa fase inicial, Esparta centraria os seus esforços na Tessália, assegurando a continuidade de Heracleia Traquínia na sua posse, formando oportunamente alianças, ora com Larissa, ora com o novo tirano de Feras, Lícofron; vide W.-G. e Morrison (1942) 65-66, 75; Ray (2009) 272-274. Sobre a articulação da política lacedemónia com os três teatros de operações, vide Lewis (2006) 27-28; 30-32; Perlman (1964) 70-71; 74-79.

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estilhaçar do verniz nas relações do núcleo duro da coligação, no qual assentavam Tebas e Corinto14.