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2.2 Situert læring

2.2.2. Å utvilkle identitet i et praksisfellesskap

A partir de dados extraídos de corpora de língua oral, pudemos verificar, ao longo deste trabalho, que o clítico se tem sido utilizado em diversos tipos de construções no PB. Apesar dessa diversidade e da multiplicidade de significados atribuídos ao clítico, buscamos mostrar que as funções que ele exerce em todos esses casos podem estar relacionadas. Dois grandes eixos foram contemplados: o contínuo relacionado às construções impessoais e absolutas, e o contínuo envolvendo as construções reflexivas e médias.

Após a análise desses dois eixos, observamos que, no PB, o clítico parece estar associado a construções envolvendo energia, como defendido por Negrão e Viotti (2010). No contínuo referente às construções impessoais-absolutas, vimos que o se representa uma força indutora elaborada em diferentes graus – ele pode representar um iniciador humano, forças altamente esquemáticas ou não identificadas e até uma presença mínima de energia. Ao diminuir a elaboração da força indutora, o clítico faz com que a porção final do evento ganhe proeminência, sem, contudo, alterar a organização da sentença (diferentemente do que ocorre com as construções passivas analíticas). As sentenças que não contam com a conceitualização de uma força energética são as construções absolutas; estas não foram tratadas aqui por não serem marcadas com o clítico no PB.

No caso do contínuo reflexivo-médio, a ideia de um participante que possui propriedades mistas parece ser a mais adequada para entender o papel do clítico. Embora Maldonado (2006) tenha proposto essa noção para o experienciador médio – ou seja, para o participante de eventos mentais – acreditamos que ela também possa ser estendida para participantes de outros eventos. O sujeito das construções reflexivas possui um caráter ativo, pois, na maioria dos casos, o participante atua de forma volitiva e intencional. Entretanto, como esse participante é também o alvo do evento, ele é afetado, assim como os participantes afetados de sentenças transitivas. No que tange aos participantes das construções médias, a própria indistinguibilidade em sua conceitualização reflete a mistura dos papéis de iniciador e alvo, facilitando a apreensão das características ativas e passivas do participante. Vimos que essas sentenças podem apresentar diferentes níveis de controle e volição. Todavia, nos casos em que o participante não é visto como o ‘causador’ da ação, o clítico atua no sentido de aumentar seu envolvimento, conferindo maior energia à construção. Diante dessas

considerações, acreditamos que a proposta de Maldonado (2006) esteja no caminho certo: a forma se estaria associada a um processo de energização do evento.

Além dessas questões acerca do papel do clítico e da pertinência de determinados pontos da proposta de Maldonado (2006) para entender os dados do PB, vale tecer alguns comentários gerais a respeito dos outros objetivos a que nos propusemos no início deste trabalho. As sentenças formadas com o clítico são mais bem compreendidas quando vistas em termos de gradação, como parte de um contínuo. Nem sempre elas são facilmente identificadas e, nesses casos, para entendê-las, devemos olhar para aspectos, tais como: o grau de elaboração da força indutora, o grau de distinguibilidade na conceitualização do participante, a expectativa de que iniciador e alvo remetam à mesma entidade, o grau de controle e envolvimento do participante no evento, sua volição e intencionalidade, etc. Esses aspectos, apontados por análises desenvolvidas no âmbito da Gramática Cognitiva, evidenciam as relações por trás das sentenças construídas com o clítico, configurando-se como ferramentas interessantes para a análise do tema.

Em se tratando dos dados encontrados nos corpora, pudemos verificar, como esperado, que o uso do clítico no dialeto paulistano foi mais recorrente que no mineiro. Ao longo do texto, foram mencionados alguns casos de similaridades e/ou diferenças quanto aos dois dialetos e também foram apontados alguns casos que apresentaram maior ou menor variação quanto ao uso do clítico. Embora nosso foco não tenha sido o de investigar o fenômeno de não ocorrência do clítico, levantamos a possibilidade de a variação quanto ao emprego desse elemento ser explicada da seguinte maneira: as construções que não exibem o clítico denotariam eventos menos energéticos ou com menor envolvimento/responsabilidade do participante quando comparadas com as versões com o clítico.

Um aspecto interessante evidenciado pelos dados é o fato de as construções impessoais terem sido construídas, na maioria das vezes, com referência de tempo genérica – e não específica. Como sugerimos no Capítulo 3, isso indica que o se estaria sendo utilizado mais como intuito de ‘inespecificar’ a força indutora do que para destacar a porção final do evento. Outra questão relevante que os dados mostraram foi o uso do se em algumas construções com o verbo ter. O papel do clítico, nesses casos, seria o de introduzir na sentença a figura de um conceitualizador que assiste à cena, sem participar dela, como ocorre nas construções que Maldonado (2006) denomina de médias apresentacionais. Fornecemos alguns exemplos (extraídos da internet) em que o clítico foi utilizado com verbos que denotam condições meteorológicas. Também nesses casos, a ideia de um conceitualizador parece adequada para explicar os dados.

Contudo, ressaltamos alguns pontos que requerem uma investigação mais aprofundada a fim de que se obtenha um panorama mais preciso acerca do tema. Um desses casos remete ao fenômeno de não ocorrência do clítico em sentenças nas quais ele poderia aparecer. Diante do recorte de nosso estudo, não foi possível examinarmos essa questão, de modo que se faz necessário um estudo que consiga detectar os contextos em que o clítico não tem sido empregado. Também seria necessário averiguar se nossa hipótese acerca da variação quanto ao uso do clítico é compatível com a interpretação dos falantes.

Outro ponto não abordado neste trabalho relaciona-se às construções médias apresentacionais. De acordo com Maldonado (2006), esse tipo de construção envolve um baixo nível de energia e é construído com tempo presente, pois reflete a presença de um conceitualizador. Defendemos, em nossa análise, que algumas construções, quando acompanhadas do clítico, parecem estabelecer semelhanças com as médias apresentacionais. No entanto, algumas delas apresentaram tempo passado, o que talvez possa ser um problema na perspectiva do autor.

Por fim, seria interessante examinar mais a fundo se o requisito de agentividade humana do verbo, proposto por Maldonado (2006), configura-se realmente como o fator de maior impacto para a identificação de uma sentença como ativa ou ‘passiva’ e quais fatores fazem com que um verbo apresente alto requisito de agentividade humana (já que esse aspecto não fica claro na análise do autor). Maldonado comenta que os verbos que, por si só, participam de construções impessoais ativas são os de percepção (ver, ouvir), de processamento mental (considerar, pensar) e de processamento comunicativo (falar, proibir, etc.). É verdade que, também em PB, as sentenças formadas com esses verbos e o clítico se tendem a gerar construções impessoais e ativas. Todavia, algumas combinações de verbos e complementos podem gerar eventos que exigem uma força indutora humana – como

modernizar bairros ou transportar indústrias – apesar de não incluírem verbos de percepção

e de processamento mental ou comunicativo. Mostramos, no Capítulo 3, que esses eventos foram codificados por meio de construções médias com proeminência terminal, e não por meio de construções impessoais. Assim, talvez seja mais interessante pensar que o teor mais ativo ou ‘passivo’ de uma sentença seja determinado pela forma como a força indutora está sendo conceitualizada, em vez de se considerar, prioritariamente, o requisito do verbo.

Tendo chegado ao fim deste estudo, esperamos ter contribuído, de alguma forma, para o entendimento do papel que o clítico se exerce no PB, nas diferentes construções em que aparece.