Partindo da hipótese de que “é através dos gêneros que as práticas de linguagem materializam-se nas atividades dos aprendizes” (SCHNEUWLY; DOLZ, 2008, p.74) e de que para sua apropriação se faz necessário apresentá-los aos alunos o mais próximo possível das verdadeiras situações de comunicação em que aparecem, escolhemos, para este estudo, o gênero fatia de vida, para que possam, assim, conhecê-lo, apreciá-lo e compreendê-lo, bem como produzi-lo na escola e fora dela.
Acreditamos que o gênero fatia de vida é mais um dos instrumentos que o professor poderá utilizar nas aulas de leitura e produção de textos, nas salas de aula da EJA. Primeiro, porque os alunos não estão habituados a ler textos longos e segundo porque a leitura de exemplares deste gênero de texto poderá servir de modelo para que escrevam os seus próprios relatos.
Como em nossa pesquisa bibliográfica não encontramos trabalhos, abordando didaticamente esse gênero22, fez-se necessário, em razão do nosso objetivo específico, descrever23 suas propriedades, variedades, estrutura e uso, baseados nos procedimentos de análise dos conjuntos de propriedades observáveis, segundo Bronckart (2007), tal como segue:
Com relação às propriedades observáveis de ordem semântica, o gênero fatia de vida é comumente encontrado em seções específicas (Página da vida; Vida real: Eu leitora; Depoimento em revistas de circulação mensal, geralmente, destinadas ao público feminino).
Caracteriza-se por abordar temas pessoais sobre diversos assuntos, pressupomos que pelo motivo da necessidade dos homens “de ser herói, de ter importância no mundo dos outros; a vontade de ser amado [...]” ou ainda pelo fato de “crescer não em si nem para si, mas nos outros ou para os outros [...]” (BAKHTIN, 2003. p.143), ou “quiçá supervalorizar nossa presença no mundo [...] que nos leva a crer que o que é importante ou interessante para nós será igualmente importante para o outro” (VASCONCELOS, 2008. p.231)
22 Segundo Rojo (1999) para os gêneros dessa ordem já estão disponíveis análises estruturais, formalistas e até mesmo
enunciativas e sobre suas propriedades e, até mesmo, descrições mais ou menos acuradas de seus processos de construção (“aquisição”) por parte da criança.
23 As características do gênero aqui levantadas estão fundamentadas na observação das fatias de vida publicadas em
revistas diversas, das quais selecionamos as que foram utilizadas em sala de aula (ver Anexo B) para a realização das atividades com os alunos.
O gênero fatia de vida, em geral, aparece em seções assinadas pelo redator, mas cujo nome do autor comumente é fictício, para preservar sua identidade. Muitas vezes, o narrador se deixa fotografar, ou então cita nomes de pessoas do domínio público.
As fatias de vida são normalmente escritas a pedido dos editores de revistas aos seus leitores através de editais de concursos e/ou promoções, cujos critérios são previamente veiculados pela própria revista e/ou em seus sites e selecionados pelos seus conselhos editoriais que publicam as melhores histórias ou mesmo no final da seção, na qual são publicados, através de um aviso do tipo “Você tem uma experiência para contar? Escreva para... etc.”. Para uma das revistas de grande visibilidade nacional brasileira, a leitora escreve contando algum fato que ocorreu em sua vida e que gostaria de dividi-lo com as pessoas, vendo-o publicado na revista.
Quanto às propriedades observáveis da ordem léxico-sintática, no gênero fatia de vida, de acordo com Bronckart (1994. p.132) a descrição parece ser a estratégia discursiva dominante, sua unidade por excelência [...] é o imperfeito, [...] e talvez mais ainda o eu24 (tradução nossa) que é sempre substituído por nós25 (tradução nossa). Segundo o autor, os dois se encontram,
aliás, em uma relação complementar mais evidente: quanto mais eu, menos nós e vice-versa26 (tradução nossa), ele acrescenta ainda sobre este aspecto que o eu está sempre presente, enquanto o
nós pode está ausente do relato de vida27 (tradução nossa). Quanto aos fatos, estes são marcados pelo pretérito perfeito.
Segundo Lainé (1998, p. 141),
[...] a ordem do relato está calcada sobre a ordem cronológica da sucessão de coisas ou dos acontecimentos da vida como eles são produzidos. Para que um relato seja compreensível, é necessário nele introduzir, uma hierarquia, uma organização que não se contenta somente em reproduzir a cronologia dos acontecimentos28 (tradução nossa).
De acordo com Bertaux (1997, p.32), para
24 […] unite par excellence […] est l’imparfait […] et peut-être plus encore du je. 25 […] remplacé par le nous.
26 […] Les deux se trouvent d’ailleurs dans un rapport de complementarité très claire: plus il y a de je, moins il y a de nous et inversement.
27
[…] le je est toujours present, tandis que le nous peut être absent du récit de vie.
28[...] l’ordre du récit était calqué sur l’ordre chrologique de sucession des choses ou des événements de la vie tels qu’ils
se sont produits. Pour qu’un récit soit compreensible il faut y introduire une hiérarchie, une organization qui ne se contente pas de reproduire la cronologie des événements.
[...] relatar uma história, é necessário exprimir com precisão os personagens, descrever as razões de suas atitudes; descrever os contextos das ações e interações; expressar os julgamentos (as avaliações) sobre as ações e os próprios atores. Descrições, explicações, avaliações, tudo isso faz parte de toda narração e contribuem para construção de suas significações29 (tradução nossa).
Este autor acrescenta, ainda, que quando [...] o discurso se reduz somente às descrições ou se, tudo relatado for somente uma série de acontecimentos, contentando-se apenas em justapô- los sem nada dizer sobre as relações entre eles, [...] não toma a forma narrativa30 (tradução nossa).
Com relação às propriedades observáveis da ordem paralinguística, no gênero fatia de vida, a configuração composicional apresenta um título e subtítulo, o corpo do texto é dividido em parágrafos, distribuídos em colunas. Em alguns casos, o redator faz uma pequena síntese (lead) sobre o que a história vai tratar. Os parágrafos são introduzidos por tipos (letras) destacados como também, em alguns casos, o corpo do texto vem entre aspas, caracterizando a fala do narrador- autor, em uma configuração bem maior que os demais caracteres.
29
[...] raconter une histoire, il faut camper des personnages, dérire leurs relations réciproques, expliquer leurs raisons d’agir; decrier les contexts des actions et interactions; porter des jugements (des évaluations) sur lês actions et les acteurs eux-mêmes. Descriptions, explications, evaluations, sans être de formes narratives font partie de toute narration et contribuent à en construire les significations
30[...] le discours se réduit à descriptions ou si, tout en relatant une série diachronique d’événements, il se contente de les justaposer sans rien dire de leurs rapports entre eux [...], il ne prend pas la forme narrative.
4 OS CAMINHOS PERCORRIDOS: OBJETIVOS, MÉTODO E FASES DESTA PESQUISA
As estratégias de ensino supõem a busca de intervenções no meio escolar que favoreçam a mudança e a promoção dos alunos a uma melhor mestria dos gêneros e das situações de comunicação que lhes correspondem. (DOLZ; NOVERRAZ e SCHNEUWLY, 2004, p. 53).