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Desde a descoberta e a produção de sons rudimentares e dos movimentos mais canhestros até as mais elaboradas criações artísticas, a música e a dança sempre tiveram um papel importante na vida do ser humano, especialmente como forma de expressão dos seus sentimentos e anseios mais profundos, dificilmente passíveis de serem traduzidos em palavras e conceitos. Em suas origens, profundamente religiosas, ligadas à magia e à religião, a música e a dança foram utilizadas como linguagem expressiva de comunicação com o sagrado. Desde a mais remota Antiguidade, a música e a dança serviram de pontes entre os deuses e os humanos, entre o céu e a terra, conectando a humanidade ao universo sagrado.

Alguns autores (FISCHER, 1987; CANDÉ, 2001) são unânimes ao afirmar que a arte e nesta se incluem a música e a dança em sua origem foi um auxílio mágico à dominação e à compreensão de um mundo real inexplicável. A religião, a ciência1 e a arte, unidas, combinadas e fundidas em uma forma primitiva de magia,

possibilitaram aos humanos, nos primórdios de sua história, lidarem com os fenômenos da realidade e dar-lhes uma explicação e um sentido. Porém, com o desenvolvimento do próprio ser humano e das civilizações, esse papel mágico da arte foi progressivamente cedendo lugar ao papel da clarificação, de uma explicação mais racional da realidade. Nesse contexto, a música e a dança, como expressões artísticas, adquirem novas funções e significados. Contudo, não perdem a sua “magia”, a sua capacidade de transportar o ser humano a outros patamares da realidade, para além do universo empírico do seu cotidiano. A música e a dança continuam, até os dias atuais, servindo de pontes que ligam o ser humano a algo maior que o supera e que ele concebe como mistério ou como o sagrado, que o envolve e transcende. É nessa perspectiva que, nas cristotecas católicas, a música e a dança, são utilizadas como um recurso privilegiado, como um caminho para conduzir os jovens de hoje a uma marcante e pessoal experiência de Deus.

1 O termo “ciência” (do latim scientia, significando “conhecimento”) é empregado aqui em seu

sentido amplo, referindo-se a qualquer conhecimento ou prática sistemática, e não em seu sentido restrito de um sistema de conhecimentos adquiridos através ou baseado em métodos científicos.

Ao abordarmos, no primeiro capítulo desta dissertação, a questão da música e da dança na mais antiga civilização sedentária capaz de promover uma tradição musical, no vale do Indo,2 nos referimos a Shiva o deus dançante do hinduísmo. É

nessa perspectiva de um deus dançante que lembramos aqui de uma belíssima imagem criada pelo hinduísmo, na Índia, para expressar o relacionamento de Deus com a sua criação, com os humanos: Deus é o bailarino, e a criação é a dança. Deus dança a criação. A dança é diferente do bailarino, porém não existe sem ele. Além disso, não podemos nos apoderar da dança, nem levá-la conosco se ela nos agradar. Quando o bailarino para de dançar, a dança deixa de existir. Portanto, para encontrar Deus é preciso deixar-se envolver pela dança. Pois esse encontro se dá não tanto através de palavras, argumentos, teorizações. Ao contrário, é preciso olhar para a dança; qualquer parte dela pode ser útil. E, como aconselham os mestres espirituais, é preciso: olhar, escutar, cheirar, tocar, provar. Fazendo assim, certamente, não vai demorar muito e você o verá, e mais ainda, você se sentirá intimamente unido a ele ao próprio bailarino.

Isso nos leva a pensar na experiência religiosa que os jovens dizem fazer ao dançarem na cristoteca. Transpondo para a atualidade o que essa imagem sugere, situando-a numa perspectiva religiosa cristã pois também poderia ver vista na ótica dos rituais das religiões afro-brasileiras , fazem sentido as declarações dos jovens quando afirmam que é o Espírito de Deus que os move a dançar e que os seus corpos são instrumentos utilizados por Deus para falar a outros jovens, para tocar seus corações. Como afirma Abib, a música é apenas um meio de Deus agir, um canal que ele usa para que o seu poder possa fluir e chegar ao coração das pessoas e transformá-las. Quando a música é tocada, ali se realiza o poder de Deus. “Não são apenas emoções que uma música gostosa produz. É o poder de Deus, a presença do Espírito Santo, […] na música” (ABIB, 1998:28).

E essas peculiaridades da música e da dança, capazes de atrair especialmente os jovens, de congregá-los e, mais ainda, de articular pertencimentos, valores e sensibilidades, são assumidas pelos novos movimentos religiosos eclesiais, como a RCC e a Aliança de Misericórdia, como instrumentos de evangelização e de experiência de Deus.

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Região situada no centro-sul da Ásia, atualmente já não faz parte da Índia, que foi dividida, em 1947, em Índia e Paquistão. O vale do Indo fica no atual Paquistão.

Nascidos no contexto da Modernidade contemporânea, marcada, entre tantos outros aspectos, pela emergência da subjetividade humana, pelo destaque dado à emoção, à sensibilidade e ao corpo, os novos movimentos eclesiais desenvolveram um tipo de espiritualidade que se caracteriza pela sua expressão emocional, com um forte acento na experiência pessoal de Deus. Nessas circunstâncias, a linguagem musical e a linguagem corporal da dança se adequam muito bem às características e às necessidades dos indivíduos participantes de tais movimentos.

A cristoteca, pensada e organizada nos moldes de uma discoteca convencional, com a participação de DJs, com muita vibração e agito, utilizando gêneros de musicais similares aos de outras danceterias, se apresenta como uma alternativa de lazer e diversão para os jovens. Contudo, os idealizadores e organizadores da cristoteca acrescentam a tudo isso um ingrediente a mais. E este é considerado o mais importante: atrair os jovens à cristoteca para proporcionar-lhes uma experiência pessoal de Deus. E, para isso, tudo é preparado cuidadosamente. Além de um ambiente alegre, descontraído, seguro, isento de promiscuidade, brigas, álcool e drogas, a preocupação com o “toque” religioso é fundamental. Sem este os objetivos da cristoteca não seriam alcançados.

A cristoteca é precedida de uma alegre e fervorosa celebração eucarística, com músicas animadas e vibrantes, em ritmo de balada, alternando momentos de intensa manifestação de exaltação e louvor a Deus, expressos em gestos, palmas, cantos, e momentos de profundo silêncio, recolhimento e interiorização, de escuta atenta da Palavra de Deus, durante a homilia. Tudo acontece em um mesmo espaço. O altar ocupa o palco, que, em seguida, será usado pelos dançarinos, coreógrafos e pela banda ou grupos musicais. O salão onde se reúne a assembleia litúrgica durante a celebração transforma-se em pista de dança. Porém, o clima que reina no ambiente continua impregnado pelo sagrado. Ali só são tocadas e cantadas músicas com letras religiosas. Músicas “mundanas” não têm vez nesse ambiente. Tudo na cristoteca deve trazer, de maneira explícita, a marca religiosa cristã, ou, mais precisamente, católica: a imagem de Nossa Senhora que permanece no palco, a imagem de Jesus Misericordioso projetada na parede do salão, os nomes bíblicos ou de santos dados às bebidas não alcoólicas servidas durante a noite (os cristodrinks), as letras das músicas, as “lembrancinhas”, os CDs e outros objetos vendidos na lojinha, no interior do salão, o atendimento espiritual que é

proporcionado. Tudo aponta para Deus e visa conduzir os jovens para uma experiência espiritual.

É nesse ambiente que centenas de jovens se reúnem semanalmente. A partir dos dados obtidos através das entrevistas e das conversas informais com eles, pudemos esboçar um perfil desses jovens. A maioria dos que frequenta a cristoteca, promovida pela Aliança de Misericórdia, na cidade de São Paulo, nos finais de semana, vem das camadas populares da sociedade, dos bairros periféricos da cidade; ainda estuda e, os maiores de 18 anos, trabalha. A maioria desses jovens participa de algum tipo de grupo, movimento ou pastoral da Igreja Católica, especialmente de grupos ligados à RCC. Outros, sem nenhuma participação eclesial, vêm à cristoteca a convite de jovens engajados na Igreja.

Procuramos sintetizar em três pontos as motivações mais fortes e significativas, segundo a opinião dos jovens entrevistados, sobre o que os motiva a participarem da cristoteca ou o que buscam nessa balada. Em primeiro lugar, os jovens evidenciaram a busca por um espaço de divertimento e lazer, onde pudessem curtir música e dançar. E a essa motivação do divertimento, do gosto pela música e pela dança, acrescentavam, invariavelmente, um dado muito importante para eles: que tudo isso ocorresse em um lugar seguro, sem briga, bebida alcoólica, drogas, sexo. E isso a cristoteca oferece, segundo o depoimento dos próprios jovens.

Como uma segunda motivação para a sua participação na cristoteca, os jovens apontaram para a necessidade de encontrar os amigos, de fazer novas amizades, de estar junto com outros jovens, num ambiente “bom”, descontraído, acolhedor, onde pudessem confiar nas pessoas. Nesse sentido, os jovens “de Igreja” acrescentaram também, como um motivo a mais da sua preferência pela cristoteca, o fato de nesse ambiente eles se encontrarem com outros jovens que têm os mesmos valores e ideais, experiências religiosas similares, a mesma fé.

E, como terceira motivação, os jovens apontaram para a dimensão religiosa, o encontro pessoal com Deus, a alegria de compartilhar a fé com outros jovens, motivando-se mutuamente, como algo importante para suas vidas e que os estimula a frequentar esse tipo de balada. Sobre o que mais apreciam na cristoteca, muitos responderam, usando palavras diferentes, mas expressando sentimentos muitos

similares. Falando do que mais gostam e do que mais os toca na cristoteca, afirmaram: “O que mais me toca é essa mistura de religião e lazer”, é “o ambiente religioso e a diversão”, “os momentos de missa e oração, e a evangelização”. Outros disseram: “Na cristoteca, a maior alegria é estar na presença de Deus e com os amigos”. “A música tocada na cristoteca me leva para mais perto de Jesus, expressa o que o meu coração sente”.

Como uma parte desse segmento jovem que frequenta a cristoteca participa também de algum grupo de Igreja ou possui, embora minimamente, um referencial religioso católico, as músicas religiosas tocadas e cantadas naquele ambiente impregnado de símbolos cristãos ajudam esses jovens a se reencontrarem. E, para usar uma expressão de Hervieu-Léger, ajudam-nos a se “converterem” ou a se “refiliarem” à sua tradição religiosa de origem, vivida até então de maneira difusa e informal. E isso ocorre num clima emocional de intenso fervor e entusiasmo compartilhado pelo grupo que constitui a “comunidade” da cristoteca. E, para aqueles que estão integrados na Igreja, a cristoteca alimenta e reforça os vínculos religiosos já estabelecidos, proporcionando-lhe sentimentos de alegria e satisfação, como expressa uma das jovens entrevistadas: “Sinto que Deus fica mais perto de mim, é uma sensação de bem-estar muito grande. A cristoteca é uma referência de um bom ambiente. Fui criada com a religião e, consequentemente, com as músicas religiosas na minha vida, isso é fundamental”.

A música, a dança, o encontro entre amigos, a tranquilidade que reina no ambiente, a busca dos jovens pela religião, o clima religioso promovido pela cristoteca, sintetizam, de maneira geral, aquilo que é considerado o mais importante para esse segmento juvenil frequentador dessa balada católica. Segundo depoimentos dos próprios jovens, nesse ambiente eles experimentam momentos de muita emoção, alegria, paz interior, felicidade, desejo de ser radical, diferente.

No atual contexto de violência, insegurança, fragmentação dos vínculos familiares e sociais, de falta de referenciais para a vida, um ambiente como a cristoteca, onde é possível encontrar, por parte dos organizadores do evento, pessoas disponíveis para acolher, dialogar, orientar e ajudar os jovens a solucionar os seus possíveis problemas e impasses do dia a dia, torna-se, de fato, para muitos deles, um ponto de apoio, um “refúgio seguro”. Ali eles encontram uma comunidade cujos laços estão baseados no afeto, na sensibilidade e na fé comum, ou seja, na

experiência pessoal de Deus, na mensagem e na proposta de vida cristã. Mesmo que os ensinamentos e as mensagens religiosas que ali são transmitidas sejam consideradas rígidas e tradicionais quanto à doutrina e à moral, muitos jovens as acolhem como expressão de uma forma radical de viver.

As sociedades modernas contemporâneas não mais definem, em termos globais, “mapas” ou código de normas que sirvam de orientação para os indivíduos, nos vários âmbitos da vida. A sociedade delega ao próprio indivíduo a responsabilidade pelas suas decisões. E isso, não raro, gera inquietações, insegurança, angústia, especialmente nos jovens que vivem as instabilidades dessa fase transição para a idade adulta, de busca de inserção plena no mundo do trabalho, de possível mudança de estado civil, dentre outros tantos desafios que precisam enfrentar. Nesse contexto, uma instituição ou grupo que possibilite orientações precisas e bem definidas pode ser sentido como um espaço seguro e firme, onde o indivíduo pode se apoiar para definir os rumos de sua vida e as suas opções. Nessa perspectiva, os novos movimentos e as novas comunidades eclesiais, mesclando elementos novos e velhos, modernos e pré-modernos, têm conseguido, diferentemente de outros segmentos eclesiais, atrair e congregar um contingente jovem significativo que aceita as suas mensagens e propostas e se dispõem a integrar as suas fileiras.

O nosso trabalho não teve a pretensão de ser uma abordagem exaustiva, nem de abranger o tema em toda a sua profundidade, extensão e complexidade. Muitos outros aspectos poderiam ter sido abordados, como por exemplo, o estudo mais aprofundado das letras das músicas tocadas na cristoteca, a teologia subjacente nessas canções. Mas isso já seria matéria suficiente para outra dissertação. Este trabalho consistiu tão somente numa primeira tentativa de aproximação desse objeto as cristotecas: a música e a dança a serviço da fé. Sem dúvida, o fenômeno das cristotecas poderia ser abordado sob inúmeros aspectos. Contudo, nesta pesquisa, o nosso foco se limitou a conhecer a cristoteca, sua origem, organização e objetivos, e tentar perceber quem são os jovens frequentadores da cristoteca e o que buscam nesse evento.

O que apresentamos como resultados da pesquisa não pretende ser algo acabado e conclusivo. Se os novos movimentos e as novas comunidades eclesiais são considerados recentes, a Aliança de Misericórdia e a cristoteca, que foram o

foco maior do nosso estudo, são mais recentes ainda. A cristoteca tem apenas oito anos de existência. Um período de tempo muito curto para que se possa chegar a alguma conclusão mais precisa sobre os rumos que tomará e qual a sua influência na vida daqueles que hoje a frequentam e a organizam. A cristoteca é um fenômeno em curso, está em um processo de contínua mudança e adaptação. Tudo é muito contingente, provisório. Pois assim também é a sociedade moderna contemporânea. Ao organizar as fotografias para os anexos deste trabalho, olhando as várias fotos, ocorreu-nos imaginar esta pesquisa sobre a cristoteca como uma fotografia. A realidade é bem maior e muito mais complexa do que uma fotografia é capaz de retratar. A realidade é viva e dinâmica, a fotografia cristaliza um momento determinado. Num segundo momento, ou, observando a realidade sob outros ângulos, poderíamos ter uma visão diferente da mesma, chegar a outras conclusões, sem contudo anular a primeira visão. Nós fotografamos a cristoteca a partir de um ângulo. Existem tantos outros, igualmente importantes. A realidade não cabe em uma fotografia, mas esta, por mais simples que seja, pode ser o registro de um momento significativo na composição do álbum de fotografias que retratam aspectos da história de vida de uma comunidade de jovens que, desejosos de atrair outros jovens para Deus, recorrem à música e a dança como estratégias de evangelização, dançando para Deus.

E finalmente, o nosso trabalho quer também lançar um apelo, aos cientistas sociais das diferentes áreas para que, em seus estudos e pesquisas, especialmente sobre a juventude, considerem a relevância da religião para esse segmento juvenil e incluam entre as questões pertinentes à vida dos jovens, as suas buscas e expressões religiosas. Se esse modesto trabalho puder despertar em outras pessoas o interesse em aprofundar e ampliar os estudos sobre a experiência religiosa da juventude, na sociedade contemporânea, ficaremos gratificadas, e a sociedade, certamente, mais enriquecida.