Conceitua-se atitudes como sendo classes de respostas de avaliação – favoráveis ou desfavoráveis - em relação a um objeto, pessoa ou eventos (EAGLY; CHAIKEN, 1993; HARLING; TURNER, 2012; ROBBINS, 2002), ou seja, contemplam como o indivíduo sente-se diante de algo. Destaca-se que, mesmo que guardem relações entre si, não podem ser compreendidas como valores (ROBBINS, 2002).
O termo atitude foi utilizado pela primeira vez em 1918 pelos autores Thomas e Znaniecki, que afirmaram ser possível conhecer os tipos de influências sociais que, aplicados a determinadas atitudes, criassem novas, de modo a desenvolver novos valores sociais (THOMAS; ZNANIECKI, 191810 apud ROSE, 2008). Desde então, este conceito tem sido amplamente estudado, na tentativa de se criar mecanismos capazes de controlar, fundamentados em conhecimento científico, a conduta social humana (ROSE, 2008).
Rodrigues, Assmar e Jablonski (2009) referiram que atitudes são sentimentos, a favor ou contrários a pessoas e/ou objetos, criados a partir do
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processo de socialização do indivíduo. Podem se originar de características de personalidade ou de determinantes sociais, bem como estar associadas a processos cognitivos e de aprendizagem.
Os mesmos autores afirmam que, por vezes, é possível modificar as atitudes diante de influências e da pressão da qual se torna alvo, cotidianamente. Isto significa que o indivíduo influencia e é influenciado continuamente, às vezes com o propósito de fazê-lo ou, então, sem que se tenha tal percepção, ao se tornar referência positiva (ou negativa) para outras pessoas (ASSMAR; JABLONSKI, 2009).
Interessante destacar que, mesmo sendo um tema muito discutido, não se chegou a um conceito final. Vários autores, desde a década de 1920, buscaram uma forma de defini-lo.
Neiva e Mauro (2011), a partir da análise desta diversidade de definições, selecionaram cinco conceituações fundamentadas em seus pontos convergentes e na significância histórica que possuem. Nesta perspectiva, as atitudes foram caracterizadas como:
• “um estado mental e neurológico de prontidão, organizado por meio da experiência, exercendo uma influência diretiva ou dinâmica sobre a resposta do indivíduo a todos os objetos e situações com que se relaciona.” (ALLPORT, 193511 apud NEIVA; MAURO, 2011, p. 173).
• “um afeto favorável ou não favorável a um objeto psicológico.” (THURNSTONE, 193112 apud NEIVA; MAURO, 2011, p. 173).
• “[...] uma resposta implícita e geradora de impulsos, considerada socialmente significativa na sociedade do indivíduo.” (DOOD, 194713 apud NEIVA; MAURO, 2011, p. 174).
• “[...] uma predisposição para experimentar uma classe de objetos de certas formas, com afeto característico; ser motivado por essa classe de
11 ALLPORT, G.W. Atittudes. In: MURCHISON, C. Handbook of social psychology. Worcester:
Clarck University Press. 1935.
12 THURNSTONE, L.L. The measurement of social attitudes. 1931. 13 DOOB, L. W. The behavior of attitudes. 1947.
objetos e agir a tais objetos de maneira característica.” (SMITH; BRUNER; WHITE, 195614 apud NEIVA; MAURO, 2011 p. 174).
• “uma ideia carregada de emoção que predispõe um conjunto de ações a um conjunto particular de situações sociais.” (TRIANDIS, 197115 apud NEIVA; MAURO, 2011, p. 174).
Encontra-se na literatura outros diversos estudos a respeito de atitudes. Embora cada autor elucide-as de uma maneira particular, é possível identificar elementos comuns como: sentimento pró ou contra, com uma intencionalidade que predispõe a uma ação em direção a um objeto ou situação social (NEIVA; MAURO, 2011).
Ressalta-se, também, que as definições fundamentaram-se em três componentes: cognitivo, afetivo e comportamental (FIGUEIREDO, 1998). Interessante mencionar que, durante um período, autores basearam seus estudos numa abordagem unidimensional, sendo que, posteriormente, esta definição tripartite voltou a ser mais aceita (TRIANDIS, 1971 apud NEIVA; MAURO, 2011).
Robbins (2002) afirma que o componente cognitivo está associado a uma opinião ou convicção. O afetivo, como o próprio nome diz, versa sobre sentimentos e emoções. Já o terceiro componente associa-se a forma como o indivíduo comporta-se diante de outro ou de alguma situação.
Optou-se por adotar, neste estudo, uma definição clássica, a qual considera que atitudes são tendências psicológicas oriundas de uma concepção particular do indivíduo, levando-o a realizar uma avaliação, que gera um grau de aprovação ou desaprovação, ou seja, fazendo com que julgue um objeto ou situação como favorável ou desfavorável (JUNQUEIRA, 2010).
Ademais, faz-se necessário ponderar que um dos fatores que interfere com as atitudes, e consequentemente com o comportamento profissional, é o conhecimento sobre determinado tema. No que se refere aos professores, foco deste estudo, pesquisas foram desenvolvidas com o propósito de verificar como seus conhecimentos e suas atitudes estão relacionados à abordagem da “álcool e
14 SMITH, M. B.; BRUNER, J. S.; WHITE, R. W. Opinions and personality. New York: John Wiley.
1956.
outras drogas em seu contexto laboral (FERREIRA et al., 2010; NASCIMENTO; AVALLONE; VITALLE, 2012; PARRENÕ et al., 2010; SÁNCHEZ; FERRIANI, 2004).
Parte considerável dos professores demonstra receio em abordar tal tema em sala de aula, alegando falta de conhecimento teórico e de acesso a informações sobre o assunto, medo de sofrerem represálias (dos alunos, dos pais e de traficantes do entorno escolar) e, ainda, o entendimento de que este é um trabalho a ser executado por profissionais especializados nesta área (NASCIMENTO; AVALLONE; VITALLE, 2012). Estes mesmos autores constataram que a maioria dos docentes participantes de seu estudo não tem por hábito desenvolver atividades de prevenção ao uso de drogas junto aos alunos, delegando tal atribuição a profissionais de saúde (NASCIMENTO; AVALLONE; VITALLE, 2012). Em sua pesquisa, Ferreira et al. (2010) questionaram alguns educadores a respeito de modelos possíveis de prevenção na escola e a maioria referiu estratégias focadas na transmissão de informações sobre os efeitos das drogas no organismo e os prejuízos associados ao seu consumo, apenas. Além do que, verificou-se que a tendência dos participantes foi a de acreditar que o uso de substâncias psicoativas está associado, quase que exclusivamente, a fatores sociais como o meio em que vivem e a classe socioeconômica a que pertencem os escolares (FERREIRA et al., 2010).
Ainda que Sánchez e Ferriani (2004) tenham constatado que a falta de conhecimentos necessários dos professores para planejar intervenções junto aos estudantes constitua-se um fator de risco para o uso de SPA, identificaram que houve uma predisposição dos docentes a acreditar que este fenômeno está associado a aspectos sociais como o desemprego e a imigração dos pais para outros países em busca de oportunidades de trabalho e de renda.
Em seus achados, Parreño et al. (2010) verificaram uma tendência dos professores a criticar o modelo familiar sem hierarquia, em que o uso de drogas torna-se natural, enquanto os pais passam pouco tempo com seus filhos delegando à escola a responsabilidade de educar. Em sua pesquisa, é possível, ainda, identificar a definição unilateral de um responsável pelo problema, no momento em que apresenta a ideia de que ações de prevenção deveriam ser direcionadas às famílias, promovendo modelos familiares mais adequados (PARREÑO et al., 2010).
Reitera-se que é preciso ponderar que o uso de drogas pode ser consequência de problemas sociais, legais, econômicos e não a sua causa, apenas.
Entender o usuário como um sujeito de direitos, cuja formação e conduta derivam de aspectos psíquicos, sociais, culturais e éticos é imprescindível para não se cair no erro de culpabilizá-lo pelo problema (SILVA, 2013). Sodelli (2010) afirma ser necessário recusar a concepção proibicionista de que o consumo de substâncias psicoativas é sempre e invariavelmente um comportamento desviante (patologia). Do mesmo modo, deve-se evitar práticas que isentam o sujeito de qualquer responsabilidade e/ou poder de decisão em relação à droga, acreditando que o problema é algo extrínseco a ele (SODELLI, 2010).
Torna-se necessário atentar-se ao fato de que as percepções, em algumas situações, baseadas no senso comum e os significados de ordem moral atribuídos ao problema tendem a contribuir para a perpetuação de práticas estigmatizantes e excludentes.
A partir das pesquisas analisadas, concluiu-se que, apesar de os professores participarem de algumas capacitações (pouco existentes para este público-alvo) e de buscarem, por iniciativa própria, conhecimento sobre o tema, não se sentem à vontade para executarem qualquer intervenção.
Faz-se relevante analisar que a falta de um olhar atento a este público, que possui uma importante função social pelo fato de ser formador de opinião e de conseguir acompanhar, de perto, o processo de desenvolvimento dos jovens, contribui para que se reproduzam conceitos construídos erroneamente e, consequentemente, condutas estigmatizantes.
Entende-se, portanto, que capacitar professores quanto ao tema álcool e outras drogas é tão relevante quanto necessário, na medida em que poderá contribuir para a desconstrução de pré-conceitos, bem como para a construção de novos paradigmas referentes ao assunto. Outrossim, poderá incentivar a criação de uma cultura de prevenção no âmbito escolar, de maneira que temas de grande relevância como este sejam discutidos e refletidos de forma mais natural e desmistificada.