3 Teoretisk bakgrunn
3.3 Språkendring
3.3.2 Ytre faktorar
A história começa ao nível do solo, com os passos […]. Não os podemos
contabilizar porque cada uma destas unidades é qualitativa: um estilo de
apreensão kinésica […]. As motricidades pedonais formam um dos 'sistemas reais
cuja existência cria efectivamente a cidade' […]. Elas não se localizam: são elas
que espacializam (Certeau, 1980: 179).
Se, em tempos, andar era a principal forma do ser humano se deslocar, o mesmo não
acontece hoje. Num mundo em que o carro é rei, andar ocupa um lugar secundário.
Atualmente, “andar a pé, entregue ao seu único corpo e à sua vontade, é um anacronismo no
tempo da velocidade, da fulgurância, da eficácia, do rendimento e do utilitarismo” (Le Breton,
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2012b: 24). Andar devagar, esperar, parece ser um anacronismo na sociedade onde o homem
apressado domina. Num mundo contemporâneo que privilegia a velocidade, andar é “um ato
de resistência que privilegia a lentidão, a disponibilidade, a conversação, o silêncio, a
amizade, o inútil, tantos valores opostos à sensibilidade neoliberal que condicionam doravante
as nossas vidas” (Ibid., 17).
Ao longo das entrevistas realizadas para o presente estudo, apreendemos este caráter
do caminhar como anacronismo na sociedade atual, como momento particular que privilegia a
lentidão, que devolve a importância aos sentidos, que corporifica um ato e resistência. No
entanto, também foi possível percecioná-lo como inevitabilidade e obrigação. Na verdade, ao
longo das entrevistas realizadas, “andar” acontecia sob duas formas distintas: como principal
e única forma de ir para o trabalho (todo o trajeto feito a caminhar) ou, apenas em breves
momentos de transição (de casa até à garagem, na troca de meio de transporte, do
estacionamento ou da paragem do autocarro/comboio/bicicleta à entrada do trabalho, por
exemplo). Esta última forma, conduziu a que diferentes perspetivas fossem recolhidas,
nomeadamente sob a forma de comparações que os próprios entrevistados iam formulando
aquando da troca de meio de transporte.
São vários os ritmos de deambulação acolhidos pelos passeios e ruas de uma cidade.
Esses ritmos múltiplos e, por vezes, contraditórios chocam muitas vezes nos passeios, nos
corredores, nas escadas estreitas. Os ritmos estudados aqui dizem respeito aos constitutivos
dos trajetos casa-trabalho, ou seja, são os ritmos que dominam a cidade, os ritmos daqueles
que todos os dias fazem o mesmo trajeto e não os ritmos de um turista ocasional. Um
imperativo de deslocação guia a maior parte destes indivíduos, habitantes da cidade (ou que aí
trabalhem), “eles não estão aqui para explorar a cidade com calma, mas têm encontros, um
comboio a apanhar, vontade de chegar a casa ou de não chegar atrasado ao escritório” e é esta
a realidade que faz com que “uma espécie de ritmo standard de marcha se imponha em certos
lugares” (Idem, 2000: 133).
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Foto 2: À chegada à estação da cidade do Luxemburgo (X: 57)
Assim como referimos anteriormente, caminhar no contexto contemporâneo pode
evocar, por vezes, uma forma de resistência – “caminhar é o triunfo do corpo com as suas
variações segundo os graus de liberdade do caminhante” (Ibid., 14). Esta relação entre o
corpo, a liberdade do caminhante e o ato de andar como resistência foi, de certa forma,
manifestada pelos entrevistados:
“Aqui há uma coisa engraçada que faço todas as manhãs, é que espero que o
semáforo fique verde, enquanto toda a gente passa” (II: 59)
“Uma coisa também engraçada, quando desces as escadas e um comboio acaba
de chegar,… aí é demais: estás ali, caminhas contra a corrente. […] Há muita
gente, sentes-te mesmo contracorrente! Agora estamos a cruzar estas pessoas nas
escadas rolantes, mas se as cruzas no corredor atropelam-te!” (II: 62-63)
“Às vezes acho tanta piada às pessoas que correm de um lado para o outro com
uma 'vitesse', tau, tau! Acho engraçado e às vezes estou a admirar, nas horas de
ponta, as pessoas parecem formigas a correrem de um lado para o outro, a irem
para a gare, a irem para os autocarros, tudo no mesmo sentido” (IX: 47)
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Foto 3: Momentos antes de chegar à estação da cidade do Luxemburgo –
“Aqui há uma coisa engraçada que faço todas as manhãs, é que espero que o semáforo fique verde, enquanto toda a gente passa!” (II: 59)
É comum duas pessoas distintas falarem de uma mesma cidade de forma
completamente diferente e, muitas vezes, diametralmente oposta – “toda a cidade é subjetiva”
(Ibid., 123) porque, arriscaríamos, toda a perceção, apropriação e usos do tempo o são
também. São subjetivos porque apelam às experiências, aspirações, vivências de cada
indivíduo, mas sobretudo, aos seus sentidos. A experiência do andar em contexto urbano
solicita o corpo enquanto todo, implica todos os sentidos.
Enquanto os sentidos são chamados a participar, um deles é particularmente
mencionado quando se fala de cidade – a audição. O ruído afeta quem o ouve sob a forma de
impedimento ao sentimento de liberdade pois sente-se agredido por algo que não controla e
que se lhe impõe, impossibilitando-o de gozar pacificamente o seu espaço – “a cidade é
sinónimo de barulhos” (Ibid., 136) e, também no decorrer das nossas entrevistas isso se fez
sentir:
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“Não gosto de sair aqui porque normalmente há muito vento […] então quando
desço vou como uma seta em direcção ao meu escritório […]. E, também, há
muito barulho, há os carros e tudo isso! Então a única coisa em que eu penso é
chegar ao escritório […]. Ando mesmo muito rápido!” (I: 49-50)
A cidade é composta por uma variedade infindável de tipos de lugares (de trabalho, de
lazer, de descanso, de habitação, etc.). Alguns desses lugares têm uma particularidade (muito
apreciada hoje, na Europa) são zonas pedonais, em que os veículos motorizados não são
permitidos. Um desses espaços, elemento constitutivo de uma cidade é o “jardim”.
O jardim central da cidade do Luxemburgo é atravessado, a pé e de bicicleta por
inúmeras pessoas que quotidianamente se dirigem aos seus locais de trabalho de manhã. De
entre as pessoas entrevistadas para o nosso estudo, duas atravessaram-no. O jardim revelou-
se, em ambos os casos, um tempo e um espaço particular, muito devido ao estímulo a que os
sentidos são sujeitos (cheiros diferentes, sons diferentes, temperaturas diferentes). Este foi
descrito como lugar propício a um tempo de introspeção, um espaço em que era necessário
abrandar para apreender toda a sua serenidade e “magia”.
“Vou tirar [em foto] esta árvore. Porquê? Porque, para mim, esta árvore é a
guardiã do jardim e, portanto, à noite quando saio do jardim saúdo-a e digo-lhe
adeus!” (III: 64)
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Foto 4: À entrada do Jardim da cidade do Luxemburgo –
“Para mim, esta árvore é a guardiã do jardim e, portanto, à noite quando saio do jardim saúdo-a e digo-lhe adeus” (III: 64)
É curioso reparar que Michel Foucault, no seu artigo Des Espaces Autres (2001),
propôs o jardim como exemplo de uma heterotopia, como explicitado no capítulo referente ao
quadro teórico. As heterotopias e, neste caso particular, o jardim são:
espécies de utopias efectivamente realizadas, nas quais os lugares reais que
podemos encontrar no seio de uma cultura são, por sua vez, representados,
contestados ou invertidos; espécies de lugares que estão fora de todos os outros
lugares, apesar de serem, contudo, localizáveis (Foucault, 2001: 1574/1575).
Como vimos ao longo das entrevistas, este espaço – o jardim – provoca uma mudança
de ritmo, um abrandamento ou, pelo menos, a “tentativa de não acelerar”, para poder “vivê-lo
com uma outra consciência”. Na verdade, andar mergulha o indivíduo numa “forma activa de
meditação, solicitando uma sensorialidade plena” (Le Breton, 2000: 11).
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Os lugares de culto ou os jardins públicos, os cemitérios, formam, nas cidades,
enclaves do silêncio rodeados pelo barulho onde é possível procurar descanso, um
breve retiro fora do ambiente tumultuoso. Aí recuperamos o folgo, recolhermo-
nos, […]. Aí o tempo flui sem pressa, a passo de homem, evocando o descanso, a
meditação, a flânerie. Estes lugares marcados pelo silêncio destacam-se na
paisagem dando-se como propícios à unificação do eu (Ibid., 136).
Caminhar na cidade promove uma relação diferente com o tempo. Quando se trata de
caminhar em espaços como um jardim, essa relação é muitas vezes a oposta àquela que foi
imediatamente sentida antes de entrar nesse espaço e que será sentida novamente ao sair desse
espaço. Os entrevistados falam, inclusive, numa “mudança de estado de espírito” associada à
passagem pelo jardim. É possível, em espaços destes, experienciar um tempo independente
dos ritmos sociais – “caminhar é habitar o instante e não ver o mundo para além da hora que
vem” (Idem, 2012: 27).
“Agora vamos passar dentro do jardim e aqui é um momento particular” (III: 63)
“Olho sempre para o alto, olho sempre para as árvores, ouço os pássaros. Este é
para mim o último momento do dia em que vejo um pouco de natureza. Portanto,
estes poucos metros aqui são uma outra parte do trajeto onde tento não acelerar
muito, tento sentir este pedaço com uma outra consciência” (III: 65)
“Aqui admiro as flores, os pássaros e este espaço vivo-o diferentemente, esta
pequena distância aqui. E estou feliz por poder fazer este trajeto, feliz que na
última parte do meu trajeto eu possa atravessar este jardim” (III: 66)
“Atravesso o jardim e é super divertido por causa dos cheiros, das mudanças de
temperatura e tudo isso. Muitas vezes, está mais frio ou mais calor, depende […].
É genial!” (X: 67)
A verdade é que muitos dos trajetos, senão todos, entre a casa e o trabalho, iniciam-se
com passos – até à garagem, até ao carro, até à bicicleta, até à paragem de autocarro ou
diretamente até ao trabalho. Este início marca o recomeço do dia, a inauguração desse ritual –
trajeto casa-trabalho – que compõe o nosso quotidiano. Estes primeiros passos “têm a leveza
do sonho, o homem caminha comandado pelos seus desejos” (Idem, 2000: 25). Esta sensação
de (re)começo foi manifestada ao longo das entrevistas:
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“Muitas vezes, sou a primeira a deixar pegadas nesta neve fresca e isso dá-me
muito prazer” (III: 7)
“Acabo o pequeno-almoço, caminho cinco minutos e isso acorda-me, até porque
não sou muito matinal! Em primeiro lugar é prático porque há estes cinco
minutos a pé e, depois, é super alegre!” (X: 13-15)
Mergulhando em outros ritmos, em relações novas com o tempo, o espaço e os outros;
reencontrando o seu corpo e os seus sentidos, o indivíduo “restaura o seu lugar no mundo,
relativiza os seus valores e retoma a confiança nos seus próprios recursos” (Ibid., 166).
Desde os tempos mais remotos que os seres humanos sempre tiveram necessidade de
ter pontos fixos (uma casa, por exemplo) para se poderem afastar e regressar, provar
sucessivamente o prazer da distância e a emoção da chegada, do regresso e inclusive para
“introduzir na sua vida o sentido do sagrado” (Augé, 1997: 79). Neste sentido, e por tudo o
que ficou dito atrás, caminhar pode ser entendido como “um método de reencantamento da
duração e do espaço” (Le Breton, 2000: 19).
In document
Talemålsvariasjon på Vest-Karmøy
(sider 47-50)