3. Materialer og metoder
3.4 Ysting
Os estudos da sociologia da infância, assim como questionaram as teorias clássicas de socialização, questionaram a ideia de ‘a criança’ como um ser a- histórico e associal, como revela a terceira tese de Qvortrup (2011b, p. 205), que sustenta que a ideia de criança é problemática
porque distancia nossa atenção da ação construtiva das crianças em seus próprios direitos; porque nos impede de tratar a infância em sua variabilidade histórica; e, finalmente, porque separa a criança da sociedade na qual ela vive.
Da mesma forma, James, Jenks e Prout (1998, p. 10), ao apresentarem as imagens pré-sociológicas da criança, informam que a compreensão das crianças como seres associais e a-históricos foi comum ao longo do tempo, e afirmam que em seu livro
o princípio de agrupamento do conjunto de modelos [de imagens pré- sociológicas da infância] reunidos aqui é que eles começam de uma visão de infância fora do ou uniformizada pelo contexto social no qual a criança reside. Mais especificamente, nesses modelos não se imprime qualquer modelo de estrutura social.
Assim, uma primeira diferenciação entre o entendimento tradicional da sociologia e as novas maneiras de entender tanto as crianças como a infância pela sociologia da infância é o fato de considerá-las a partir das relações e da inserção em contextos históricos, sociais, estruturais, etc. Nas abordagens de pesquisa propostas pela sociologia da infância, a infância é parte constituinte da sociedade e não apenas uma fase transitória e preparatória da vida dos indivíduos, e as crianças fazem parte dessa mesma sociedade enquanto são crianças, contrariamente à ideia de que serão inseridas na sociedade quando deixarem de o ser.
Parece necessário apontar que estudar crianças é diferente de estudar infância nessa perspectiva, e que “os estudos sociais da infância distinguem-se de outras ciências que lidam com as crianças [...] por meio de uma diferenciação sistemática entre crianças e infância” (HONIG, 2009, p. 62). Como definição,
por ‘crianças’ entende-se uma pluralidade de crianças como um grupo, ou uma coletividade, mais ou menos coesa, incluindo o conjunto estatístico ‘crianças’. Por fim, a ‘infância’ é definida em termos sociológicos como uma categoria permanente, isto é, como um segmento estrutural, que é o resultado da ação recíproca entre
parâmetros sociais – econômicos, políticos, sociais, tecnológicos, culturais, etc. (QVORTRUP, 2014, p.25).
É dessa forma que Honig (2009, p. 69) aponta que “a questão da criança é a questão da observabilidade49 das crianças; ou seja, a questão da criança é uma questão metodológica”, enquanto que o conceito de infância “opera, correspondentemente, como uma construção epistemológica mediando a distinção entre infância como uma ordem simbólica de conhecimento e crianças como atores sociais” (Ibid.). Ou seja, o entendimento das crianças como atores sociais as retira de um “compasso de espera” para entrar na vida social e deixar de considerá-las apenas “... como objetos da socialização” (HONIG, 2009, p. 67), passando a entender e defender que as crianças compõem a sociedade enquanto são crianças e, dessa maneira, o ponto de vista delas passa a ser respeitado e considerado na pesquisa social. A relevância das crianças foi apontada por Prout e James (1990) dentre as características principais do novo paradigma da sociologia da infância. A partir do entendimento dos autores,
as relações sociais e culturais das crianças são dignas do estudo por seus próprios méritos [...]. As crianças devem ser vistas como ativas na construção e determinação de suas próprias vidas, das vidas daqueles que as cercam e da sociedade na qual vivem (PROUT, JAMES, 1990, p. 8).
A ideia de ação social das crianças é fundamental para a sociologia da infância e é amplamente aceita, assim como o entendimento das crianças como agentes, embora esses conceitos não sejam intercambiáveis. Mayall (2002) diferencia esses dois conceitos a partir do que a agência gera, ou seja, “um ator social faz alguma coisa [...]. O termo agente sugere uma dimensão maior: negociação com outros, com o efeito que a interação faz a diferença” (Ibid., p. 21, grifos no original), e esta agência precisa ser considerada dentro do contexto da infância como um grupo minoritário. A socióloga relata, a partir das falas das crianças com as quais desenvolveu pesquisas, que as próprias crianças compreendem que “... elas pertencem a um grupo social que é subordinado à idade adulta” (MAYALL, 2002, p. 122). Esta definição e o fato de as crianças pertencerem
49 O termo “observabilidade” não é reconhecido pela Academia Brasileira de Letras, porém, optou-se
por esta tradução do termo em inglês “observability” porque o mesmo faz parte da teoria de controle – dos campos da matemática e engenharia – e vem sendo utilizado desta forma em português por pesquisas acadêmicas.
a um grupo minoritário relacionam-se à nona tese de Qvortrup (2011b), na qual o entendimento da infância como grupo minoritário
... é definido em relação ao grupo dominante, que possui status social mais alto e maiores privilégios, isto é, nesse caso, os adultos; e indo além, como um grupo que, por suas características físicas ou culturais, é singularizado à parte da sociedade, com um tratamento diferencial e desigual (QVORTRUP, 2011b, p. 210, grifos no original).
A perspectiva da infância como uma construção social também diferencia crianças e infância ao se afastar da ideia dominante nas ciências, até então, de que a infância era principalmente um traço natural nas vidas das crianças, na qual “os fatos biológicos da vida, nascimento e infância, eram instantaneamente utilizados para explicar os fatos sociais da infância” (PROUT, JAMES, 1990, p. 15). Assim, o que se entende por infância é produto de uma construção ao mesmo tempo histórica, discursiva, social e cultural.