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Os estudos culturais e de linguagem são as “raízes” da proposta metodológica desenvolvida por Gomes. A aliança entre esses dois estudos oferece base ao postulado de que elementos sociais, históricos, ideológicos e culturais estão imbricados no fazer jornalístico. Isto significa que “o telejornalismo é também um produto cultural contemporâneo, marcado social, histórica, econômica e politicamente e participa, no dizer de Stuart Hall, do circuito da cultura” (GOMES, 2006, p. 15). Tal articulação também permite o diálogo entre três elementos primordiais desta metodologia: televisão, jornalismo e recepção televisiva.

Para Gomes (2007), conceber o jornalismo na perspectiva dos estudos culturais implica em adotar duas premissas que se coadunam com o pensamento de Raymond Williams: telejornalismo enquanto “instituição social” e como “forma cultural”.

Compreender o jornalismo enquanto instituição social implica reconhecer seu potencial de reconstrução da realidade “no sentido de que se desenvolve numa formação econômica, social, cultural particular e cumpre funções fundamentais nessa formação” (GOMES, 2007, p. 04). Assim, construir os acontecimentos com base em diversas instituições sociais e torná-los públicos diz respeito ao caráter cultural do jornalismo e não de sua natureza. Desta forma, o fazer jornalístico pode ser entendido também enquanto “forma cultural”, uma vez que construir uma realidade baseada nas várias organizações jornalísticas significa debruçar-se sobre a cultura e não sobre a natureza deste fazer. Logo, deve ser inserido no âmbito histórico, social e econômico, e não somente pelas possibilidades tecnológicas.

Assim, ao chamar atenção sobre as atividades jornalísticas enquanto construtoras da realidade, Gomes dialoga no seu texto com Alsina (1996, p. 18) para quem a “notícia é uma representação social da realidade cotidiana produzida institucionalmente que se manifesta na construção de um mundo possível”.

Um dos pesquisadores que mais contribuíram com os estudos culturais é Stuart Hall, para quem o jornalismo está intimamente ligado às dimensões técnica, social e cultural. Desta forma, o autor sugere que o jornalismo é um objeto de pesquisa de múltiplas dimensões, logo,

59 essa prática social deve ser entendida de forma abrangente. Tais práticas se apresentam como elementos-chave para o entendimento não apenas da produção e da circulação dos produtos comunicativos, como principalmente, da recepção destes produtos.

Assim, ao lançar um olhar investigativo sobre o ato receptivo do produto televisivo, a autora entende que é necessário não apenas tomar o discurso como prática social, mas aceitar que essa recepção deva ser analisada também a partir de um conceito semiótico de interpretação, especialmente na matriz peirceana, proposto por Umberto Eco. Tal assertiva se deve ao fato de que as “mensagens são organizadas e consumidas através de operações de códigos” (GOMES, 2002, p. 169). Estes “códigos” a que Gomes se refere, também conhecidos como “signos”, devem ser submetidos a um processo de racionalização para que sejam “decifrados” e a mensagem recebida. Daí a importância dos estudos da linguagem, pois esses estudos permitem lançar um olhar minucioso sobre esse processo de “decodificação dos signos”.

Para nós, a linguagem também vai além da própria palavra em si. Não é apenas a fala que nos remeterá a linguagem. Na análise de nossos objetos, consideramos que o corpo fala e, consequentemente, ele também se constitui enquanto linguagem. Gestos, expressões faciais, movimentos, podem ser importantes aliados da linguagem oral, e se usados fora do contexto a que se propõe, podem contradizer o discurso do jornalista. Assim, os aspectos comunicacionais do jornalismo não podem ser esquecidos, especialmente quando são produzidos na televisão, e acompanhados de diversos elementos que visam sensibilizar o telespectador.

Desta forma, dedicar atenção aos estudos da linguagem significa “ultrapassar a noção de decodificação dos textos (massivos), ou de uma semiótica dos códigos, de uma análise interna ou imanente da obra e pensar em noções mais próximas de uma pragmática da comunicação.” (GOMES, 2007, p. 19)

Nos processos de noticiabilidade, a linguagem é um elemento primordial na construção dos sentidos. Fausto Neto (2005, p. 14) dialoga bem com essa questão ao mostrar de que forma o jornalismo lida com a representação do real. Para ele, a linguagem se configura como “grande “reservatório” onde se gestam os processos de produção de sentido”.

Então, entendemos que a linguagem usada pelos telejornalistas, em conformidade com outros dispositivos de sentido desse meio, se constitui como elemento essencial na construção de sentido. É no âmbito desse complexo processo noticioso que a enunciação se vale de estratégias e resulta na representação da realidade.

60 Nesta perspectiva, Gomes uniu princípios dos estudos culturais aos de linguagem, que indicam que para que a recepção aconteça com sucesso, é necessário ir além da decodificação de textos. Deve-se lançar atenção também aos processos de interpretação por parte dos espectadores, pois essa questão remete à ideologia. ““É a preocupação dos Estudos Culturais com as relações entre linguagem e ideologia que os leva [os investigadores ingleses], progressivamente, ao interesse pelo receptor.” (GOMES, 2002, p. 167)

Ao adotar os estudos culturais e da linguagem – a partir das premissas que entendem o jornalismo como instituição social e forma cultural - Gomes propõe ainda para a aplicação de seu método a articulação de três conceitos metodológicos: estrutura de sentimento, gênero televisivo e modo de endereçamento. Estes conceitos servirão de “instrumentos para trabalhar materiais empíricos.” (GOMES, 2007, p. 04)

Tais conceitos, apesar de possuírem a mesma origem – pois “nasceram do esforço da análise cultural” (GOMES, 2007, p. 14) -, podem ser trabalhados de forma independente. Assim como Raymond Williams, autor que trabalhou durante anos esses conceitos e depreendeu-se de “estrutura de sentimento” anos depois, iremos igualmente neste trabalho nos desligar de tal. Acreditamos que a aplicação do conceito de modo de endereçamento juntamente com o de gênero nos oferecerá sustentação suficiente para uma análise criteriosa da nossa pesquisa.