• No results found

No abrigo, cada dia é um, um dia não é igual ao outro. Trabalhar em equipe é difícil. Nós, equipe, temos que nos resolver, a gente enxerga a criança e às vezes não o profissional que está por trás dela, é muito importante falarmos de nós enquanto profissionais, esse grupo vai fazer muito bem lá dentro. Temos que separar o que é esse estresse, temos que perceber se é a criança ou algo que levamos para lá (Educadora).

Tal fala lança a ideia de que essa profissional se vê atravessada por diferentes questões. Ela falou a respeito da criança e da equipe com as quais trabalha, sobre o lado pessoal que estava por trás do profissional e de questões particulares que eram levadas para o trabalho, ou seja, os diferentes âmbitos que faziam parte da vida dessa pessoa estavam extremamente entrelaçados ao ponto de não conseguir distingui-los.

Durante o período que trabalhei no Abrigo, também ouvi muitas educadoras dizerem que se sentiam angustiadas, que o trabalho no Abrigo era demasiadamente desgastante e que não seria possível trabalhar nele por muito tempo. Por meio dessas falas, pude perceber o quanto as educadoras permitiram que as questões do trabalho invadissem a sua vida privada e o quanto se identificaram com as crianças e adolescentes. Françoise Dolto151 revela que pessoas que trabalham com crianças afastadas do convívio familiar devem cuidar, em primeiro lugar, de si mesmas e de suas famílias, na medida em que se elas se sentirem angustiadas, darão o exemplo da angústia para aqueles de quem cuidam. Além disso, o trabalho não deve se tornar um utilizador de angústia, o que ocorre quando este se torna prioridade para não pensar nos problemas e dificuldades pessoais. A psicanalista ainda completa que o trabalho social não é mais desgastante que os demais, contudo apresenta uma

88 armadilha, pois se trata de um trabalho sobre o humano, no qual são estabelecidos relações e mecanismos de poder.

Outro ponto importante observado nas falas do grupo e levantado por Dolto, quando ressalta que os funcionários se identificam muito com os acolhidos, está ligado ao imaginário. Uma das educadoras destacou: às vezes, nos estressamos em casa e não procuro descontar nas crianças, mas meu problema é a Tati, a minha ligação com ela é muito forte, e com a mãe dela não tem jeito de ela ir. É difícil vê-los sem a família, eu faço para as crianças o mesmo que faço para os meus filhos. Eu perdi uma filha, foi muito difícil, nessa época eu não queria mais nada, pensei que fosse ficar louca. E a gente chega ao Abrigo e vê a carência das crianças porque estão longe da família.

O trecho supracitado apresenta dois aspectos importantes e que estão presentes no Abrigo: primeiro, a tentativa da educadora de promover um espaço e uma relação mais familiar, pois tratava as crianças e os adolescentes que ali estavam como seus filhos; o segundo aspecto se refere à associação que fez de sua dor por uma perda com a dor das crianças e dos adolescentes devido ao afastamento do convívio familiar, formulando uma espécie de identificação com a dor e a perda do outro.

Complementando, uma educadora afirmou: a gente vai embora e sofre por causa deles. Se eu for olhar a situação de abrigamento deles, eu não concordo, eu não aceito. Essa fala também revelou que houve uma identificação da educadora com o sofrimento daqueles que estavam em situação de acolhimento institucional.

Nazir Hamad e Françoise Dolto152 estabelecem uma discussão e trazem elementos teóricos preciosos sobre a identificação dos profissionais que trabalham com crianças. Hamad esclarece que o trabalho no abrigo deve ser baseado em uma identificação recíproca estruturante e não em uma identificação com o sofrimento da criança para lamentá-la; e Dolto salienta que, quando existe uma grande identificação do profissional com uma determinada criança, o risco que se corre é de este funcionário passar a trabalhar a serviço de si próprio e da sua libido e acreditar que somente ele detém o saber sobre determinada criança, o que pode fazer com que anule o outro profissional, promovendo uma dinâmica perversa e gerando rivalidades.

Foi fundamental identificar tais aspectos presentes na dinâmica do Abrigo, pois, no grupo, essa rivalidade se manifestou a partir do momento em que a educadora mencionou o vínculo que possuía com Tati, o que fez com que as demais educadoras também

89 mencionassem o quanto as crianças e os adolescentes eram apegados a elas e o quanto os conheciam, formulando uma espécie de disputa. Paula Albano153 menciona que, em alguns casos, a preferência do educador por uma criança acolhida pode ser saudável, mas pode gerar conflitos com os outros educadores quando um profissional assume a postura de só ele ser detentor de um saber sobre aquele indivíduo. Com essa postura, ele pode acabar por criticar as iniciativas de intervenção dos outros profissionais do serviço dirigidas àquele indivíduo e um passa a ter inveja do poder ou do vínculo que o outro tem com uma criança ou adolescente. Além da dificuldade do trabalho em equipe, há consequências para a interação desse indivíduo com os demais educadores.

A partir dessa fala e da relação que fiz com as considerações de Françoise Dolto154, pude compreender e intervir nesse grupo no sentido de esclarecer que a criança e o adolescente acolhidos não devem ser uma parte desse educador ou um substituto dele mesmo. Em outras palavras, o educador não deve fazer aquilo que ele gostaria que tivessem feito por si próprio, ele deve ter clareza sobre o que querem as pessoas de quem ele cuida e, com isso, explicar e fazer para elas o possível e necessário para o seu desenvolvimento e socialização.

Durante essa sessão, um membro do grupo destacou: sabemos que não podemos confundir o sentimento de mãe pela criança, mas com os pequenos é mais difícil diferenciar se fazemos o papel de mãe ou não. Esta fala denotou que a educadora se encontrava em um conflito de papéis e que os limites e a representação de sua função dentro do Abrigo ainda não estavam claros para ela. Dolto155 fala que há profissionais que se identificam com a criança numa relação que se pretende mãe-filho, contudo não o são e estabelecem uma relação falsa, pois a função dos educadores não é, de modo algum, essa. Albano156 esclarece que o trabalho com crianças menores é um tanto delicado, uma vez que as linhas que traçam os limites entre a técnica profissional e o envolvimento pessoal nem sempre estão bem demarcadas, visto que os profissionais precisam encontrar um equilíbrio entre a técnica, a informação e a intuição das ações e dos gestos.

Ao longo dessa sessão em grupo, trabalhou-se um texto que retomou o lugar do educador no Abrigo e destacou que não seria benéfico que esse profissional seguisse um modelo de mãe com a intenção de negar ou preencher essa falta. Marin157 explica que a dificuldade dos educadores em construir outros modelos que não estejam baseados na família

153 ALBANO, op. cit.

154 DOLTO; HAMAD, op. cit. 155 Idem.

156 ALABANO, op. cit. 157 MARIN, op. cit.

90 tradicional burguesa está relacionada à necessidade da sociedade perpetuar ideologicamente a ideia de que os sentimentos afetivos existentes na família justificam e bastam como forma de organização para o desenvolvimento dos indivíduos. Nesse sentido, acredito que seja essencial trabalhar com os educadores de forma a rever a noção de maternagem como única alternativa, uma vez que, segundo Marin, o educador também seria capaz de dar à criança e ao adolescente a atenção e o carinho necessários para o seu desenvolvimento.