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4. LA OBRA GRÁFICA

4.3. XAM: LA OBRA GRÁFICA COMO EJE DE SU CREACIÓN

4.3.1. LAS XILOGRAFÍAS

Esta etapa da pesquisa constituiu-se, assim, em uma experiência de campo fenomenologica, aos moldes da prática impressionista14; iniciando tais estudos, sentimos necessidade de um singelo mapeamento de áreas possíveis de coleta de dados, que, em nosso caso, correspondem às imagens de modelos para posterior observação. Fizemos, então, uma demarcação de áreas já conhecidas e de fácil acesso, que conteriam as paisagens desejadas em regiões semirrurais da cidade de Araguari/MG. Após este levantamento, optamos instintivamente por fazer os primeiros registros nas proximidades da Rodovia Estadual MG-414, e, por ser uma fase de coleta geral, optamos pela fotografia, visto as facilidades de acesso e transporte e velocidade de execução do registro, entre outros motivos.

Coletados alguns exemplos de vegetação típica do cerrado triangulino para a composição de um posterior desenho de paisagem, a escolha final do motivo se deu em um encontro fortuito: nesta mesma época (início de 2015), começamos a trabalhar com o ensino de desenho em oficinas destinadas a crianças carentes do distrito municipal de Amanhece, vinculado ao município de Araguari/MG, situado ao seu norte. Em uma destas viagens, tivemos o primeiro contato com a árvore que seria usada como modelo nos desenhos a partir de então, o que foi um

14 Fayga Ostrower (1987) faz uma leitura da pintura impressionista como uma pesquisa de base fenomenológica, isto é, de fenômenos percebidos. “O fenômeno, no caso, era a atmosfera luminosa [geralmente da paisagem]. A realidade desse fenômeno devia ser transcrita do modo mais fiel, mais direto e mais objetivo [na percepção do artista].” (OSTROWER, 1987, p. 64).

"achado”. Registramos diversas amostras de posições de árvores em relação ao sol nos horários de coleta, no entanto, tais amostras apresentaram-se relativamente insatisfatórias, pois não nos ofereciam um contraste de luz e sombras suficientemente rico para o trabalho de abstração visual. Além disso, o formato de galhos e troncos não possibilitava enquadramentos visualmente dinâmicos. O curioso é que até começarmos o mapeamento e coleta dos dados, nunca havíamos notado esta árvore nas margens da rodovia. Entendemos tais fatos como índices da importância de um olhar intencional para os motivos temáticos desta pesquisa.

A árvore em questão (Figura 30) brotou à nossa percepção após uma longa curva no caminho e se revelou totalmente isolada em um grande campo aberto, limpo (provavelmente uma área de plantio em período entre colheitas), ofertando-nos uma experiência estética quase minimalista em sua visualidade - pela falta de outros elementos ao seu redor, que pudessem competir-lhe à atenção, ela se mostrava basicamente figura sobre fundo. Seu sinuoso tronco eleva-se em uma pronunciada curva que se estende por um ramo principal que ultrapassa seu eixo vertical, fazendo sustentar a maior parte do peso de sua copa do lado esquerdo (visto em ângulo frontal, tendo a rodovia como referência)15.

Figura 30: Vista panorâmica do modelo e seu entorno às margens da Rodovia MG-414. Acervo pessoal.

15 Notamos, posteriormente, algumas diferenças no corpo da árvore durante os dias em que a acompanhamos, se compararmos a fotografia acima com os esboços na página seguinte (tais rascunhos foram feitos antes do registro em panorâmica): vemos que a árvore era menor e possuía outro entroncamento diagonal, tão ou mais predominante que o da fotografia. Na medida em que a árvore crescia, este galho foi cortado, aumentando sua assimetria visual pelo grande espaço vazado, criado em sua lateral. A forma final da figura sofre, depois, mais uma distorção: pelas dimensões intimistas do caderno, o gesto contido do traço fez com que a forma se achatasse. Estes acasos foram bem-vindos, pois criaram uma forma nova, com identidade própria, não mais vinculada a uma imitação naturalista da forma original e ainda mais dinâmica que os esboços iniciais.

O sol a iluminava em ângulo posterior, pouco à esquerda, projetando sua sombra em uma inclinação oposta ao próprio movimento, criando interessantes ritmos visuais, em diagonais paralelas ou opostas, dependendo do sentido que o olhar percorre nas formas. A depender da posição do sol, sua sombra ultrapassava a rodovia, alcançando a outra margem (nos horários fotografados, sua notável sombra tomava quase totalmente a faixa de asfalto). Este fato nos remeteu àquelas primeiras considerações sobre o desenho in loco, durante as atividades do Grupo Colmeia, quando procurávamos uma sombra confortável para realizar o ato de desenhar: as árvores do cerrado trazem uma sensação de aconchego do calor do sol.

Além dos registros fotográficos, acompanhamos a observação da árvore com um caderno de bordo (Figura 31), o qual recebia, além de algumas coordenadas de espaço, tempo e clima, as impressões particulares sobre a relação direta com o modelo e anotações pessoais sobre o processo de elaboração das formas, novamente em trabalho de ateliê, bem com algumas reflexões teóricas sobre o processo. Os manuscritos deste caderno tornaram-se parte integrante deste capítulo por descreverem boa parcela de suas etapas de criação.

Figura 31: Primeiras páginas do caderno de bordo. Grafite sobre papel, caderno 11 x 15,5 cm. Arquivo pessoal.

Como referido, tais registros voltam para o trabalho de ateliê, onde passam por uma abstração sintética de suas formas, sobretudo pela sombra. Para o artista Mário Bismarck (2004), em diálogo com Platão, não desenhamos a luz, mas a sombra produzida por ela.

A sombra é aquilo que mais se aproxima da realidade do desenho: uma forma plana inscrita numa superfície. Na verdade o desenho tem muito mais a ver com a sombra do que com a imagem do objeto original e, tal como a sombra, permite, sugere e estimula a identificação com aquilo que lhe deu origem. (BISMARCK, 2004, p. 4).

Acreditamos que é neste ponto em que consiste a aproximação das sombras observadas com a técnica do desenho: nosso processo de criação, com este meio gráfico, também cria a forma com tons escuros sobre um suporte com fundo claro (assim como o grafite ou outros materiais o faz sobre o papel branco).