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Dentre universo de temas que figuram no pensamento de Nietzsche, a critica a uma certa política - que é da ordem da moral, e que se sustenta por meio das instituições- que ele opera em relação à tradição vem ganhando contornos cada vez mais definidos. E, neste universo, uma abordagem político-cultural recebe espaço destacado: A Grande Política. Elaborada com mais intensidade no último período de produção do filósofo. Genericamente a Grande Política em Nietzsche deve ser entendida no sentido de um contradiscurso / contramovimento. De uma

transvaloração de todos os valores.

Contudo, o contradiscurso em Nietzsche é o contrário de um espírito que não afirma. É contra exatamente por querer afirmar outra vida que no entender dele está indo pelo ralo na modernidade. Para Nietzsche "um tipo superior de existência"

61 DREYFUS, Hubert e RABINOW, Paul. Michel Foucault: uma trajetória filosófica. Rio de Janeiro:

surgiria quando os valores que norteiam a conduta humana deixassem de ser os que visam unicamente à conservação. Apostando na vida e não mais na sobrevivência, o homem ampliaria seus horizontes, agiria de maneira diferente, PENSARIA DE FORMA DISTINTA.

No confronto com todos e tudo aquilo que busca dominar, fechar a vida, Nietzsche coloca sua tese da grande política a partir do empenho com a mesma. A vida para o filósofo é expansão, ela é uma pluralidade de instinto e afetos. Ela é uma eterna experimentação que não se sabe de antemão o ponto de chegada. A vida em Nietzsche não é homogênea como quer todos os aparelhos de captura da mesma. Ela é uma relação de força e por ser relação não dar para pensar num campo homogêneo. Maurice Blanchot numa linda passagem do seu livro diálogo deixa claro está ideia da experimentação que é a vida em seu percurso e sua heterogeneidade. O autor começa dizendo que a distância entre o ponto A e o B não é a mesma entre o ponto B e o A. Para o autor são perspectivas diferentes. Existindo assim diferenças, heterogeneidade. É como se a distância tivesse que ser percorrida, experimentada só assim se saberia. Pensamento oposto ao pensamento cartesiano, a um modelo de gestão da vida que a política moderna na esteira de uma moral erguem. Para Nietzsche a cultura Ocidental tornou o homem fraco, construindo seguranças, armando uma fortaleza que se sustenta nos pilares religioso, político e moral.

Nietzsche é um contundente adversário da tradição “política-moral” do Ocidente, pois via nela uma dinâmica decadencial presente desde um dos germes da cultura ocidental, vale dizer, da cultura judaico-cristã, bem como no prolongamento dos movimentos sócio-políticos da modernidade, que faz com que uma única perspectiva se absolutize indo para além do jogo de conflito do qual emergiu e pretendendo ser válida para sempre e para todos – posição radicalmente oposta à grande política.

Absolutização e conservação de uma única perspectiva de vida impede que outros tipos de vida possam emergir, possam ser experimentadas, acarretando, assim, um aniquilamento da multiplicidade, dos devires. Se vontade de potencia é expansão, ela depende de oposição, para poder ser vontade de potencia. O que

implica dizer que uma perspectiva, segundo Nietzsche, é sempre tomada em vista de sua relação com outras perspectivas também possíveis. Esta relação se dá a partir da instituição de um jogo que possui como dinâmica precisamente o conflito entre diversas perspectivas, ou interpretações que estão em constante mutação, mas que hipótese alguma se confunde com extermínio entre si. É o que para Nietzsche acontece na “pequena política”, ou seja, na política institucional moderna transmutada em Estado e seu ímpeto totalitário de açambarcar a multiplicidade do real, conquistando por intermédio de imposições contratuais de normas, de leis, de coerção, o humano em sua animalidade como lócus por excelência das paixões, dos desejos, dos instintos, da vontade de potência como força livre e impulsionadora da vida.

Para Tótora (2010, p. 135), o sentido da “grande política” em Nietzsche:

[...] em nada tem a ver com as disputas entre povos, raças, Estados, partidos pelo domínio, com base na força física da superioridade das armas ou biológicos fundados em ideias racistas. Nietzsche sempre se afirmou frente à política do seu tempo como 'inatual'62.

Se ela não está atrelada a uma disputa entre povos, raças, Estados, ela está infinitamente comprometida com a vida, com o homem. O trabalho do autor de Zaratustra sempre foi por “colocar o indivíduo numa posição incômoda: este é o meu trabalho. Atração pelo combate de libertação do indivíduo”63. (NIETZSCHE, 2007,

p.146).

Nietzsche (2007) insiste na necessidade de conceber a vida por outras formas. Todavia, isso só será possível se a libertar das amarras da moral, que a fixa numa perspectiva unilateral. Para tanto, o empreendimento exige um combate a ilusão de que haja uma moral universal e, por conseguinte, uma única perspectiva sob a qual todas as outras se repontam e tornam-se unificadas. A vida é ela própria uma eterna luta de forças, infinitos pontos de vistas existentes. Contudo, os pontos

62 TÓTORA, Silvana. Revista NEAMP.

de vistas não são meros resultados da observação de um “sujeito universal”, como querem fazer acreditar, mas diferentes interpretações, pois, tanto o homem não tem uma natureza “universal”, ou seja, o mesmo para todo lugar, mas resulta do processo histórico e cultural a qual faz parte, quanto, as diferentes perspectivas são diferentes interpretações, isto é, estão essencialmente ligadas aos interesses vitais de cada espécie, são como diz Eduardo Viveiros de Castro em outro contexto, as “mentiras” favoráveis à sobrevivência e afirmação de cada existência.

As perspectivas são força em luta, mais que “visões de mundo”, vistas ou expressões parciais de um “mundo” unificado sob um ponto de vista absoluto qualquer: Deus, a Natureza, Estado etc. Todo esse mundo tem distintas vidas se delineando, todavia, todos são possíveis, mas não ao mesmo tempo, por isso, serem forças em lutas, por querer a todo o momento que ser a superior. Contudo, O que acontece na cultura ocidental regida pela moral judaico-cristã e pelos movimentos sócio-políticos é uma tentativa de conservação de uma única perspectiva, isto é, um estilo de vida.

Cada Perspectiva corresponde a um tipo de vida, é certa maneira de ser, sentir, perceber, afetar e ser afetado. Um tipo de vida é certa configuração pulsional, instintiva, é certo corpo. Tipos de vida são configurações da vontade de potência e cada vontade de potência produz, inventa, impõe certo sistema de valor. Portanto, cada perspectiva bem como tipos de vida promovem recortes, seleções: isto entra, isto não entra, é importante e não é importante. Para cada perspectiva certa hierarquia. E hierarquia em Nietzsche deve ser vista como tensões, relações entre as forças, luta. Portanto, nunca assujeitamento.

Cada perspectiva não só seleciona do mundo o que lhe interessa, mas a partir dessa seleção inventa mundos, formas de vida. Há uma pluralidade e essas pluralidades se enfrentam, claro, que não sem a cada instante uma tornar dominante diante da outra, mas que também entra em colapso permitindo assim que outras formas de vida possam vir a ser. Para cada perspectiva e o tipo de vida que ela engendra existe um interesse e por existir este interesse ela não pode ser isenta, ela não pode colocar no mesmo lugar coisas das quais ela imprime uma distinção. O que nos permite concluir a título provisório que viver não é um ato desinteressado,

ingênuo, mas algo da ordem do risco, da escolha, da invenção.

Nietzsche é o filósofo da diferença. Por isso, para ele, todo dualismo é um reducionismo, ausência de perspectivismo. Ainda mais quando acontece que, para se afirmar, um lado precisa negar o outro. A vontade de poder não nega, não equilibra as partes envolvidas em conflito, até porque é estranho citar “partes” quando tudo é contante devir. Sem dúvida, é melhor a expressão “centros de vontade de poder” e lembrar que há graus de forças, de relação. Há sim dominação, subjugação das forças contra as forças, nunca, porém, eliminação. Segundo Tótora (2010, p. 79): “A força é o que pode e a vontade de potência é o que quer. Toda força por vontade de potência quer expandir, crescer e não conservar, vencer resistências, imprimir formas e dominar”64.

A grande política se situa, portanto, no campo da experimentação não universais, pois seguindo o raciocínio aqui traçado, ela não se pretende modelo, “não se consolida em instituições representativas, tampouco se converte numa moral, formalizada ou não em leis, que possa servir de guia para ação”.(TÓTORA, 2010, p.165). É contramovimento, contradiscurso relativamente à modernidade “político-moral” e todo cortejo de radical homogeneização e apequenamento do homem que a acompanha. Ou seja, é contraposição precisamente à perspectiva da “pequena política” que caracteriza está modernidade “político-moral”. Segundo o filósofo “O nosso sentimento moral é uma síntese, uma ressonância conjunta de todos os sentimentos de dominação e submissão que imperam na história de nossos antepassados”.(NIETZSCHE, 2007, p. 107. 1(22)) A Grande política é uma guerra contra tudo aquilo que vampiriza a vida, que arruína.

A grande política […] quer gerar um poder suficientemente forte para forçar a humanidade a ser uma totalidade superior, com impiedosa dureza contra o degenerado e o parasítico na vida- contra aquilo que arruina, envenena, difama, destrói […] e que vê no aniquilamento da vida a insígnia e uma espécie superior de almas”65. (NIETZSCHE,

2007, p. 42. 25(1)).

64 TÓTORA, Silvana. A Tolerância e o intempestivo. Local: Ateliê Editorial, 2010. 65 NIETZSCHES, Friedrich. Fragmentos Finais. Brasília: UNB, 2007.

Fazer a grande política é agir no sentido de violar todos os valores morais que tornam a vida um mero estado de sobrevivência. Mais especificamente uma moral, a moral cristã, a qual é entendida por ele como uma interpretação da realidade que desvaloriza a existência terrena em prol de outra vida no além (a qual seria, esta sim, a “verdadeira vida”). Nietzsche ver na moral cristã e nas instituições políticas modernas a decadência da vida na sua multiplicidade de manifestações, através da incidência do niilismo reativo vinculado à base moral.

Este movimento decadencial, que possui o niilismo como sua principal lógica, expressa-se politicamente por meio de uma estratégia de aniquilação das diferenças e de quaisquer outras perspectivas possíveis em detrimento de um desejável conflito, mas em proveito de um pseudo-humanismo apoiado na igualdade de todos. A hegemonia de tal perspectiva torna-se possível, não porque seja a perspectiva que melhor cultiva uma “vida destacada” - uma das intenções de Nietzsche – mas ao contrário, porque pretende ser mais do que uma perspectiva moral possível “ao lado da qual, antes da qual, depois da qual muitas outras morais, sobretudo mais

elevadas, são ou deveriam ser possíveis”66. (ABM, p. 89).

Ora, é precisamente esta homogeneização que possui seu germe já na cultura judaica, mas é elevada a termo definitivamente pela modernidade política que evita, preventivamente, o advento de um tipo mais elevado de homem, pois “são

perigosos”, “não previsíveis”, “exceções”, “fortes o suficiente a fim de colocar em questão aquilo que foi fundado e construído lentamente” e em lugar desse homem, emerge um homem fadado a ser escravo, submisso, que nada cria, mas só reproduz. Assim a “pequena política”, que nada mais é que a política-moral- institucional-moderna, serve para conservar um tipo de mundo, de sociedade, de vida e, por conseguinte, um homem que não um perigo aos valores vigentes. O seu efeito é por prevenir a sociedade dessas vidas que fazem ranger a mesma,

[...] Para sociedade, sem dúvida, interessa somente que alguém não cometa mais certas ações: para esse fim, ela o priva das condições a partir das quais ele pode cometer certas ações: isso é, em todo caso, mais sábio do que tentar o impossível, a saber: romper a fatalidade

do seu ser, desse e daquele modo”67. (NIETZSCHE, 2005, p. 208.

§394).

Essa sociedade assentada sobre a moral cristã domesticou o homem, deu-lhe uma forma, o esculpiu a sua imagem, forjou uma natureza universal, não sem muita violência, crueldade. A pequena política só tornou ainda mais cruel este processo de domesticação do bicho homem, por meio de ferro e fogo incutiu sua moral, tornou-se uma violência organizadora das forças que habitam o homem e a sociedade. Separou o homem das forças e do que elas podem. O tornou dócil.

Se a política-moral, isto é, a pequena política se caracteriza pela conservação, pela segurança, pelo conhecido, pela unidade, subordinação, negação, ressentimento, a grande política é vontade de potência, é vontade de querer, de dominar, de experimentar, de crescer, de mudar. É pluralidade, destruição, afirmação.