4. Implementation and Discussion
4.4 WTI Crude Oil RNDs
Outro exemplo a analisar é o estudo de Hertz (1980) que discute a utilização da mão direita em relação à esquerda. O autor reconhece a existência de uma explicação biológica para o fato, segundo a qual, a predominância da mão direita seria conseqüência de um desenvolvimento do hemisfério cerebral esquerdo, que governa os músculos do lado direito, é o centro da linguagem articulada que é responsável pelos movimentos voluntários. Entende-se que tal explicação não dá conta da preferência quase que absoluta pela mão direita. Um dos exemplos citados pelo autor, é a associação que as palavras “direita” e “esquerda” possuem em várias sociedades com valores e expressões consideradas positivas no primeiro caso e negativos no segundo.
O autor evoca a enorme pressão sofrida pelos canhotos em inúmeras sociedades na qual ela é submetida a uma autentica mutilação. Reprimida e mantida inativa seu desenvolvimento é metodicamente frustrado.
Essa assimetria se deve, em grande parte, a fatores socioculturais. Idéias religiosas antigas, diz o estudioso, aproveitando-se da tendência humana à destreza, impuseram-se ao próprio corpo, inscrevendo nele a oposição de valores e contrastes morais. A destreza aparece, portanto, como um ideal no qual os indivíduos devem conformar-se, o fato de ser canhoto constitui-se em geral uma infração combatida por reprovação social explicita. Assinala que se devidamente “adestrada” a mão esquerda apresenta um rendimento equivalente ao da direita, como se passa com aqueles que se dedicam ao piano, datilografia, cirurgia, entre outras atividades.
Para Hertz, a sociedade:
Tem um lado que é – considerado – sagrado, nobre e precioso e outro que é profano e comum: um lado masculino, forte e ativo, e outro feminino, fraco e passivo; ou em outras palavras, um lado direito e outro esquerdo (1980, p. 108).
Em decorrência dessa polarização, os significados das palavras “direita” e “esquerda” são usados de forma antagônica, os primeiros para expressar noções de força, retidão, capacidade, integridade, honradez. Em contrapartida, a “esquerda” é usualmente associada àquilo que é sinistro, impuro, fraco, feio. Ser canhoto culturalmente é ter pouca desenvoltura em atividade e ser destro traduz justamente o domínio de habilidades, o fazer as coisas bem e corretamente.
Essa mutilação da mão esquerda exprimiria a intenção humana de que predominem os desejos e interesses da coletividade sobre o individuo, além de tornar o corpo espiritualizado, inscrevendo nele as oposições de valores e os contrastes do mundo moral. A mão esquerda, sob essa perspectiva, seria uma espécie de signo de uma natureza contraria a ordem, de uma disposição perversa e demoníaca. Eis por que a educação se aplica a paralisar a mão esquerda,
enquanto desenvolve a direita. Com isso prega-se o princípio fundamental das sociedades: o igualitarismo.
Ao pensar nas aulas de Educação Física na escola tomando como base os estudos descritos, percebe-se que existe nas práticas pedagógicas a preeminência dos habilidosos sobre os menos habilidosos na formação das equipes (para competições e também na aula quando as equipes podem ser formadas pelos próprios alunos, e esses procuram os habilidosos para fazerem parte de seu grupo, pois querem sempre vencer. Vale lembrar, que o papel pedagógico da Educação Física escolar não é excluir em prol da vitória e sim alcançar e fazer participar o maior número de alunos), dos magros sobre os gordos, dos fortes sobre os fracos... Isso se dá devido, principalmente, a busca pelo auto- rendimento, pela homogeneidade da turma e pela falta de conscientização, por parte dos professores, dos alunos sobre o respeito às individualidades.
Com isso, a Educação Física escolar, a partir dos estudos de Hertz, também tem dois lados: um “direito” que prima pela participação de todos, respeitando as habilidades e capacidades de cada um dentro de uma abordagem crítica e social evitando, assim, exclusões e possibilitando a participação ativa, crítica e consciente de todos; e outro “esquerdo” excludente que visa o desempenho, o desenvolvimento de habilidades técnicas sem considerar a vivência dos alunos e buscando, acima de tudo, a homogeneidade da turma e o rendimento. Quando um professor ou grupo de alunos tende a direcionar as atenções aos mais habilidosos, os outros alunos que não se encaixam dentro desses padrões, ou tentaram a todo custo alcançá-los, ou irão parar de participar das aulas de Educação Física e isso Hertz, também evidenciou em seu estudo expondo que pessoas canhotas, na maioria dos casos treinam ou são treinadas para ser destras, evitando assim, a exclusão.
Porém, o autor chama a atenção para o fato de que a educação da mão esquerda, quando feita para o exercício de certas profissões (piano, violino, cirurgia, etc.), multiplica o campo de ação do homem. A ambidestria é, nesse
sentido, uma vantagem social e cultural. Conclui-se assim, que as razões fisiológicas são secundárias ao obstáculo cultural constituído pelas representações: sempre negativas quando associadas à esquerda e sempre positivas quando se trata da direita.
Reforça-se assim, a noção de que o corpo é de fato apropriado pela cultura, concebido socialmente, alterado segundo crenças e idéias coletivamente estabelecidas. Nessa medida, o corpo é a um só tempo fonte e expressão de símbolos, que mostra a sociedade em que está inserido e os poderes e perigos atribuídos à estrutura social, guardadas as devidas proporções, que são neles produzidos. Compreendido dessa forma, o corpo é visto como um instrumento, passível de uma educação cultural e de aprendizagem social. Longe da uniformidade dada pela natureza, o que se destaca é a constituição cultural a que se vêem os sujeitos e os corpos em seus usos. É por isso mesmo que os homens andam, dormem, comem de formas muito diferentes.