• No results found

2.4.1 Sobre os depoimentos: decisões e perspectivas

As ponderações sobre a atuação dos sujeitos que participaram do Roda Viva ancoram-se em uma temática contemporânea intitulada história do tempo presente, que utiliza como método, entre outros, a história oral. Buscou-se analisar os depoimentos dos principais apresentadores do programa, bem como dos produtores, para ajudar na construção de uma memória que resgatasse uma imagem social do semanário e que possibilitasse, por sua vez, o confronto com outras fontes. Compreender as regras vigentes no interior do Roda Viva permite pontuar e entender melhor sua estrutura, linha editorial, decisões, escolhas e caminhos traçados pelos sujeitos que participaram de sua produção.

Assim, o relato memorialístico dos entrevistados será usado como estratégia para entender a lógica da TV Cultura. Nesse sentido, é importante ter noção das

possibilidades e limites desses depoimentos abordando-os como documentos construídos. Tal qual afirma Le Goff (1999), o relato pode ser entendido como um campo de luta do que é revelado e do que é esquecido, intencionalmente ou não. As escolhas feitas pelos sujeitos entrevistados daquilo que se escolheu destacar, por mais que não sejam intencionais, fazem parte do esforço de se perpetuar no futuro uma autoimagem. O desafio de uma pesquisa que acessa os depoimentos orais como fonte está na capacidade de confrontar essas visões com outros documentos.

A história oral é uma fonte de inovação, um ganho – “rememorar, lembrar, são processos de reflexão que constroem uma memória não só pessoal, mas também coletiva e social, um testemunho” (Halbwachs, 2004; Pollak, 1999 apud Kushnir, 2012: 60). Este trabalho, portanto, parte do pressuposto de que as entrevistas com os jornalistas que trabalharam no programa podem preencher lacunas deixadas pelas fontes escritas, mas também considera a memória como um objeto de estudo.

O historiador, nesta metodologia, acaba sendo responsável não só por confrontar os depoimentos, como também mobilizar perguntas visando resgatar e estabelecer conexões com as memórias dos entrevistados. Registrar essa produção de relatos se configura no trabalho de transcrever um discurso até então preso às transmissões entre as gerações, muito restrito à intimidade dos sujeitos envolvidos. O historiador torna públicas essas histórias particulares confrontando-as com uma memória oficial.

Habermas (1984) pondera que, entre as relações que permeiam a sociedade moderna civil, a noção de liberdade de imprensa é o resultado dos embates pela autonomia da esfera pública burguesa ante o Estado. A imprensa pode ser analisada como o canal de pressão e expressão dos conflitos sociais. Os sujeitos que atuaram na produção das matérias jornalísticas são moldados segundo o lugar onde se encontram. E, principalmente, com os interesses de quem a percebe como mais um serviço, um negócio.

O acontecimento, isto é, aquilo que se deseja estudar, é dinâmico e se dá numa rede complexa de situações de curta e curtíssima duração com ação de sujeitos que, muitas vezes, têm posturas ambíguas e contraditórias. Busca-se analisar o funcionamento do programa sobre a sua prerrogativa interna, mas também verificar as

possíveis intervenções da direção da Fundação Padre Anchieta e até mesmo a possibilidade de existência de uma censura mascarada sob a forma de linha editorial. Ver-se-á a seguir como a proposta inicial do programa, de ser plural, desmistificar o entrevistado e contribuir, assim, com a democracia, aos poucos foi alterada. Assim, embora o Roda Viva mantenha o mesmo cenário e estrutura, adquiriu novo tom e estilo, alterando assim sua configuração original.

2.4.2. Breve panorama político do Brasil e de São Paulo no ano de estreia do Roda Viva

O quadro geral na política brasileira em 1986 era mais ou menos o seguinte: já fazia dois anos que o Brasil tinha, em sua cadeira de presidente, um civil eleito indiretamente. Em São Paulo, Franco Montoro terminava seu mandato de governador, após vencer o pleito da primeira eleição direta para o cargo, após 20 anos de Ditadura Civil Militar. Era o ano de eleições estaduais e tudo indicava a vitória de Orestes Quércia, também do PMDB.

Os festivais de cinema brasileiro ganharam enorme visibilidade, assim como os programas de entretenimento – novelas e seriados – passaram a ser censurados de acordo com a classificação e não mais por conteúdo, como era há 15 anos. O PMDB obteve a maioria das cadeiras no Congresso. O partido passou a ser responsável por 54% das cadeiras, sendo o principal articulador no projeto de revisão da constituição. No ano seguinte, liderou a Assembleia Nacional Constituinte, com ampla participação pública. Em todo o país, os plenários pró-participação popular na Constituinte estavam se estruturando. No que diz respeito à economia, o novo presidente, José Sarney, anunciava o Plano Cruzado. A possibilidade da redemocratização política estava mais próxima que nunca. Apostava-se também numa virada econômica, já que o novo plano de contenção de gastos ganhava relativo sucesso.

Legalmente, a censura que sustentou o regime militar no poder acabou, com a promulgação da Constituição em 1988, de forma que, nos três primeiros anos de exibição do Roda Viva, o DCDP ainda respondia pela exibição dos filmes, peças teatrais e programas televisivos. A Divisão de Censura Federal, em 1988, foi substituída pelo

Departamento de Classificação Indicativa, que passou a recomendar horário e limite de idade para a programação na televisão e limite de idade para as salas de cinema. Por exatos vinte e quatro anos, seis meses e quatro dias, os veículos de comunicação impressos e televisivos sofreram processos de censura.

RELATERTE DOKUMENTER