Theory and Literature review
2.3 Working Fluids
Buscamos, nesta pesquisa, aprofundar os estudos acerca da voz média do grego antigo, por meio da verificação da variantes de seu emprego no grego antigo, a partir do levantamento e análise de ocorrências da medial no livro Biblioteca, de Apolodoro, prosador do século II, d.C. No primeiro capítulo, foi feita uma análise das teorias que tratam das vozes ativa e passiva no grego antigo e, em seguida, traçamos um percurso diacrônico acerca dos estudos linguísticos sobre a medial, iniciados no século XIX, até os anos mais recentes, ressaltando a dificuldade de se encontrar trabalhos voltados a esse tema, os quais, em sua totalidade, especificamente sobre o grego antigo, foram todos em língua estrangeira. De modo geral, nas gramáticas tradicionais, a voz ativa é definida pela presença de um sujeito-agente, distinguindo-se da passiva que, por sua vez, possui um sujeito-paciente. No caso da média, a identificação da voz seria dada pela presença de um sujeito-beneficiário, porém essa noção, muitas vezes, não é tão clara e nem sempre recorrente numa estrutura frasal. Para a voz média, entendemos que seu sentido é definido pelo próprio verbo, isto é, na forma de empregá-lo em determinados contextos. Portanto, compreender a voz média acarreta numa abordagem semântica e num estudo descritivo de seu emprego contextualizado nos textos gregos.
A fim de explicitar as particularidades da voz média grega, baseamo-nos no modelo cognitivo "Bola de Bilhar", proposto por Langacker (1983), a partir do qual justificamos o emprego da medial nos textos helênicos, baseando, também, nossas inferências no conceito de motivação, proposto pela Linguística Cognitiva. Dentre as noções de voz média discutidas no primeiro capítulo, as de Kemmer (1992), Initiator, Endpoint e relativa distinguibilidade de participantes foram capazes de abarcar, e muitas vezes, justificar o emprego da medial no grego antigo. No entanto, foram os estudos de Allan (2003), a base teórica para nossa análise, a qual define a voz média como uma construção verbal em que se evidencia o traço de afetação do sujeito. Ao final desse capítulo, tecemos comentários acerca da categoria dos depoentes, os quais, embora unicamente possíveis de ocorrência na construção média, foram inseridos na mesma análise que verbos com oposição ativa.
Feita essa exposição teórica sobre as vozes verbais do grego antigo, com um enfoque especial na média, demos início ao segundo capítulo, em que apresentamos as onze categorias estabelecidas por Allan (2003), ligadas pelo traço afetação, sendo elas: a) média-passiva; b) processo espontâneo; c) processo mental; d)movimentação
139 corporal; e) ação coletiva; f) recíproca; g) reflexiva direta; h) perceptiva; i) atividade mental; j) ato de fala e k) reflexiva indireta. Mostramos as definições utilizadas pelo autor para cada uma dessas classificações, por meio de usos extraídos de nosso corpus de análise, resultando num mapa semântico da voz média grega.
No capítulo três, tratamos da abordagem baseada em corpus, mostrando como a Linguística de Corpus, como ferramenta metodológica, inseriu-se neste trabalho. Para isso, apresentamos as duas ferramentas computacionais usadas na coleta e análise dos verbos médios em Apolodoro: o software AntCONC e a Biblioteca Digital Perseus. Ademais, fizemos um levantamento das ocorrências médias, separadas em gráficos, divididos em: a) total de ocorrências em cada categoria; b) total de verbos depoentes em cada categoria; c) total de lemas em cada categorias e d) total de lemas dentre os depoentes em cada categoria. A partir desse levantamento, buscamos encontrar a categoria prototípica da voz média, isto é, aquela que reúne as principais características de suas variantes e se mostrou mais recorrente no corpus e, no caso, foi a Reflexiva Indireta.
Com base em nossa coleta e análise de resultados, formalizamos uma leitura crítica das categorias de classificação da voz média propostas por Allan (2003); propondo uma redução de 11 para 7 classificações, estabelecendo a unificação de a) média-passiva e processo espontâneo em processos; b) movimentação corporal e ação coletiva em deslocamentos e c) reflexiva direta e indireta em reflexiva. Por fim, ainda neste capítulo, justificamos nossa análise com relação à questão de ensino- aprendizagem, explicando como foi elaborado um material de suporte didático a alunos e professores do grego antigo, a partir desta pesquisa. Justificamos essa tarefa com base na escassez de métodos de ensino de grego clássico em língua portuguesa, dando enfoque a um dos temas de maior carência teórico também em português, que é o caso da voz média.
A escolha de Apolodoro foi feita devido à presença única do dialeto padrão helênico, o ateniense, e a extensão praticável do texto foi bastante produtiva, tanto para a realização das traduções como para, a partir dos textos, criar as seções elaboradas para o material didático. O uso de textos originais permite ao aluno uma compreensão maior da sintaxe grega e, além disso, o tema central das passagens selecionado, a figura de Héracles, possibilita o contato com aspectos da cultura clássica, extremamente importante para a formação do aluno. Dessa forma, acreditamos que com este trabalho, estudiosos do grego antigo possam compreender melhor a voz média, desmistificando,
140 guardadas as devidas proporções, a aparente incoerência que por muitas vezes dificulta delimitar seu emprego nos textos e reconhecer as diferenças em relação às construções ativas.
No quarto e último capítulo, promovemos uma discussão envolvendo a oposição ativa/média, levantando a seguinte indagação: se a média é marcada pelo traço afetação do sujeito, seria a ativa, então, uma construção desprovida desse traço? Justificamos a voz média como uma categoria marcada por meio de fatores de frequência, distribuição e morfologia. Assim, enquanto que na medial há a marcação do traço afetação do sujeito, a ativa, em contrapartida, é neutra e ele. Em seguida, dedicamos uma seção à existência dos sinônimos entre as vozes ativa e média, no grego antigo, elencando três hipóteses passíveis de serem usadas, a fim de justificar esse fenômeno. Por conseguinte, cinco pares de verbos foram selecionados e analisados, sendo eles άω/ἅ e
ύω; ύ ; ὁ άω/ὁ ά ; άω/ ά ;
ἐ έ ω/ ύ , a partir de ocorrências em nossos corpus e frequência de ocorrências extraídas do TLG, a fim de entender a coexistência de formas sinonímias em construções de voz distintas, ou do ponto de vista semântico, por meio de uma diferença de ênfase ou por fatores como diacronia, gênero, estilística, dentre outros.
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