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Pesquisas na área da aprendizagem criativa, conforme nossa perspectiva teórica, têm evidenciado a influência deste tipo de aprendizagem em movimentos subjetivos que, recursivamente, alimentam novas produções subjetivas que conformam a motivação a incursão em novos processos de aprendizagem. (AMARAL, 2011; MITJÁNS MARTÍNEZ, 2009b, 2012a, 2012b). Dessa maneira, com o intuito de compreender as possibilidades da utilização do aprendizado criativo emergir em diferentes contextos, para além do contexto original, não- formal, faz-se necessário o entendimento dos conceitos de impacto, a mudança e o desenvolvimento da subjetividade. No entanto, é oportuno ressaltar que, à diferença da Teoria da Subjetividade em si, no entanto, esses temas têm sido objeto de pesquisas mais recentes e exigem ainda maior amadurecimento teórico (ROSSATO, 2009; SILVA SANTOS, 2010; AMARAL, 2011). A seguir, situamos a concepção de desenvolvimento humano a partir do enfoque histórico-cultural e da subjetividade, conforme proposta por González Rey. Por fim, abordaremos as diferentes nuances entres os processos de impacto, mudança e desenvolvimento da subjetividade.

2.2.1 O Desenvolvimento da Subjetividade

Para González Rey, o estudo do desenvolvimento humano centrou-se historicamente no estudo do desenvolvimento de funções como habilidades e processos cognitivos; segmentou- se, assim, o desenvolvimento em diferentes áreas tais como o desenvolvimento intelectual, desenvolvimento moral, sexual, profissional. O autor se contrapõe a essa tendência, partindo

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das ideias de Vigotski sobre o desenvolvimento como processo integral da psique altamente singular e personalizado. (GONZÁLEZ REY, 2011) Aponta duas categorias apresentadas por Vigostki que impactam, de forma particular, a compreensão sobre o desenvolvimento humano: a situação social de desenvolvimento e a vivência (perizhivanie). Por situação social de desenvolvimento, Vigotski referia-se à combinação especial entre processos internos de desenvolvimento e as condições externas do meio. Combinação essa que condiciona novas formações psicológicas de desenvolvimento psíquico. (GONZÁLEZ REY, 2009a; BOZHOVICH, 1985) Por vivência (perizhivanie), Vigostki referia-se a uma unidade psíquica da situação social de desenvolvimento, correspondente à forma como indivíduo subjetiva sua experiência a partir de suas vivências emocionais e à forma como esse processo de subjetivação influencia seu desenvolvimento. Para González Rey, por meio dessas categorias, Vigotski supera a relação direta, linear e imediata entre os processos internos e o meio externo. (GONZÁLEZ REY, 2009a, 2011).

González Rey desenvolverá suas ideias a partir dessa matriz, apontando o desenvolvimento como processo engendrado por configurações de sentido subjetivo. Em sua proposta teórica da psique enquanto sistema subjetivo, o desenvolvimento é tomado, pelo autor, como um “processo integral do sujeito, que compromete, de forma simultânea, diferentes formações da personalidade em configurações de sentido que implicam o crescimento da pessoa em variadas esferas de sua vida” (GONZÁLEZ REY, p. 20).

Nesta acepção, o desenvolvimento da subjetividade implica mudanças qualitativamente diferenciadas nas configurações subjetivas da pessoa, originadas a partir da implicação do indivíduo em um determinado momento de sua atuação. Tais mudanças engendram novas configurações subjetivas que, como novos repertórios psicológicos, serão produzidas em outros momentos e espaços de sua vida. Uma criança que tome aulas de música poderá, assim, desenvolver configurações de sentidos subjetivos relacionadas à sensibilidade artística, à autoria, ao respeito ao método e à técnica, que perpassariam o momento da aula em si, para serem produzidos em outros momentos de sua vida. O mesmo poderia ocorrer para uma criança que aprenda judô ou qualquer outra prática esportiva e que mobilize produções subjetivas relacionadas a essa atividade em outros contextos de sua vida. Produções subjetivas relacionadas, como por exemplo, ao respeito mútuo, à competição, à consciência corporal, entre outros.

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Outro exemplo muito significativo e bastante citado por González Rey é a aprendizagem da leitura e da escrita como unidade subjetiva de desenvolvimento. Frequentemente tomada como o desenvolvimento de uma habilidade, esta aprendizagem, em muitas crianças, pode relacionar-se a construções emocionais de autoestima e autoconfiança, assim como promover a socialização e a criatividade, de forma a transcender habilidades cognitivas ou motrizes e influir em seu desenvolvimento integral. (GONZÁLEZ REY, 1999a)

O desenvolvimento da subjetividade associa-se, assim, às formas próprias de organização e de processualidade do sistema subjetivo; à tensão entre as configurações da personalidade e as configurações e sentidos subjetivos que permanentemente emergem no curso da ação. Um movimento em que novas configurações subjetivas se organizam como recursos subjetivos para o indivíduo, em contextos diversos de sua vida.

Considera-se, assim, uma concepção de desenvolvimento da psique humana que deixa de ser compreendida como um processo de aquisições próprias de etapas universais, para tornar- se um processo integral do sistema psíquico, que compromete configurações de sentido subjetivo, que implicam o crescimento da pessoa em variadas esferas de sua vida. (GONZÁLEZ REY, 2005a)

González Rey (1995; 1999a) sugere três forças motrizes para o desenvolvimento: as interações entre os sentidos subjetivos atuais com configurações subjetivas da personalidade_ denominadas unidades subjetivas de desenvolvimento; o papel das contradições e a comunicação.

Com relação às unidades subjetivas de desenvolvimento, González Rey afirma (2011, p.55, tradução nossa)

Há uma tensão entre as configurações da personalidade e as configurações subjetivas que permanentemente emergem no curso da ação que é de grande importância para o desenvolvimento humano. A partir desta tensão, um novo sentido subjetivo aparece, gerando novos repertórios psicológicos que levam a novas configurações psicológicas a partir das quais a pessoa, como sujeito deste processo, toma novas decisões e novos caminhos no curso de sua experiência de vida”.

Na citação acima, a tensão refere-se à forma pela qual o sujeito subjetiva as situações vivenciadas e como essa subjetivação impacta seu sistema subjetivo. Segundo o autor, esse

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nível de impacto pode engendrar mudanças nas configurações personológicas, configurando desenvolvimento. Esses níveis de impacto no sistema subjetivo, ou as unidades subjetivas de desenvolvimento, não consistem um conjunto de aquisições próprias de etapas universais, senão a momentos concretos da vida dos indivíduos. Várias unidades subjetivas de desenvolvimento podem coexistir para a pessoa em um dado momento de sua vida. Essa compreensão permite perceber o desenvolvimento da psique humana como um processo integral, altamente singularizado (GONZÁLEZ REY, 1999a).

Com relação às contradições do indivíduo como forças motrizes de desenvolvimento, González Rey sugere que a forma como a pessoa, ativamente, se relaciona com suas próprias configurações personológicas é um processo importante para o desenvolvimento. São exemplos desse aspecto as contradições entre o sistema de representações pessoais de um sujeito e o conjunto de emoções que possivelmente emergem em oposição a essas representações (GONZÁLEZ REY, 1999a, 2004, 2005a, 2005c, 2007). Poderíamos citar como exemplo prático de tal situação o indivíduo que fuma ou que pratica maus hábitos alimentares e que, no entanto, tem uma representação de saúde diferenciada dessas práticas.

Se, por um lado, tais contradições podem consistir fontes de transtornos psicológicos, por outro podem constituir fontes de desenvolvimento na medida em que o sujeito tem alguma consciência delas e ativamente atua para resolvê-las. Torna-se relevante, assim, o papel ativo do sujeito em seu próprio processo de desenvolvimento, aspecto tradicionalmente não explorado pela literatura da área em que aquisições de habilidades ou determinações externas são tomadas como os fatores determinantes de desenvolvimento. (GONZÁLEZ REY, 1999a)

Por fim, o papel da comunicação como força motriz de desenvolvimento, relaciona-se ao permanente envolvimento da subjetividade no processo complexo de comunicação presente em grande parte das interações sociais de um indivíduo. Ressalta-se, por esse aspecto, o potencial de um dizer ou de um diálogo em acarretarem uma produção subjetiva, plena de emoções e significados, que implique mudanças no sistema subjetivo e novas configurações que deverão se refletir nas ações do indivíduo em outros momentos e espaços de atuação. Recupera-se, novamente, o papel do sujeito ativo em seu processo de desenvolvimento.

Assumir o desenvolvimento psicológico como um processo engendrado por mudanças no sistema complexo, dinâmico e aberto da subjetividade acarreta esclarecer as diferentes nuances entre o impacto, a mudança e o desenvolvimento da subjetividade.

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2.2.2 Impacto, Mudança e Desenvolvimento da Subjetividade

A mudança da subjetividade inscreve-se em sua movimentação constitutiva, enquanto sistema complexo, dinâmico e aberto. A subjetividade está sempre em movimento, em processo de devires e mudanças, embora nem toda mudança seja caracterizada como desenvolvimento. Sobre mudanças na subjetividade, González Rey (2007, p. 138) coloca

As configurações subjetivas expressam a organização subjetiva do sujeito, a qual é constituinte de todas as suas ações, ainda que os novos sentidos subjetivos surgidos no curso da ação não estejam contidos nessa organização subjetiva a priori. Esses novos sentidos subjetivos entram na organização da configuração atual e, nela, podem levar a uma série de mudanças que terminem transformando a própria organização [...]

A partir da citação anterior, percebemos que a mudança é própria do fluxo auto- organizativo do sistema subjetivo, uma vez que é engendrada por novos sentidos subjetivos produzidos no curso da ação do indivíduo. Esses novos sentidos subjetivos, por sua vez, são produzidos mediante impactos gerados pelas relações com outros sistemas subjetivos individuais e sociais e pelas experiências vivenciadas em diferentes contextos. Impactos referem-se, portanto, a cada momento em que, por tensões ou contradições com o sistema subjetivo atual, novos sentidos subjetivos são produzidos a cada momento de experiência de vida do indivíduo. (GONZÁLEZ REY, 2007; SILVA SANTOS, 2010)

O desenvolvimento da subjetividade, por sua vez, implica uma mudança qualitativamente diferenciada; uma mudança que, como vimos, acarreta em novas configurações subjetivas, mais estáveis na produção subjetiva do indivíduo, e que se refletem em sua atuação em contextos e momentos diversos de sua vida. O desenvolvimento da subjetividade associa-se, assim, às formas próprias de organização e de processualidade do sistema subjetivo. Ou, conforme Rossato (2009) aponta, associa-se à permanente relação entre a subjetividade social, o sujeito e sua personalidade.

Em sua pesquisa, Silva Santos (2010) analisa o impacto na subjetividade individual de professores do primeiro contato com alunos com desenvolvimento atípico. Em sua análise, conclui que diferentes níveis de mudanças podem ocorrer a partir das diferentes produções subjetivas dos professores desencadeadas pelos contatos com os alunos. Entre eles, a mudança

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significativa, a mudança pouco significativa e a mudança não significativa. Conclui que a produção subjetiva, gerada conforme o maior ou menor envolvimento emocional com os alunos, e a forma como essa produção se articula com a subjetividade social da escola (no que concerne a questões de inclusão) podem favorecer ou dificultar a constituição de mudanças significativas.

Os estudos de Silva Santos oferecem um novo olhar sobre a forma como diferentes momentos e contextos da vida do indivíduo podem contribuir para processos de impactos, mudanças e desenvolvimento da subjetividade. Em concordância com a autora, assumimos que, seja em contexto formal ou não-formal, as situações de aprendizagem, como momentos de produção de sentidos subjetivos, podem contribuir para tais processos. Na próxima seção, discutiremos mais detalhadamente a aprendizagem e sua dimensão subjetiva.

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