• No results found

Ao longo de todo o PVE, mas sobretudo na primeira medida do PVE (agora em vigor) – Estágio de Integração Sócio-Profissional, como o próprio nome indica, para além da integração que é realizada, pretende-se que o indivíduo adquira competências sociais e profissionais através de formação nas entidades empregadoras. Pretende-se que adquiram conhecimentos necessários para que posteriormente possam desenvolver um vínculo efectivo ao trabalho.

Neste aspecto surgem vários questionamentos: Até que ponto as entidades empregadoras

estão capacitadas, em tempo e recursos, para dar esta formação? Que tipo de competências adquirem? O tipo de trabalho que efectuam permite adquirir competências profissionais?

Relativamente à Formação Profissional

O que se verifica é que a formação, na prática, consiste em explicações muito superficiais sobre o que implica a tarefa que o utente tem que desempenhar. Posteriormente são, por norma, os colegas de trabalho que ajudam no desempenho das funções. Quando existe uma relação de amizade anterior ao Programa, os utentes verificam que existe um maior acompanhamento por parte das entidades.

“Mínimas, explicações muito mínimas que tive, foi um bocado, fui depois conhecendo aquilo que se podia fazer, ao princípio quando comecei o meu projecto Vida-Emprego tive três meses a trabalhar com uma pessoa, neste caso estava na junta. Já lá trabalha há uma série de anos, foi-me explicando as coisas. […] mas sim, minimamente explicavam-me as coisas” (Júlia).

“Sim algumas sim, algumas tarefas, e outras tou a fazer aos poucos, tou a começar não é” (Jorge).

58

“Tenho o meu patrão, ele é meu amigo, vai-me dar formação agora durante quinze dias, um mês, mais ou menos, até porque ele sabe muito bem que isto não é a minha área” (Rodrigo).

Se em alguns casos as tarefas a desempenhar são básicas, ou seja, não necessitam propriamente de uma formação – como varrer -, também existem utentes que foram inseridos em trabalhos muito específicos que requerem uma formação especializada, até devido ao seu grau de risco – como ajudante de electricista -, e neste caso também não a realizaram.

“Aprendi, aprendi também por mim, porque é assim eu vejo como é que se faz, não sou nenhum estúpido, não é. Vejo como é que se faz e aprendo não é. Mas é assim, vi que não havia aquela motivação da parte de quem devia ensinar, para me ensinar bem, oooh para me corrigir ou… ou isso. Eu fazia pura e simplesmente o trabalho deles e tavam-se a borrifar se eu aprendia ou não. Se eu aprendi alguma coisa foi porque eu quis porque eu vi-a, não é porque me explicavam „olha isto faz-se assim, assim, se não for assim e assim pode ser assado‟ pronto aprendi por mim” (Gabriel).

“ Não, porque aquilo eram funções básicas. Porque é assim, eu na altura em que fui para lá a primeira tarefa que me confiaram foi varrer, não é preciso curso nenhum. […] Por muito que a gente tenha vontade de pegar numa máquina ou fazer uma coisa qualquer diferente, que eu sou capaz, que me sinto capaz, que sou capaz de fazer, eles pura e simplesmente não me ensinam, não me deixam.” (Ivo).

Apesar da maioria dos utentes ter referido que não realizaram formação, ou apenas receberam explicações mínimas de acordo com a função que iam desempenhar, todos eles afirmaram que o programa lhes concedeu competências de várias ordens, principalmente sociais e profissionais.

Relativamente a Competências Profissionais e sociais

Podemos afirmar que em relação a competências adquiridas ao longo do programa, os utentes manifestaram-se tomando partido de posições diferenciadas. Por um lado, aqueles que ainda estão à espera para entrar anseiam aprender tudo o que estiver relacionado com a tarefa que vão desempenhar, demonstrando grande expectativa nesse sentido.

“Penso adquirir várias competências, a nível de tudo porque ali faz-se um pouco de tudo, desde se andar a varrer as ruas, ir a fazer a recolha de lixo, haver obras, assentar pedras, fazer pronto, calçadas, fazer um pouco de tudo. Vou adquirir bastantes qualidades.” (Vasco).

Por outro, aqueles que conseguiram ser inseridos em áreas em que já tinham trabalhado anteriormente demonstraram que a nível de aprendizagens profissionais não iriam aprender muito, mas sempre que possível, tentaram actualizar-se nos conhecimentos que já possuíam.

59

“Aprender… aprender já não devo aprender muito, porque é assim, o que vou fazer já sei. Minimamente, por isso.” (Francisco).

“Eu como topografo, e que prontos, andei sempre no campo, nunca fiz muito trabalho de gabinete. Eu até pedi, lá ao engenheiro se podia ficar mais no gabinete para me actualizar, desenho de gabinete […] e tentar aprender, aprender tudo o que, assimilar tudo o que pudesse vir […] e actualizei- me muito. Nesse aspecto ele [entidade empregadora] sempre foi amigo, meu amigo, sempre ajudou, no trabalho até porque tinha tempo e pouco trabalho havia.” (Felipe).

Um aspecto bastante valorizado pelos utentes é a sociabilização, encaram isso como uma competência que já tinham perdido, e que através da sua inserção no mercado de trabalho conseguiram-na reconquistar, só o facto de falarem com pessoas no dia-a-dia é-lhes extremamente gratificante. No caso concreto de um utente que tinha sofrido de depressão, o facto de o trabalho ser de atendimento ao público exigia dele um esforço extra, mas um esforço que, segundo ele, é uma mais-valia. Normalmente, a par com a inserção no mercado de trabalho, ocorre a melhoria da escolarização, que eles não consideram menos importante.

“Este trabalho é uma mais-valia para mim no sentido de, da depressão é uma coisa que ajuda bastante porque tenho que lidar com as pessoas aahh faço mais amigos, faço mais conhecimentos é sempre algo bom socializar com as pessoas. E sempre é uma experiência nova, quer dizer, também sou um zero á esquerda na cozinha (riso) mais uma coisa que aprendo. Aahh e depois pronto, adquiro o 9º ano com o RVCC. […] Depois qualquer outro trabalho que encontre onde exija lidar com pessoas, sempre é uma experiência que trago” (Rodrigo).

“Todos os níveis, sei lá, cultura geral, socializar mais com pessoas, por exemplo quando vou, quando saio para fazer alguma coisa, socializar com as pessoas é muito importante, porque eu não tenho, fecho-me muito em mim, ainda tenho medo de socializar com as pessoas e envergonho-me e prontos, isso tem sido uma barreira que tenho vindo a quebrar, porque neste trabalho tenho que o fazer, tenho que tar com pessoas, tenho que falar, tenho e… também a nível pessoal, os estudos, as habilitações literárias, tou a fazer agora o 9º ano e também quero fazer o 11º RVCC, sempre é uma ajuda.” (Jorge).

Resumindo, o estágio não se trata apenas de transmitir e adquirir competências profissionais, transmite e proporciona todo um conjunto de competências pessoais e sociais que eles consideram úteis, mesmo que usufruam apenas da primeira medida de estágio. Tudo o que eles consigam alcançar, seja a nível de trabalho, escolarização, relacionamentos, é

importante.

“Tudo o que é positivo é importante para o resto da vida” (Lara).

“ É um estágio não só a nível profissional, é um estágio a nível de como nos vemos, de como nos integramos, como vemos a sociedade… é o estágio da vida, o estágio do Projecto Vida-Emprego é um estágio da vida em todo o sentido da vida, não é só na vida profissional, na vida da sociedade, pessoal,

60

de família é, ensina-nos muita coisa. Se uma pessoa quiser realmente aprender, aprende muita coisa.” (Júlia).

Através da análise deste ponto, relativo às competências adquiriras, é possível verificar que a inserção no meio laboral fornece os instrumentos necessários para ultrapassar um dos aspectos mais importantes que faz desta população um grupo vulnerável à exclusão social. Não o conseguem, como seria de esperar, de modo automático, porém, aos poucos, vão conseguindo contornar as dimensões da exclusão social, referidas anteriormente nesta investigação. Referindo-nos à questão da desqualificação (Paugam, 2003; Fangueiro, 2005), todo o conjunto de competências sociais e profissionais, o melhoramento das habilitações, as aprendizagens realizadas no local de trabalho, o contacto com outros grupos fora dos contextos da droga e o melhoramento da auto-estima fazem com que eles passem a sentir-se úteis e capazes de participar activamente na vida económica e social da sociedade, o que também modifica a imagem que os outros têm deles. Passam, assim, a possuir menos desvantagens em relação às “estruturas de oportunidades”. Todos estes aspectos fazem com que consigam reestruturar os laços sociais, quebrados enquanto consumiam, com o Trabalho, o Estado, a Família e a Comunidade, ultrapassando, desta forma, a dimensão da desafiliação (Castel in Monteiro, 2004; Fangueiro, 2005).