Uma vez que Amós Oz afirma que De amor e trevas é uma narrativa de memória150 e, não, uma autobiografia, penso que cabe aqui uma pausa para se fazer uma distinção entre os dois termos.
148 OZ. De amor e trevas. 2005. p. 338.
149 Não foi possível encontrar no livro a descrição de uma cena específica acontecida dentro do quarto dos avós.
Talvez o escritor se refira a passagens nas quais não foi testemunha e, por isso, precisou usar sua imaginação, como, por exemplo, a famosa frase de sua avó relatada em De amor e trevas ao chegar em Israel: “O levante está cheio de micróbios”. OZ. De amor e trevas. 2005. p. 132.
150
ALAMEDA, Sol. [Entrevista]. Revista Entrelivros. Disponível em:
A autobiografia já foi considerada literatura de menor valor em comparação com a “verdadeira literatura”. Exemplo disso está no comentário feito por Jovita Gerheim Noronha na apresentação de O pacto autobiográfico, de Philippe Lejeune, sobre o fato de que, nos anos 1970, Serge Doubrovski, ao invés de definir seu livro Fils como autobiografia, preferiu o termo “autoficção”151.
Philippe Lejeune define a autobiografia como “narrativa retrospectiva em prosa que uma pessoa real faz de sua própria existência, quando focaliza sua história individual, em particular a história de sua personalidade”152.
No entanto, segundo o autor, para que essa definição tenha valor é necessário que algumas condições sejam cumpridas: a forma de linguagem deve ser em prosa ou narrativa, o assunto tratado deve girar em torno da vida individual ou história de uma personalidade, a identidade do autor deve corresponder à do narrador, e a narrativa deve ter perspectiva retrospectiva.
Uma autobiografia, para Lejeune, é aquela obra que preenche as condições acima. Distingue-se, por exemplo, das memórias, porque descreve apenas a história de uma personalidade, não apresentando fatos históricos na narrativa; distingue-se das biografias, uma vez que o autor não é a personagem principal do livro. Diferencia-se, também, do diário, porque nesse não há uma perspectiva narrativa retrospectiva.
Segundo Lejeune, é aceitável que algumas condições possam não ser preenchidas totalmente. No entanto, há outras que são condição sine qua non para a definição do gênero e, talvez, a mais importante seja a necessidade da “relação de identidade entre o autor, o narrador e o personagem”153.
Alguns problemas podem advir dessa condição da “identidade” e Lejeune propõe, como essencial, que haja na autobiografia o que ele chama de pacto autobiográfico: “a afirmação, no texto, dessa identidade, remetendo, em última instância, ao nome do autor, escrito na capa do livro”154. Aquele que enuncia o discurso deve permitir que sua identificação seja feita por aquele que o lê, e é no nome próprio que pessoa e discurso se articulam.
Em O pacto autobiográfico, 25 anos depois, de 2001, o teórico revisa o que havia afirmado nos anos anteriores155 e propõe, diante da constatação das dificuldades de definição
151
NORONHA. Apresentação.. 2008, p. 7.
152 LEJEUNE. O pacto autobiográfico. 2008. p. 14. 153 LEJEUNE. O pacto autobiográfico. 2008. p. 15. 154
LEJEUNE. O pacto autobiográfico. 2008. p. 26.
155
nesse campo, que o objetivo deva ser a compreensão da “variabilidade histórica que se abre, ao mesmo tempo, para o passado e para o futuro [...]”156. No entanto, a noção de pacto autobiográfico continua importante apesar de ele usar também, nesse texto, a expressão pacto de verdade. Segundo o autor, o autobiográfico “supõe uma intenção de comunicação, imediata ou diferida”157. Mas, e no caso de alguém escrever para si mesmo? Um diário não seria regido por um pacto? Sua resposta é afirmativa porque “todo diário tem um destinatário, ainda que seja a própria pessoa algum tempo mais tarde”158.
E o gênero memória? No Dicionário Houaiss, pode-se encontrar a seguinte definição: “relato que alguém faz, muitas vezes na forma de obra literária, a partir de acontecimentos históricos dos quais participou ou foi testemunha, ou que estão fundamentados em sua vida particular, memorial”. Ou seja, há uma interferência muito precisa, pode-se dizer, de acontecimentos históricos na vida daquele que escreve.
Wander de Melo Miranda, em Corpos escritos, afirma que há diferença entre a autobiografia e o memorialismo. Miranda afirma que:
A distinção [...] pode ser buscada no fato de que o tema tratado pelos textos memorialistas não é o da vida individual, o da história de uma personalidade, características essenciais da autobiografia. Na memória, a narrativa da vida do autor é contaminada pela dos acontecimentos testemunhados que passam a ser privilegiados159.
Entretanto, essa distinção não se mantém muito nítida, o mais comum é a “interpenetração dessas duas esferas e a tentativa de dissociá-las é devida a critérios puramente subjetivos ou, quando muito, serve de recurso metodológico [...]”160.
Apesar disso, dessa diferença tênue, pode-se dizer que “a autobiografia propriamente dita seria uma auto-representação (o indivíduo assume papel predominante no texto) e as memórias uma cosmo-representação”161.
Oz afirma que De amor e trevas é um livro de memórias por trazer histórias de seus pais, do povo judeu e um espaço de tempo curto de sua vida. No entanto, se se considera a força do pequeno Amós ao relatar seu sofrimento em relação à morte de sua mãe, o dado histórico de certa forma perde um pouco de força e convida o leitor a considerar aquela narrativa como fragmento de uma autobiografia.
156 LEJEUNE. O pacto autobiográfico. 2008. p. 80. 157
LEJEUNE. O pacto autobiográfico. 2008. p. 82.
158 LEJEUNE. O pacto autobiográfico. 2008. p. 83. 159 MIRANDA. Corpos escritos. 1992. p. 36. 160
MIRANDA. Corpos escritos. 1992. p. 36.
161