A partir daquilo que foi mencionado no capítulo dedicado ao trabalho produzido, o guião de exposição virtual, podemos neste capítulo assumir uma posição mais crítica perante aquilo que foi efetivamente realizado. Tendo sido pensado como um tipo de exposição virtual mais “tradicional”, emulando aquilo que já se realizava anteriormente na DSDA e influenciado por aquilo que o Arquivo Nacional Torre do Tombo tem publicado no seu próprio site, a construção do nosso guião de exposição seguiu uma vertente marcadamente textual por forma a dar o máximo de informação possível sobre a Educação Física na escola. Para animar visualmente o texto informativo, recorremos a elementos visuais e iconográficos que apelassem ao aspeto mais estético da Educação Física. Para tal foram utilizados os recursos fotográficos existentes no arquivo da SGMEC e ainda as folhas de rosto de publicações sobre Educação Física presentes na Biblioteca Histórica da Educação. Estas últimas corresponderiam, aquando da publicação no site da SGMEC, a hiperligações que encaminhariam os utilizadores para ficheiros PDF contendo as digitalizações feitas dos artigos selecionados da BHE.
Esta forma de realização das exposições virtuais, mais estática e textualmente pesada, lembra as “exposições virtuais” da década de 90 e dos inícios dos anos 2000, quando as instituições estavam a começar a aventurar-se no âmbito das web exhibitions e ainda não tinham ferramentas e as aplicações tecnológicas a que hoje estamos habituados63. Assim, grande parte das instituições recorreram aos seus sites oficiais para
aí poderem publicar “exposições virtuais” que, à luz dos nossos dias, mais se assemelham a páginas web com algumas hiperligações. Por exemplo, é o caso da exposição sobre a naturalista alemã “Amalie Dietrich, 1821-1891”, uma exposição virtual de 1996 do Australian Science Archives Projects64ou da exposição “Building a National Collection:
150 Years of Print Collecting at the Smithsonian”65 ou ainda, para referir um exemplo
europeu, a exposição virtual “Paisajes Urbanos de América y Filipinas” que surgiu de uma colaboração do Ministério de Educación, Cultura y Deporte com o Archivo General
63 FOO, Schubert (2008) – “Many early VE are undertaken as distinct projects and packaged as stand-alone
exhibits with little regard for the reusability of objects, adoption of standards to support interoperability, extensible and scalable system architectures to support growth and pervasiveness of exhibitions” In Online
Virtual Exhibitions: Concepts and Design Considerations, p. 22.
64 Disponível em URL: < http://www.asap.unimelb.edu.au/bsparcs/exhib/dietrich/dietrich.htm >. 65 Disponível em URL: < http://www.americanhistory.si.edu/prints/ >.
de Indias66. Estas três exposições que acabámos de mencionar partilham entre si algumas
características de fundo. Nomeadamente, a circunstância de assentarem grandemente na parte textual para fornecer informação e de pontuarem esse mesmo texto com algumas imagens. Estas caraterísticas conferem à “exposição virtual” um perfil estático e pouco entusiasmante, especialmente se tivermos em conta aquilo que atualmente se consegue realizar com ferramentas e aplicações tecnológicas mais desenvolvidas ou recorrendo a outras funcionalidades como a introdução de vídeo e som.
No entanto, queremos mencionar que não se pode culpar unicamente a tecnologia pelo que se podia ou não fazer no âmbito da difusão cultural. Temos obviamente de ter em conta não só a autorização e o interesse na difusão por parte da gestão de topo mas também o nível de envolvimento e complexidade que cada instituição pretende investir nos seus projetos de difusão cultural. De seguida, apresentamos dois exemplos contrastantes, mas demonstrativos desta realidade. É o caso da exposição “The Cartoon in Wartime Propaganda” do King’s College Archives67, criada em 2006 e que foi pela
última vez atualizada em 2011. É uma exposição que não surgiu de uma correspondente física, tendo assim a sua única existência no mundo digital. A partir de uma análise mais detalhada deste site percebemos que é um tipo de exposição simples e que usa hiperligações sob formas de menus para se aceder aos vários módulos temáticos nos quais se organiza. Neste sentido, é uma exposição mais simples e que, no nosso entender, não exigiu grande nível de complexidade no que respeita à sua execução.
Por outro lado, temos o exemplo da exposição “Jasenovac. Holocaust Era in Croatia 1941-1945”68 do National Museum de Washington que, em 2002, ganhou o
prémio de Best of the Web69. Esta mesma exposição, construída com base em linguagem
flash, permitia exibir não só texto, mas também imagens, vídeo e algumas animações, especialmente na transição entre os menus que organizam a exposição. É um tipo de exposição que, para o momento em que foi criada, exigiu uma equipa técnica mais alargada e com diferentes valências, o que se terá refletido certamente no orçamento para
66 Disponível em URL: < http://www.mcu.es/archivos/CE/ExpoVisitVirtual/urbanismo_WAI/index.html >. 67 Disponível em URL: < http://www.kingscollections.org/exhibitions/archives/the-cartoon-in-wartime-
propaganda/ >.
68 Disponível em URL: < https://www.ushmm.org/exhibition/jasenovac/frameset.html >.
69 Para consultar a lista dos premiados, consultar a seguinte ligação: <
a produção da respetiva exposição. Estes dois exemplos ilustram bem as diferenças no tipo de investimento que foi feito na criação destes produtos, sendo algo que não se prende unicamente com o tipo de tecnologia disponível no âmbito cronológico em que foram criados. Porém, o nível de interesse das chefias pela difusão cultural de uma determinada instituição pode estar diretamente ligado ao tipo de investimento — tecnológico, financeiro, humano — que se queira atribuir aos projetos de difusão cultural. Apesar dos aspetos menos positivos que mencionámos conseguimos perceber, no entanto, a intenção que está por trás da sua criação. Nem todas as organizações possuem um orçamento suficientemente capaz ou pelo menos flexível o suficiente para suportar todos os custos envolvidos no que ao planeamento e conceção de uma exposição virtual dizem respeito. Percebemos também que ainda assim existem profissionais que se importam com a questão da difusão cultural e que, por esse motivo, se preocupam em criar produtos mais simples, mas que possam ir ao encontro dos objetivos de difusão: o de mostrar à sociedade o potencial e o interesse da documentação da sua instituição. Se a forma como o fazem é antiquada, pouco entusiasmante ou aborrecida, pelo menos conseguimos reconhecer que existiu um esforço por parte da instituição em criar produtos que vão além dos serviços mais tradicionais de um serviço de arquivo, a permissão ao acesso e à consulta dos documentos de arquivo.
É neste enquadramento prático, o de grandes constrangimentos financeiros e de contenção de despesas na Administração Pública, que podemos integrar aquilo que foi realizado âmbito do nosso estágio na Direção de Serviços de Documentação e de Arquivo. A premissa do nosso estágio seria contribuir para a concretização de um produto de difusão cultural que não envolvesse gastos ou a exigência da aquisição de ferramentas tecnológicas. E enquanto produto concebido no âmbito destas circunstâncias, achamos que criámos conteúdo que servirá de base à criação de uma possível e futura exposição virtual assim que as condições na SGMEC o permitam. No entanto percebemos que é necessário trabalhar um pouco mais o texto para que, onde quer que a exposição virtual possa vir a ser hospedada, não se torne textualmente pesado e/ou graficamente desinteressante.