O propósito desta dissertação não ambiciona preparar uma história das bibliotecas em Portugal, muito menos na Europa. Não obstante, também seria difícil prosseguir omitindo liminarmente a situação em geral das bibliotecas no século XVIII, em Portugal e na Europa,
como se acreditássemos que os contactos e as influências pudessem não ter tido lugar. Assim, incluiremos aqui algumas referências a bibliotecas tentando sempre conjugar informação recolhida em bibliografia actual com a utilização de textos setecentistas. Especificamente para o caso português, valorizaremos o testemunho dos viajantes europeus em Portugal; são fontes usadas vezes e vezes sem conta mas essa contínua utilização não lhes retira nem o valor histórico nem o interesse. Sempre a pensar no caso português, introduziremos textos pouco conhecidos – ou desconhecidos por completo – da autoria das próprias personalidades que emergem a partir da nossa investigação. Quanto às bibliotecas europeias e a impressão que possam ter causado sobre viajantes portugueses, referimos apenas o caso de Cenáculo em Roma.
Esta panorâmica impõe-se porque estando em causa avaliar um novo tipo de biblioteca o qual, do nosso ponto de vista, se concretiza na Real Biblioteca Pública, convém identicar, se for o caso, outras bibliotecas com procedimentos ou preocupações semelhantes para melhor poder traçar uma linha entre estas e aquela, uma espécie de “última fronteira” entre as bibliotecas como sempre existiram e uma outra que, ao incorporar novos procedimentos, passa a representar outro paradigma. O que, em termos gerais, temos designado de transição para a modernidade.
4.1 – Uma panóplia de testemunhos
No caso concreto do século XVIII, são vários as personalidades portuguesas que viajam por essa
Europa recolhendo informação, deixando-se surpreender pelas manifestações culturais, absorvendo soluções, registando ideias e atitudes novas. Regra geral, a informação que se capta a partir dessas viagens e desses viajantes incide sobretudo sobre os livros que os
fascinaram ou que adquiriram, mas comentários sobre as bibliotecas propriamente ditas não aparecem ou são escassas. Como não estamos a utilizar as fontes primárias, esta observação é feita sob reserva. Os viajantes em que estamos a pensar ou vão participar em determinados eventos de ordem religiosa ou são emissários régios, por exemplo de D. João V, com o objectivo específico de comprar ou encomendar livros. Destacamos D. João V porque para além de este monarca o ser em pleno século XVIII e durante toda a sua primeira metade, de
facto, ele preocupou-se com a aquisição de manuscritos, livros, gravuras e mapas, aquisição feita na Europa através de emissários propositadamente indigitados e com a qual gastou avultadas verbas. Não discutiremos os motivos de tamanho empenho; o que nos interessa é perceber o destino e utilização desse impressionante acervo documental uma vez distribuído pela Biblioteca de Coimbra, pela do Convento de Mafra, pela Livraria Real ou pela Biblioteca dos Oratorianos.
Emissários régios ou não, os viajantes portugueses não têm exactamente o mesmo perfil daqueles viajantes que se deslocaram até Portugal manifestando uma curiosidade e um espírito explorador tão característico do século XVIII 148 aos olhos dos quais não escapou a
observação crítica sobre o quotidiano, os hábitos, as tradições culturais. Descer à Península Ibérica também oferecia a garantia de ir ao encontro de uma dose de exotismo como se se tratasse de viagem para paragens mais longínquas como a Grécia, o Império Otomano ou o Médio Oriente. Como bem se sente quando se goza a leitura dos relatos feitos por esses viajantes anglo-saxónicos e franceses sobre Portugal, o que neles se descreve é o impacto com esta espécie de “Nouveau Monde imaginaire”149. Na verdade, uma vez que se trata de dois
tipos de viajantes, não espanta que obtenhamos dois tipos diferentes de observações e relatos. A todos os títulos, a observação que Gusdorf faz sobre a mordacidade de Montesquieu nas Lettres Persanes, tem todo o cabimento quando pensamos nos viajantes portugueses em terras além-Pirinéus: “La distanciation largue les amarres des évidences familières; l’éloignement et l’absence sont médiateurs d’une présence d’un type nouveau […] L’exotisme du dépaysement est le premier pas vers une conscience nouvelle de l’universalité” 150. Verdade que os viajantes portugueses não procuravam o exótico mas, pelo contrário, o confronto com outras realidades culturais despertava-lhes uma nova consciência; ora, os estrangeiros em
148
HAZARD, Paul – A crise da consciência europeia. 1948. 149 G
USDORF, Georges – « Préface, commentaires et notes ». In MONTESQUIEU– Lettres persanes. 1984 : IX.
Portugal perante factos muitas vezes incompreensíveis para eles, apesar disso, eram obrigados a relativizar a sua convicção de superioridade. Como é que os viajantes estrangeiros assumiram este “dépaysement”, é uma discussão que extravasa o âmbito da nossa investigação; pelo contrário, reunir elementos e compreender como é que os viajantes portugueses deram continuidade às experiências vividas no estrangeiro, já nos atinge directamente. Citando Usbek, figura das Lettres persanes, “Tu as quitté ta patrie pour t’instruire […]”, passo indispensável para alargar o pensamento e ser capaz de rever a pátria com novo olhar, anulando a profecia contida nas palavras que se seguem “et tu méprises toute instruction” 151. O debate em causa desenvolve-se à volta desta nova atitude e vontade de
conhecer, de um cosmopolitismo que separa pessoas e divide territórios, relativizando o centralismo que a Europa reivindicava, e se esta característica das Luzes assiste os viajantes estrangeiros na sua descoberta de Portugal, parece difícil ser tão assertivo em relação aos objectivos dos viajantes portugueses. Entre o viajar para o Sul e o viajar para o Norte, estabelece-se um certo equilíbrio e alguma complementaridade: enquanto uns procuram sinais do exótico e do desconhecido, outros procuram encontrar o conhecimento e as raízes mais profundas da história e cultura ocidental. Sempre reconhecendo as diferenças inegáveis como se infere da expressão de Frei Joaquim “[…] é certo que se despe de muita bisonhice quem vem adestrar-se a países estranhos”152.
Seja como for, é a descoberta e consequente aceitação da pluralidade cultural que está em causa e, equacionado assim o problema, uns e outros, na verdade, partiram na senda desses novos horizontes. Como é que uns e outros percepcionaram as bibliotecas? As bibliotecas constituíram motivo de interrogação?
4.1.1 – Bibliotecas portuguesas na pena de viajantes estrangeiros – Durante o século XVIII são
muitos os forasteiros que circulam em Portugal153. Os respectivos relatos ou notícias variam no
151 Idem, ibidem: XV. Ver Carta CVI, Usbek a Rhédi, Venise. 152 S.J
OSÉ, Joaquim de – Diário do Rmo P. M. Dor Fr. Joaquim de S. José na jornada que fez ao Capo Gal de Roma em
1750. [17 Dia de Jornada, em 28 de Fevereiro]. BPE CV 1-10 d.
153 Consultámos os relatos de B
ALBI, Adrien – Essai statistique sur le Royaume de Portugal… 1822; BARETTI, Joseph
- A journey from London to Genoa through England, Portugal, Spain, and France… 1790 (Trad. Portuguesa de
1896); BECKFORD, William – Diário…[1787-1788]. 1988; BLANKETT, John – Letters from Portugal [1777]… cop. 1777 ; BOMBELLES, Marquis de – Journal d’un ambassadeur de France au Portugal 1786-1788. 1979 ; CARRÈRE, J. B. F. – Panorama de Lisboa no ano de 1796… 1989; COX, Thomas – Relação do Reino de Portugal 1701… 2007;
CROKER, Richard – Travels through several provinces of Spain and Portugal. 1799; GORANI, Giuseppe – Portugal:
a Corte e o País nos anos de 1765 a 1767. 1992; LINK, H. F. – Notas de uma viagem a Portugal… [1797]. 2005; PECCHIO, Joseph – Six mois en Espagne… 1822; O Portugal de D. João V visto por três forasteiros… 1989;
estilo, na objectividade e, naturalmente, nos assuntos abordados. Alguns são mais directos nas suas observações, outros revelam não ter entendido a sociedade que visitavam e podemos afirmar que os relatos de James Murphy, tanto o de 1795 como o de 1798154, foram os que mais nos impressionaram pelo esforço que representam para conseguir uma descrição objectiva e imparcial, os que tentaram uma leitura a partir de dentro, isto é, sem modelos apriorísticos. Quanto ao texto de Balbi, embora seja posterior ao período histórico em análise, o seu rigor fazem dele uma fonte obrigatória.
Uma vez que o interesse dos textos é desigual, deixamos já de parte, por não conterem informação que nos interesse ou de tal forma irrelevante, a obra de Cox, os textos coligidos em
O Portugal de D. João V…, a descrição do próprio Ruders, as cartas de Blankett, o texto de
Pecchio e também o de Croker. Também não encontrámos dados que pudéssemos usar para o fim em vista em Gorani e em Southey.
As bibliotecas existentes não impressionaram nenhum dos viajantes que citamos. Joseph-Barthélemy-François Carrère em 1796, depois de passar em revista o que encontrou em matéria de gabinetes de antiguidades e medalhas, comenta que “há ainda em Lisboa uma biblioteca pública. As bibliotecas particulares são pouco numerosas e as mais escolhidas muito raras. A mais rica é a dos monges regulares de Santo Agostinho, em São Vicente de Fora – contém cerca de doze mil a catorze mil volumes”155. O comentário de Carrère, pouco
convincente, é ultrapassado pelo que Link deixou, bem mais profundo. Uma vez que do texto de Link se recolhe alguma informação mais sólida, vale a pena destacar este viajante.
Heinrich Friedrich Link (1767-1851), alemão, adquire formação universitária em medicina e virá a interessar-se particularmente pela botânica, vem a Portugal em 1797, exactamente numa missão de estudo botânico com o Conde de Hoffmansegg 156, período de que data o seu relato. Esta viagem a Portugal é considerada pelos seus biógrafos como um verdadeiro ponto de viragem na definição dos interesses científicos de Link enquanto o seu
RUDERS, C. I. – Viagem em Portugal 1798-1802. 1981; SOUTHEY, Robert – Letters written during a short
residence in Spain and Portugal. 1797; TWISS, Richard – Travels through Portugal and Spain in 1772 and 1773. 1775.
154 M
URPHY, James – Travels in Portugal through the Provinces of Entre Douro e Minho, Beira, Estremadura, and
Alem-Tejo… 1795. Tb. MURPHY, James – A general view of the state of Portugal… 1798. 155 C
ARRÈRE, J.B.F. – Obra cit.: 109 156
Desta sua viagem científica a Portugal, Link deixa uma recolha magnificamente documentada em Flore
portugaise ou description de toutes les plantes qui croissent naturellement en Portugal avec figures coloriées, cinq planches de terminologie et une carte. 1809-1920 hoje justamente considerada como um dos tesouros
relato introduz uma “transformação qualitativa”157 na forma como Portugal é descrito,
alteração certamente notória nos seus comentários sobre bibliotecas. A comprovar esta afirmação, citemos Link: “Em Lisboa existem também bibliotecas públicas que não serão porventura das melhores, mas não são de modo algum tão más como alguns viajantes, que se contentam com uma olhadela rápida, as gostariam de fazer”158. Link terá, pelos vistos,
prestado mais atenção do que outros viajantes estrangeiros o que, aliás, não é de admirar dada a sua formação científica. Mais adiante, Link prossegue: “A biblioteca principal encontra- se no grande edifício da praça do Comércio e tem algumas obras de importância e entre elas mesmo algumas de história natural”159. Depois de se referir “à biblioteca no convento
beneditino de Nossa Senhora de Jesus”160 (cremos que se trata de um engano do próprio Link), elogiando-a, conclui “Em suma, ambas estas bibliotecas se poderiam comparar a muitas bibliotecas públicas de importantes cidades alemãs”161 para logo passar a “uma terceira
biblioteca, no convento de S. Vicente de Fora, [que] não é com efeito pública, mas para a poder frequentar regularmente basta ser apresentado. Inclui uma colecção muito completa, até das mais pequenas obras portuguesas”162. Este conjunto de impressões deixado por Link
têm, efectivamente, algum interesse porque não se trata mais do simples enunciado de que existe aqui uma biblioteca, ali outra, que esta é grande e aqueloutra enorme. E esta distinção entre o que entendia por “públicas” é muito importante porque não basta contabilizar as bibliotecas existentes para tentar compreender o seu papel na sociedade da época. Do mesmo modo, a observação de Link a respeito da biblioteca da Universidade de Coimbra é muito clara: “A biblioteca pública ocupa uma pequena igreja que no interior mudou muito pouco163. É difícil
formar uma opinião acerca de uma biblioteca quando não se pode estudar o seu catálogo. O número de volumes é considerável e, de acordo com o que o professor Brotero164 nos disse, parecem mesmo faltar obras mais recentes. É também assiduamente frequentada e utilizada pelos estudantes”165
. Quanta informação em um comentário tão sucinto! Percebemos que as instalações não seriam as melhores, talvez mantivessem mesmo as características ambientais
157 Este brevíssimo apontamento bio-bibliográfico foi preparado a partir de C
LARA, Fernando – “Luzes e sombras”.
In LINK, Heirich Friedrich – Notas de uma viagem a Portugal… 2005. 158 L
INK, H. F. – Obra cit.: 138.
159 Idem, ibidem: 139. 160 Idem, ibidem: 139. 161 Idem, ibidem: 139. 162 Idem, ibidem: 139. 163
Talvez se trate de referência aos antecedentes que remontam ao Colégio de S. Pedro. 164 Félix de Avelar Brotero, 1744-1828, professor de Botânica na Universidade de Coimbra. 165 Idem, ibidem: 183.
e arquitectónicas de um local de culto; o catálogo, ou era inexistente ou não estava disponível e, em matéria de provisão, sugere que as aquisições teriam parado no tempo, observação preciosa para se poder fazer a separação entre dois tempos. Convém acrescentar que sobre a biblioteca de Coimbra, Carrère que também visitou a Universidade, não dá nem uma palavra; não que os comentários de Carrère alterassem alguma coisa, mas esta omissão deve ser anotada.
Ruders também deixou as suas impressões sobre a biblioteca pública em Lisboa: “Costumo, agora, passar uma boa parte do meu tempo na Biblioteca Pública, principalmente na Biblioteca Real, onde, diariamente, vão muitas outras pessoas para ler ou fazer extractos”166, observação que pouco adianta, pelo contrário, ainda confunde mais com a
distinção incompreensível entre Biblioteca Pública e Biblioteca Real. Não existe nenhuma documentação que permita aceitar esta separação a qual até podia ter acontecido em matéria de arrumação e acesso aos livros, mas não temos notícia. Ruders não se pronuncia sobre Coimbra, mas sobre Mafra deixou o seguinte comentário: “Na grande sala da Biblioteca os livros acham-se muito bem dispostos, e a maior parte estão magnificamente encadernados, formando, no seu género, um belo aspecto. Diz-se que o número de volumes ultrapassa 50000. Os catálogos muito bem organizados por matérias e nomes, são mais explícitos que os da Biblioteca Real de Lisboa”167. Esta é, certamente, uma informação a reter e que, em
investigação futura, valeria a pena explorar.
Sobre Mafra, Baretti também deixa as suas observações muito embora não acrescentem nada de novo. Bombelles, de passagem, sempre vai anotando que a biblioteca de Mafra é gigantesca168. O que de melhor se extrai do texto de Baretti é o seu comentário generalista sobre o valor dos livros no Portugal pós-Terramoto. E reproduzimos: “The fire that follow’d it, has destroyed many public and private libraries in this metropolis, and a Portuguese book of any note is now become as dear as a ruby”169
. Valioso como um rubi, não era caso para menos, o Terramoto destruíra, senão tudo, uma boa parte e desorganizara a outra parte. É difícil de conceber um cenário daqueles: o que não havia sido tragado pela terra, foi devorado pelas chamas. Podemos sempre utilizar ou a descrição de Cenáculo sobre o
166
RUDERS, Carl I. – Obra cit.: 174.
167
Idem, ibidem: 220-221. 168 B
OMBELLES, Marquis de – Obra cit: 307 [Le 16 (avril 1788) à Mafra]. 169 B
estado das bibliotecas após o Terramoto170, ou recorrer à descrição sobre a situação do Convento de Jesus171 para mais facilmente visualizarmos o desastre: em 1768, Cenáculo dirige a recuperação do Convento, onde “não havia casa de Livraria achando-se os livros a monte fechados em diversas paragens”172. Em 1777, quando Cenáculo parte para Beja, a recuperação
continua e na década de 90, sob a direcção do Pe José Mayne, os trabalhos ainda não haviam terminado. De facto, não se tratava apenas das obras mas de reconstituir fundos bibliográficos que haviam sido afectados, perdendo o nexo, empreendimento muitíssimo mais complexo pelas componentes que requer: conhecimento temático, actualização sobre autores e obras, identificação da possível localização, aquisição e arrumação incluindo o catálogo e a classificação.
O testemunho de Beckford é, em certa medida, uma desilusão. Pelo seu estatuto e formação, não seria demais esperar um testemunho de peso, o que não acontece. William Beckford (1760-1844), aristocrata inglês, escritor e erudito, viajou largamente pela Europa concretizando com o Grand Tour um dos ideais das Luzes, e deslocou-se a Portugal por três vezes. Os textos utilizados para esta análise, reunidos na edição actual da BN, correspondem à sua primeira visita entre Maio e Novembro de 1787. Pela sua origem social, em Portugal, teve acesso à própria Corte. Não só a facilidade com que escreve torna o seu testemunho muito interessante, como a sua educação lhe permite captar – com objectividade mas também com ironia – muitos aspectos da sociedade portuguesa, ao que ainda junta o acesso a fontes muito bem colocadas. Tudo somado, os escritos de Beckford tornam-se inquestionavelmente imprescindíveis. Infelizmente o seu relato não se interessou pelas bibliotecas portuguesas. Deixou um brevíssimo comentário sobre o livro e a leitura “em casa dos Marialvas não se vê um livro. Esta gente nunca lê”173
a partir do qual seria desadequado extrapolar. O comentário sobre a biblioteca de Mafra pouco acrescenta ao que já reuníramos a partir de outros viajantes: “A biblioteca é de um tamanho prodigioso […] Não se pode dizer grande coisa dos armários em que os livros hão-de ser arrumados. São salientes de mais, amontoados de maneira pesada e, ainda por cima, escurecidos por uma galeria que anda em volta, no género
170 C
ENÁCULO, Manuel – Memórias históricas…1794: 46.
171 “Relação dos Factos que na sua simplicidade e verdade manifesta qualificam a boa administração da Província da Ordem Terceira da Penitência em os nove annos que decorreram desde Março de 1768 até Fevereiro de 1777. Papel feito pelo Sr. Bispo de Beja sobre as questões com seu irmão Fr. António Martins da Soledade” in
Collecção de Papeis Ecclesiasticos, e Civis do uso de Fr. Vicente Salgado. [Depois de 1777]. BAC Ms. 136 V.
172 Idem, ibidem. 173 B
de uma prateleira, e se projecta dentro da sala de forma realmente esquisita. A colecção de livros, que se compõe de, pelo menos, sessenta mil volumes, está actualmente instalada numa série de gabinetes que comunicam com a biblioteca. O irmão bibliotecário mostrou-me algumas curiosas 1as edições de clássicos gregos e latinos”174. Aproveitou a estadia em Lisboa para visitar a Casa da Divina Providência175 e a biblioteca do Mosteiro dos Jerónimos176.
Deste conjunto de testemunhos, com excepção honrosa para Link, muito pouco se retira e aquilo que se consegue extrair é quase ao nível do anedótico. Cinco bibliotecas merecem algum destaque embora nem todas pelas mesmas e boas razões: a Real Biblioteca em Lisboa, a do Mosteiro de S. Vicente de Fora, a do Convento de Jesus, a de Mafra e a da Universidade de Coimbra. Não podemos descansar no conteúdo das observações, feitas por pessoas de passagem, nem todas com formação que lhes permita fazer um juízo acertado daquilo que viram. No entanto, são estas que merecem a sua atenção e os dados que coligiram deveriam ser suficientes para abrir linhas de investigação. Pela nossa parte, procuraremos trabalhar no sentido de clarificar a situação envolvendo a Real Biblioteca. No tocante à Biblioteca do Convento de Jesus e à acção de Fr. Manuel do Cenáculo, voltaremos em 6.2.
Propositadamente deixamos para o fim o testemunho de Adrien Balbi (1782-1848) por o termos como mais substancial. Geógrafo veneziano, vem a Lisboa em 1819-1820, tentando preparar um “resumo de todos os recursos do reino”177 para colmatar “a ignorância em que
tem estado a Europa sobre tudo o que diz respeito a Portugal, produzido pela sua posição que não convida a visitá-lo muitas vezes, e pela falta de gazetas e de obras periódicas que publicassem o que, entre os Portugueses, merece ser louvado”178. O motivo para tal levantamento geral é certamente meritório, e leva Balbi a organizar o que ele designa de “geografia literária”. É nesse patamar que iremos encontrar os elementos que mais nos interessam.
Sem esquecer que este levantamento acontece já no século XIX quando o período em
análise é o da segunda metade do século XVIII, os elementos recolhidos não deixam de ser
úteis. Balbi reconhece que existem poucas bibliotecas públicas e destaca a Biblioteca Nacional,
174 Idem, ibidem: 117 [Segunda-feira, 27 de Agosto].
175 Desenvolveremos um pouco mais quando abordarmos a questão das doações à Real Biblioteca Pública da Corte em 6.3.5.
176
Beckford, William: 145 [Domingo, 14 de Outubro]. 177
Apud MAGALHÃES, Joaquim Romero – “Palavras prévias”. In BALBI, Adrien – Essai statistique… Ed. Facsimilada 2004, vol. 1: 7.
digna sucessora da Real Biblioteca Pública da Corte. Descreve-a e deixa bem sublinhado a desactualização das colecções científicas (facto que Link também tinha comentado) e refere