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10.1 Further work

Ainda no início de sua carreira literária, no ano de 1878, Eça escreveu em uma carta ao amigo Teófilo Braga:

A minha ambição seria pintar a sociedade portuguesa, tal qual a fez o Constitucionalismo desde 1830 – e mostrar-lhe, como num espelho, que triste país eles formam – eles e elas. É necessário acutilar o mundo oficial, o mundo sentimental, o mundo literário, o mundo agrícola, o mundo supersticioso – e com todo o respeito pelas instituições que são de origem eterna, destruir as falsas

interpretações e falsas realizações que lhes dá uma sociedade podre153.

Tendo a Arte como meio e a Literatura como processo, Eça pintou, com palavras, a sociedade portuguesa que testemunhou e fez, de cada um dos seus livros, reflexos de uma época que viveu intensamente. Para isso, baseou todo o seu processo criativo em três pilares, que julgava indispensáveis em qualquer manifestação artística: a verdade, a justiça e a beleza. Ser fidedigno na transposição da realidade, por mais triste que ela fosse; ver a arte como um instrumento revolucionário, que pudesse interferir nessa mesma realidade; e, por fim, cuidar para que esta expressão fosse bela na sua forma e nunca meramente panfletária. Tal foi o compromisso assumido por Eça como escritor.

Esses princípios transparecem em toda a sua literatura através dos temas abordados, enredos desenvolvidos, personagens universalizadas e, também, nos espaços criados e recriados. O olhar que lançou para o espaço português finissecular foi cuidadosamente registrado e trabalhado, tendo se dedicado com o mesmo empenho à sua constituição literária. A composição espacial de seus romances explora ao máximo a tênue linha que separa ficção e realidade. Traz para seus textos nomes de ruas, de bairros, de hotéis e de restaurantes que de fato existem ou que já existiram; faz referências a endereços onde supostamente viviam suas personagens. Esse realismo era necessário para criar a verossimilhança literária, para qualificar socialmente suas personagens, para possibilitar um rebatimento, uma identificação por parte dos leitores com tais espaços, e era condizente com o princípio da verdade, considerado, então, indispensável.

ARQUITETURA DE PALAVRAS. ESPAÇO E ESPACIALIDADE EM A CAPITAL! DE EÇA DE QUEIROZ.

Depois de algumas décadas da morte do escritor, ocorrida em 1900, distando-se uns bons anos do período compreendido por suas obras, duas situações começaram a acontecer: na primeira delas, críticos, estudiosos, jornalistas e historiadores perceberam que seus romances podiam ser considerados fontes preciosas – guardadas as devidas reservas – para o entendimento político, social e econômico do Portugal oitocentista; a outra situação, mais curiosa, é que leitores de vários locais e países, quando de passagem ou estadia em Portugal, procuravam identificar nas cidades citadas em seus romances (Lisboa, Leiria, Sintra, entre outras), numa espécie de nostalgia ficcional, os espaços queirozianos, isto é, os lugares por ele referenciados como sendo a residência de alguma personagem ou mesmo um local por ela freqüentado.

Ambos os casos advêm do fascínio exercido pelos espaços criados por Eça nos seus leitores e constituem provas reais da importância do espaço avultada no universo romanesco queiroziano. Sobre esse assunto, existem trabalhos muito interessantes realizados por pesquisadores renomados e que abordam o tema com diferentes olhares e metodologias.

Quando das comemorações do centenário de nascimento de Eça, em 1945, foi organizado um livro: uma coletânea de artigos com temas variados, de diversos pesquisadores. Dentre esses textos distingue-se um em especial – Eça de Queiroz – entre o campo e a cidade, de Antônio Cândido. Nele, o autor observa que, ao longo de toda a obra do escritor, há uma espécie de diálogo entre o campo e a cidade, ora com o predomínio de um, ora sobressaindo o outro. Nos primeiros romances, a visão urbana é mais acentuada, mesmo quando o tema é rural ou semi-rural, como no caso de O Crime do Padre Amaro. A esse respeito escreve o autor:

[Em O Crime do Padre Amaro] Eça encarou Leiria do ponto de vista da grande cidade, isto é, movido menos a compreender para justificar do que para verberar. Para ele, a humanidade da província ainda é, nesta fase da sua obra, um problema social a resolver. Com efeito, um dos ideais do romance naturalista, o objetivismo científico, foi bem cedo contrabalançado e comprometido por outro ideal, herdado dos românticos – o normativismo social. De acordo com essa noção, dá aos seus primeiros livros uma inflexão combativa, uma função de luta e de reforma154.

Para Cândido, o escritor acreditava na cultura urbana do tempo, e o olhar que lançava para a província era de um homem que partilhava de alguma forma a vida na capital, percebendo no campo apenas a estagnação do seu país, com seus costumes conservadores, mantidos pelos seus grupos mais representativos: o clero, a aristocracia e a burguesia. Todas essas características iam de encontro com o que Eça acreditava, pois, educado dentro dos ditames da cultura francesa, “concebia a sociedade como um

154 CANDIDO, Antônio. Eça de Queiroz – entre o campo e a cidade in PEREIRA, Lúcia Miguel e REIS, Câmara (orgs). Livro do

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organismo em progresso constante, impulsionado pela técnica industrial, sob o signo da

concorrência econômica” 155. Depois, sobre O Primo Basílio, romance urbano por

excelência, Cândido escreve:

Em Lisboa, o pecado se despoja da agressividade e da força que lhe dá a vizinhança da terra, da natureza, para se requintar em sentimentos enervantes, em lassidões, - em vício, numa palavra. Lisboa não apresenta mais saúde social do que Leiria, e o campo se engrena com a cidade para completar a visão pessimista da sociedade portuguesa156.

Nesta realidade pouco próspera nasce toda a contradição do final do século XIX: o sentimento moderno, de civilização e de progresso, em meio a uma sociedade impotente, incapaz de desenvolver um estilo original de vida ou de pensamento.

Porém, Cândido acredita que os longos anos que o escritor viveu no exílio abrandaram o seu espírito combatente e sarcástico. Eça não era mais o homem que acreditava que a salvação do país estava na introdução do progresso técnico e científico e na extinção do paternalismo agrário. Pouco a pouco, ele se permitiu ser seduzido pelo velho Portugal:

Com o passar do tempo, os seus romances irão revelando, pouco a pouco, um abandono do ponto de vista urbanista em proveito do sentimento rural, em proveito daquele mesmo passado que ele a princípio renegou integralmente.

Os Maias exprimem com nitidez este recuo ou, se quiserem, progresso. O eixo moral do livro é o contraste entre a vacuidade da superficialíssima civilização burguesa de Lisboa – dos seus politicóides faladores, dos seus literatos estéreis, dos seus aristocratas sem consistência moral – e a vida reta, digna e saudável dos tipos de “boa cepa rural”, como o velho Afonso da Maia e o Marquês de Souzelas157.

Para Cândido, tamanha foi a convicção de Eça nas qualidades do campo como formador de homens de caráter, com valores tradicionais portugueses, que o próximo livro escrito e considerado pelo autor como a grande obra-prima queiroziana foi um romance rural: A Ilustre Casa de Ramires.

Verificamos então um fato da mais transcendente importância para a interpretação do nosso romancista: parece que ao encontrar-se plenamente com a tradição do seu país, ao realizar um romance plenamente integrado no ambiente básico da civilização portuguesa – a quinta, o campo, a freguesia, a aldeia, a pequena cidade; Santa Ireneia, Bravais, Vila-Clara, Oliveira – parece que só ao fazê-lo Eça de Queiroz conseguiu produzir um personagem profundamente humano, por que dramático e complexo: Gonçalo Mendes Ramires.

[...]

A preocupação urbana da reforma social não se manifesta mais aqui; reconciliado com o velho sentido da civilização pátria, o romancista vai encontrando no campo repouso para a sua inquietude. Bem ou mal organizado, não importa, o campo lhe aparece como lugar de poesia e de tranqüilidade, em que as energias se retemperam e o espírito descansa158.

155 CANDIDO, Antônio. Eça de Queiroz – entre o campo e a cidade in PEREIRA, Lúcia Miguel e REIS, Câmara (orgs). Livro do

Centenário de Eça de Queiroz. Lisboa: Rio de Janeiro: Edições Dois Mundos, 1945, p. 137.

156 IDEM, p. 140. 157 IDEM, p. 144-145. 158 IDEM, p. 147.

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Em A Cidade e as Serras, o estilo de vida campestre e bucólico é tão exaltado que o equilíbrio obtido no romance anterior é perdido, porém só vem a corroborar a idéia de que Eça havia superado definitivamente seus sentimentos combatentes, que havia se reconciliado com seu país e que já se encontrava na fase resignada, ou melhor, compreensiva de sua vida, concluiria Antônio Cândido no final de seu artigo.

Outro trabalho dedicado ao estudo do espaço português no romance eciano é de autoria da pesquisadora Beatriz Berrini. O sétimo capítulo do livro Portugal de Eça de Queiroz é inteiramente dedicado ao tema. Nele, a autora debruça-se em elementos representativos do modo de vida oitocentista: religião, política, moradia, alimentação, relações pessoais e sociais. Entende a reiteração constante do binômio campo/cidade na

obra queiroziana como algo de “significado especialmente simbólico” 159. Escreve:

O homem é a causa de todos os males, desvirtuando a natureza, corrompendo a nação, destacando-se pela ignorância e malandrice, sordidez e egoísmo. Tudo em que toca parece ficar contaminado160.

Deste modo, os espaços onde a natureza permanece quase intocada aparecem ao longo dos textos de forma enlevada, em composições praticamente líricas. Para Berrini, “a

natureza genuína, bela, é um leit-motiv recorrente” 161. Plantas e flores, céu, mar e frescura

de águas, ar puro, nuvens: todos eles ganham adjetivos nobres formando passagens poéticas e pictóricas. A autora compara certas descrições com o movimento impressionista, aproximando as palavras aos quadros de Goya ou ao realismo de Courbet.

Os ambientes urbanos, por sua vez, seriam vistos por uma óptica pessimista: ruas sujas, paredes enxovalhadas, escadas escuras, o mau cheiro de amoníaco. Mas mesmo nesse ambiente urbano de Lisboa aparece de repente, em oposição, uma nesga de céu azul, um sol forte ou uma imagem resplandecente do rio. Em outras cidades ou quintas, esta contraposição não acontecia, pois a paisagem natural convivia em plena harmonia com os ambientes tocados pelo homem. São os casos de Coimbra, Sintra, Santa Olávia, Vila Clara, entre outras. Nesses espaços, escreve Berrini que havia sempre a paz e a frescura dos campos, com o branco das casarias rebrilhando ao sol, destacando as árvores dos quintais e o verde dos terrenos vagos. Mas e os ambientes internos, as casas das personagens? Como eram compostos? A esse respeito, a autora esclarece:

Em todos os espaços habitados, pois, Eça privilegia aqueles mais ligados com a trama e/ou personagens, e os que melhor contribuem para retratar a vida portuguesa, familiar e social, urbana, provinciana, ou rural, dentro da sua visão crítica162.

159 BERRINI, Beatriz. Portugal de Eça de Queirós. Lisboa: Imprensa Nacional e Casa da Moeda, 1984, p. 317. 160 IDEM, p. 317.

161 IDEM, p. 319. 162 IDEM, p. 335.

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Ao longo de toda a obra queiroziana, existem diversas moradias marcantes: em O Crime do Padre Amaro há a casa da S. Joaneira à Rua da Misericórdia, a casa da Rua das Souzas, para onde Amaro se muda e a casa do sineiro, onde ocorrem os encontros com Amélia; no Primo Basílio há a residência de Jorge e Luísa na Calçada da Patriarcal e o Paraíso fixado à Rua de Arroios; na Relíquia a moradia da Titi, no Campo de Sant’Ana, é fundamental dentro da estrutura do romance, principalmente o espaço do oratório; nos Maias, são várias as casas que adquirem importância – o Ramalhete, “sempre fatal aos Maias”, Santa Olávia, a Toca, a Vila Balzac; na Ilustre Casa de Ramires têm-se a Torre e seu solar; por fim, em A cidade e as Serras existe o palacete de Jacinto, no nº 202 dos Campos Elíseos e a quinta em Tormes.

Em todos esses ambientes, tão próximos às personagens que os habitam, Berrini escreve que é possível conhecer traços íntimos de suas personalidades: seus modos de ser, suas manias, a quais classes sociais pertencem e, portanto, qual é o poderio econômico que possuem, seus gostos particulares. Não são raros os momentos em que esses espaços, por sua constituição, possibilitam o desenrolar de acontecimentos imprescindíveis no enredo, como os encontros entre Luísa e Basílio, ou, então, se sobressaiam com ares simbólicos, quase míticos, como é o caso do oratório da Titi e do Ramalhete.

Na terceira edição do livro História literária de Eça de Queiroz, de 1959, seu autor, Álvaro Lins, acrescentou o ensaio Uma geografia de Eça de Queiroz, onde discorre sobre a notabilidade que o elemento espaço adquire na obra do escritor.

[...] a geografia dos romances de Eça de Queiroz revela-se tão sugestiva quanto a fisionomia e a psicologia das suas personagens; que há tanto caráter próprio e tanta vida independente em alguns ambientes físicos desses romances e novelas, quanto nas figuras humanas que neles habitam, transitam e se movimentam, como em seu pequeno correspondente universo, segundo a concepção do romance em termos definidores de um microcosmo163.

O espaço queiroziano adquire uma função que vai além da simples localização da ação narrativa, pois cabe a ele grande parte da responsabilidade em transmitir aos leitores uma atmosfera verossímil, ou, em outras palavras, o caráter realista da obra. Para Lins, este meio literário transita tão próximo do real que escreve o seguinte:

[...] ao desembarcarmos pela primeira vez em Portugal, ao contemplarmos a parte mais típica e característica da Lisboa do século XIX, começamos a exclamar: - Mas tenho a sensação de já ter contemplado toda esta cidade! Para quem leu os romances de Eça de Queiroz a impressão que ocorre não é a de ver, e, sim, a de rever a capital oitocentista!164

163 LINS, Álvaro. Uma geografia de Eça de Queiroz in LINS, Álvaro. História literária de Eça de Queiroz. 3. ed. Lisboa: Livraria

Bertrand, 1959, p. 209-210.

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Este trecho retoma uma questão que foi comentada rapidamente no início do texto: a busca pelos espaços ficcionais na trama real de cidades e campos, que não exclusivamente portugueses. O texto queiroziano propicia esta fascinação, instiga essa curiosidade em muitos dos seus leitores. Estes se envolvem a tal ponto nessa realidade criada que perdem, mesmo que conscientemente, os limites entre real e ficção, verdade e invenção. Pode-se dizer que Lins foi um desses leitores que se enredou por completo nessa atmosfera e, assim, se entregou à busca destes espaços na capital lisboeta:

Certo dia, não me contive, a este respeito: às quatro da tarde, hora nenhuma para restaurante, subi ao primeiro andar do velho Hotel Braganza, à sala de refeições, reencontrando por imaginação, entre várias mesas, aquela mesa de uma cena, que me pareceu sempre imobilizada por efeito mágico, com João da Ega e Carlos da Maia a almoçarem naquele mesmo salão, as janelas abertas sobre a larga paisagem do rio, naquele dia claro de sol de inverno, tudo marcado pela euforia da

volta do amigo ao amigo, após uma separação de anos...165

Ou ainda:

Mas do ambiente do Primo Basílio o principal que desejava ver não era aquela casinha de Luiza; o que me fascinava, principalmente, era procurar o seu túmulo no Cemitério dos Prazeres. Com efeito, fui ao Cemitério não para visitar o túmulo de qualquer político de fama ou de qualquer escritor glorioso, mas para procurar a sepultura de Luiza, para imaginar qual dentre tantas seria a sua sepultura... 166 Lins justifica essa proximidade com o real com os preceitos da escola realista, à qual Eça estava vinculado por convicção e temperamento. Para ele é essa característica que possibilita os rebatimentos, os espelhamentos com a realidade e, dessa forma, torna tentadora e até possível a busca pelo Ramalhete nos arredores de Lisboa ou pelo túmulo de Luíza.

Essa busca pela verossimilhança na literatura das representações de espaços, quase como uma base documental, serviu de mote para um outro trabalho: o arquiteto português, Alfredo Campos Matos, no livro Imagens do Portugal queirosiano, produz um levantamento fotográfico dos “lugares de Eça”, não só os literários, como também, os biográficos. Quatro fotos referentes ao romance A Capital! foram selecionadas e dispostas no final do capítulo, a título de exemplificação (figuras 08, 09, 10 e 11, páginas 87 e 88).

Contudo, no livro, antes de aparecem as imagens complementadas com a transcrição dos trechos dos romances que fazem as referências a tais espaços fotografados, Matos desenvolve um ensaio muito enriquecedor sobre a questão marcante do espaço na obra do escritor e seu caráter realista.

A individualização dos cenários exteriores, quer pela indicação toponímica de uma artéria, quer pelo rigor da numeração de um edifício ou de um andar, quer, ainda, pela descrição breve mas incisiva de um pormenor decorativo ou paisagístico, serve-lhe admiravelmente o processo estilístico, concorrendo, de modo relevante,

165 LINS, Álvaro. Uma geografia de Eça de Queiroz in LINS, Álvaro. História literária de Eça de Queiroz. 3. ed. Lisboa: Livraria

Bertrand, 1959, p. 215.

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para a consumação desse toque mágico com que nos transmite a ilusão da realidade167.

Sobre esse mesmo tema o autor chama a atenção para um outro ponto importante, abordado pelo escritor português em seus romances:

É manifestação própria das preocupações de objetividade do romance realista a localização e caracterização geográfica do espaço ou cenário onde atuam as personagens, cujos movimentos nos vão proporcionando o desenrolar da ação, o seu “tempo” e o seu ritmo. Esse espaço, quer habitacional quer urbano, onde elas se deslocam, resultado de uma observação e de uma análise minuciosas, influencia-as à maneira do determinismo tainiano, adquirindo na novelística do século XIX valor simbólico de monta168.

Neste trecho, Matos aponta para a tese de o espaço influenciar diretamente na personalidade ou no comportamento da personagem que habita, convive ou simplesmente freqüenta este ou aquele ambiente. Para Taine, raça, meio físico e condições particulares do momento determinariam e explicariam o comportamento humano:

Não é sem razão que, n’Os Maias, o gabinete do Largo de Santa Justa, onde o Palma Cavalão, diretor da Corneta do Diabo, recebe os cem mil réis por que vende as provas da canalhice do Dâmaso, é “um cubículo, com uma janela gradeada por onde resvalava uma luz suja de saguão”, e que “na toalha da mesa, salpicada de gordura e vinho, alguns pratos rodeavam um galheteiro que tinha moscas no azeite” 169.

Outro traço forte e bem perceptível dos espaços criados por Eça é a consonância entre crítica e composição espacial, ou seja, a cidade, como Matos exemplifica, terá de refletir o sentimento que percorre toda a sua novelística – o sentimento da decrepitude econômico-social irremissível da pátria e da degenerescência da raça. Escreve:

A recriação que Eça faz da paisagem urbana lisboeta é importante e vivo reflexo do sentimento decadentista em relação ao seu país, que atingiu os nossos mais representativos escritores da segunda metade do século XIX170.

O arquiteto lembra também que nem todos os cenários queirosianos possuem localização exata ou exata transposição literária, pois muitas vezes era a própria fantasia do escritor a transfigurar a realidade: é o caso do palacete de Jacinto, no inexistente nº 202, da avenida Campos Elíseos em Paris; é o caso ainda da imprecisa localização do Ramalhete às Janelas Verdes e do Paraíso, para os lados de Arroios. Em sua conclusão, Campos Matos estabelece cinco razões principais para o uso que o romancista faz dos ambientes geográficos reais:

1º Um princípio naturalista que dá prioridade à influência do meio no comportamento do homem, o que justifica a importância e o cuidado postos na descrição desse meio;

2º Um princípio naturalista, ainda, que pretende tornar facilmente crível ao leitor o mundo romanesco criado pelo escritor, desempenhando aqui a recriação do cenário urbano autêntico importante papel de credibilidade;

167 MATOS, Alfredo Campos. Imagens do Portugal queirosiano. Lisboa, Imprensa Nacional Casa da Moeda, 1987, p. 22.