No capítulo anterior mostramos que assim como o regime varguista, o regime terrista sofreu influências ideológicas internacionais. Os setores conservadores uruguaios estavam deslumbrados com a eficiência e disciplina do fascismo italiano e do nazismo alemão; a cúpula do governo observava com simpatia o regime espanhol do General Franco. Frente a isso, a instalação da ditadura de Gabriel Terra, em março de 1933, fortaleceu o Estado.
No que diz respeito ao comércio exterior, o governo de Terra manteve o chamado dirigismo estatal, ou seja, uma política protecionista. No campo social, como respostas ao aumento do desemprego e a caída dos salários, o governo uruguaio recorreu também ao Estado por meio da criação de obras públicas como a represa hidroelétrica sobre o Rio Negro e da ampliação do número de funcionários públicos, passando de 33 mil em 1933, para 40 mil em 1937. Outra medida, seguindo a linha do tão criticado Conselho Nacional de Administração, foi a fixação dos preços dos artigos de primeira necessidade, subsídios para a carne e a redução do aluguel.
Entretanto, essas medidas de caráter popular foram seguidas de outras de caráter repressivo. Com o argumento de que o ingresso de estrangeiros agravava o desemprego, o governo de Terra restringiu a imigração. Porém, a verdadeira razão era impedir o ingresso de imigrantes “agitadores”, sobretudo, socialistas e comunistas, dos países do centro e leste europeu. Em 1934 elaborou-se também o Código Penal, baseado no Código Rocco da Itália fascista. Dessa forma, os “revolucionários de março”, como se autodenominavam os autores do golpe de estado, começaram de imediato sua tarefa de “reconstrução” do país.
Primeiramente, a repressão a qualquer oposição ao novo regime, repressão que pelos seus métodos não permite, de nenhum modo, sua definição como “dictablanda”. Pelo contrário, confirma seu caráter autoritário (o silenciamento da imprensa adversária com
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ataques à liberdade de expressão, a repressão contra o movimento operário, práticas de torturas, o controle educativo, etc.).276 Como lembrou Yvette Trochon e Beatriz Vidal, o próximo passo foi buscar a legitimidade do novo regime:
El tratar de ocultar- como dijera Justino Zavala Muniz- ‘las orejas de lobo com el gorro frigio de la democracia política’. La Constitución de 1934 cumplió ese objetivo e inauguró la pomposamente denominada Tercera República donde herreristas y terristas- que habían sido los protagonistas esenciales del quiebre institucional- se repartieron el poder. 277
À repressão do governo seguiu-se a abstenção da “nova” oposição – batllistas, nacionalistas independentes, blancos radicais e socialistas – nas eleições que determinaram a escolha da convenção que elaboraria essa nova Constituição. Desta forma, a Convenção Constituinte de 1933 foi composta por terristas e riveristas, pelo Partido Colorado, e por herreristas, pelo Partido Nacional. Depois de conturbadas sessões, com muitos desentendimentos e trocas de acusações, aprovou-se um conjunto de medidas: o fim do CNA, a extensão do voto aos estrangeiros e mulheres, e estabelecimento dos direitos do Estado para com a sociedade civil, dentre outras. Além disso, o Poder Executivo foi organizado de uma forma quase parlamentar. Haveria o presidente da República e um Conselho de Ministros por ele escolhido. O Poder Legislativo manteve-se bicameral, e o Senado, composto por 30 homens, seria dividido ao meio (15 cadeiras para o grupo mais votado do partido vencedor nas eleições e outras 15 para aquele com maior votação dentro do partido perdedor). Todavia, é importante lembrar que a Constituição de 1934 manteve muitas das propostas levantadas durante os primeiros trinta anos do século XX sob forte influência do batllismo. Por exemplo, em resposta à crise econômica que atingia o país desde o início da década de 1930, algumas diretrizes batllistas foram mantidas e até ampliadas, como a intervenção estatal na economia, o protecionismo alfandegário, o processo de industrialização substitutiva de importações, entre outras. Verificou-se então, um claro processo de continuidade do reformismo batllista, apesar da quebra institucional de 1933.278
Nesse ambiente político de eleições gerais de 1934 que os terristas tiveram sua vitória confirmada como grupo político mais votado do Partido Colorado, enquanto os herreristas tiveram confirmadas suas 15 cadeiras no Senado. Entretanto, aos poucos o regime
276 Trochon, Op. Cit.; p. 10. 277 Idem.
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terrista foi se deteriorando, apesar da falta de uma mobilização eficaz da oposição. As duas maiores investidas contra o governo de Terra foram um movimento armado e as tentativas de se formar uma Frente Popular de oposição.
Quanto ao movimento armado, este iniciou-se em 28 de janeiro de 1935 e tinha como intenção sublevar o meio rural utilizando táticas de guerrilha do século anterior. Foram lideranças deste movimento os dirigentes batllistas Luís Batlles Berres, Tomás Berreta, Andrés Martínez Trueba279 e os nacionalistas Carlos Quijano e Mariano Saravia. O movimento fracassou em 4 de fevereiro do mesmo ano, justamente pela falta de planejamento, comunicação, adesão dos jornais, etc. Já a Frente Popular foi uma aliança político-partidária da oposição para enfrentar o herrerismoe e o riverismo nas eleições de 1938. Mais uma vez, a falta de unidade de interesses somada a uma lei eleitoral criada pelo riverismo-herrerismo, que proibia os batllistas de concorrerem sob a alcunha do Partido Colorado e os nacionalistas independentes e radicais blancos de concorrerem sob a alcunha do Partido Nacional, impossibilitaram a formação de tal Frente Popular de oposição. Como resultado, a oposição se absteve do pleito.280
De toda forma, é importante destacar que amplos setores dos partidos tradicionais (batllistas e nacionalistas independentes) e os partidos de esquerda (socialistas e comunistas) mantiveram sua oposição ao governo de Terra, ainda que não tenham conseguido manter uma unidade de oposição, devido às divergências político-ideológicas. Batllistas e nacionalistas independentes tinham como objetivo a restauração do sistema político anterior ao golpe de Estado de 1933; já os setores de esquerda queriam reformas econômicas e sociais de acordo com os seus ideais. Porém, houve discrepâncias dentro da esquerda também. O Partido Comunista propôs aos socialistas formar uma Frente Popular, tal como se organizavam na Europa para deter o avanço do fascismo, mas eles não aceitaram. Com isso tornou-se impossível um acordo.
Enquanto isso, os setores governantes, terrismo e herrerismo, que dominavam o Parlamento dada a abstenção dos demais setores, aprovaram algumas leis que impediam a melhor organização de seus adversários políticos. À medida que os efeitos da crise passavam e a economia recuperava-se, novos caminhos surgiam no horizonte político. Por um lado, a oposição ao regime terrista ganhava força tanto pela perda de prestígio dos regimes fascistas quanto pelas ações combativas de grupos antifascistas. Por outro lado, a divisão da base
279 Os três chegaram à Presidência da República posteriormente. 280 Souza, Marcos Alves de. Op. Cit.; p. 61-62.
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política da ditadura terrista favoreceu à oposição. Terra perdeu o apoio de alguns de seus principais aliados dentro do Partido Colorado como Pedro Minini Ríos e Demichelli. Houve também divisões internas no herrerismo. Dessa forma, nas eleições de 1938, enquanto a oposição se absteve mais uma vez e não apresentou lista de candidatos, os setores que haviam apoiado a ditadura dividiram-se. Os terristas apresentaram dois candidatos para presidente: Alfredo Baldomir, cunhado de Terra, e Eduardo Blanco Acevedo, consogro do presidente; os herreristas também apresentaram dois candidatos: Juan José de Arteaga, apoiado por Herrera, e Justo M. Alonso, apoiado por alguns deputados contrários a Herrera.
Nota-se, então, que a fragmentação interna tanto riverista quanto herrerista, principais bases sócio-políticas da ditadura de Terra, enfraqueceu o regime ao ponto de favorecer a vitória do general Afredo Baldomir, cunhado de Gabriel Terra e líder da lista eleitoral menos conservadora do terrismo. O grupo político do Partido Colorado que apoiava Blanco Acevedo até tentou impedir a posse de Baldomir, mas foi rapidamente controlado por Terra. Nessas disputas internas do próprio regime, o triunfo correspondeu a Baldomir, que se mostrou disposto a modificar a situação política e aproximou-se dos batllistas e dos nacionalistas independentes. Com isso, surgiram-se novos alinhamentos políticos, e o terrismo enfraqueceu-se como segmento político.